Relvados sintéticos, uma nova era nos estádios

Os campos de relva sintética começam a encontrar o seu lugar no complexo universo do futebol internacional. Passaram mais de três décadas desde as primeiras aventuras com relvados sintéticos e para muitos os campos de relvado artificial são o futuro para um negócio que  procura desesperadamente por rentabilizar ao máximo tudo aquilo em que toca.

 A experiência de Loftus Road

Foi numa tarde sol de Londres. Um 1 de Setembro histórico.

Mais de 22 mil adeptos encheram as bancadas do Loftus Road. Era mais do que a emoção de uma nova época que começava. No dia em que o Queens Park Rangers se estreava em casa na First Division de 1981/82, o futebol era o que menos chamava a atenção. A equipa londrina preparava-se para estrear o primeiro campo de relva sintética da história do futebol britânico. Não havia, na elite do futebol europeu, memoria de algo assim. O clube tinha gasto 350 mil libras no Verão para trocar o relvado natural por um campo formado à base de Omniturf, um modelo sintético que prometia ser o futuro dos relvados de futebol. Para o QPR a decisão era menos desportiva e mais económica. O relvado artificial permitia ao clube utiliza-lo durante a semana e fora de temporada para concertos e eventos especiais e era uma garantia de que o duro inverno londrino não ia afetar a qualidade do terreno de jogo. Na prática a inovação revelou ser um inesquecível fracasso.

A bola tinha vida própria, aos jogadores custava-lhes jogar num terreno duro que pouco ou nada tinha de similar à relva natural. O relvado provocava trajectórias estranhas, ressaltos exagerados da bola e perda de coordenação dos jogadores. Se isto era o futuro, então parecia que o amanhã seria pouco promissor. O relvado sintético foi moda de curta duração nos anos oitenta. Até cinco clubes da primeira divisão chegaram a instala-lo mas no inicio dos anos noventa, com a remodelação total ou parcial da maioria dos estádios, a relva natural voltou a recuperar o seu protagonismo histórico. Nos Estados Unidos, onde o modelo também foi rapidamente instalado pelos clubes para potenciar os seus multi-pavilhões, a experiência durou pouco. O Omniturf ou AstroTurf eram demasiado perigosos para os jogadores e instáveis para o desenrolar dos jogos para serem suportados por adeptos, dirigentes e protagonistas. Os terrenos artificiais foram banidos pela UEFA e pela FIFA. Parecia o fim de uma curiosa anedota desportiva. Acabou por ser o primeiro capitulo numa longa história.

O renascimento dos relvados sintéticos

Atualmente os relvados sintéticos voltam a ser protagonistas de uma nova geração.

O desenvolvimento tecnológico potenciado por varias empresas dedicadas exclusivamente foi o primeiro passo. Abandonou-se o conceito plástico e duro das primeiras superfícies e procurou-se adaptar-se ao máximo o terreno artificial ao original em relva, com a vantagem de poupança financeira e de desgaste em condições climatéricas instáveis. Começaram a ser instalados em pavilhões indoor, abrindo uma nova etapa no jogo disputado em salões, e progressivamente de aí passou para campos de treino. O salto era lógico. Muitos clubes entraram no novo milénio a apostar forte em campos de treino e centros de estágio com as melhores condições possíveis. Era uma forma de poupar o relvado dos estádios principais e de potenciar ao máximo o treino em caso de más condições climatéricas. Progressivamente foram introduzidos relvados artificiais em campos que garantiam que nos dias de intempérie o treino podia realizar-se sem problemas. Foi o primeiro passo para a reabilitação desportiva dos campos sintéticos. De aí o passo aos relvados nos estádios era inevitável.

Vários clubes modestos começaram a seguir o exemplo inaugural do QPR. A principio a FIFA e UEFA não sabiam bem como lidar com esta novidade e baniram os campos das suas provas internacionais. Mas os bons resultados, em tudo distantes das péssimas experiências dos anos oitenta, foram abrindo as portas a uma nova era. No Luzhniki de Moscovo disputou-se o primeiro encontro internacional de seleções num campo artificial na Europa, um duelo entre russos e ingleses. Meses depois a final da Champions League foi disputada no mesmo estádio mas a relva artificial já tinha sido trocada por um campo de relva natural temporal. Seria uma metamorfose lenta e com suspeitas de todos, habituados à pureza dos míticos tapetes verdes.

A sanção da FIFA

A partir de 2005 os campos de relva sintética foram definitivamente sancionados pela FIFA que criou um sistema de classificação de qualidade que gere a qualidade de cada relvado e que tipo de competições esse campo pode receber. Atualmente já foram disputados em relvado sintético jogos de todas as provas europeias, de clubes e seleções, bem como vários encontros de ligas nacionais. Os gastos reduzidos, a possibilidade de se utilizar o relvado em eventos fora do âmbito desportivo e as questões climatéricas são hoje, como há trinta anos, o principal motivo para que muitos clubes tenham optado por avançar definitivamente para os relvados artificiais.

O mercado está atualmente controlado por cinco empresas autorizadas pela FIFA para produzir, testar, inovar e instalar terrenos de jogo artificiais – ACT Global Sports, Limonta, Edel Grass, GreenField e Desso. São os nomes do futuro, aqueles gurus a que os clubes acudem à procura de uma solução para os seus problemas de manutenção. E a procura tem aumentado. Ainda ausentes das primeiras divisões inglesa, espanhola e italiana, os relvados sintéticos podem hoje ser encontrados em campos de clubes como FC Lorient, Volendam, Tromso, Norkoping, Young Boys ou Boavista. Eles são os profetas de uma nova era.

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