Quem disse que o futebol não é um fenómeno social transversal? Em Inglaterra a comunidade gótica uniu a sua devoção pela música e o futebol num projeto original. Um clube de futebol amador que transporta para os relvados a iconografia de uma tribo urbana que não deixa ninguém indiferente.

A evolução do futebol gótico inglês

Chuteiras ou botas de cabedal? Equipamentos clássicos ou fatos rendilhados e feitos à medida? Para os seguidores do Real Gothic FC não há necessidade de escolher. Eles têm o melhor de dois mundos.

Fundados em Inglaterra por membros da comunidade musical gótica londrina, filhos desse submundo urbano popularizado pelas narrativas literárias do século XIX e transformados em tribo urbana desde a década de sessenta, os góticos do futebol inglês são um projeto original em todos os sentidos.

Na década de 70 o futebol inglês conheceu uma primeira versão futebolistica do movimento. Chamava-se Gothic FC e resultava da união de vários operários da zona de Norwich com uma paixão pelo género musical gótico, que por então dava os seus primeiros passos no submundo musical britânico. Era uma equipa amadora, que nunca passou da liga regional de East Anglia, o sudoeste inglês, e que acabou por fechar as portas nos anos noventa. Apesar da nomenclatura e dos trajes exibidos pelos seus seguidores, em campo os Gothic FC eram como outra equipa qualquer. Equipavam de negro, é certo, mas nada mais os distinguia de outros emblemas amadores que davam cor à liga local. O projeto Real Gothic FC decidiu ir um pouco mais longe.

El Gotico

Fundado pelo vocalista da banda musical Manuskript, Mike Uwins, a ideia por detrás do clube era forjar uma identidade complementar entre o mundo do futebol e a cultura visual gótica. Mas ao contrário do seu antecessor, o Real Gothic não tinha muitas ambições futebolistas e nunca se inscreveu em nenhuma liga, por muito amadora que fosse.

Em contrapartida, disputa anualmente um encontro na localidade de Whitby, em vésperas de uma popular reunião da comunidade gótica britânica que faz da sua peregrinação habitual à cidade um dos pontos altos do seu ano.

De forma a fazer as pazes com os habitantes da localidade, inicialmente hostis ao evento, um grupo de góticos decidiu em 2004 arrancar com uma iniciativa de convívio pioneira. Nesse ambiente de celebração os jogadores do clube – a maioria dos quais músicos – sobem ao relvado para defenderem as suas cores, ou melhor, a sua cor, contra um combinado local.

O encontro é conhecido como “El Gótico”, e conta com o patrocínio de várias marcas desportivas internacionais, sempre atentas a estes fenómenos culturais.

Naturalmente, o Real Gothic FC joga de negro – com o logotipo da empresa norte-americana Nike ao peito, ao lado do emblema do clube, repleto de iconografia gótica – e não é estranho ver os jogadores disputarem o encontro maquilhados. Ao intervalo, uma exibição das senhoras não podia faltar. Uma sátira negra à política de cheerleaders americana, cada vez mais copiada nos estádios europeus. Nas bancadas, o público comporta-se a rigor. Trajes vitorianos, penteados coloridos e o negro, sempre, omnipresente. No final dos habituais noventa minutos, jogadores e público confraternizam no relvado enquanto um simbólico troféu é entregue à equipa vencedora.

No final, o futebol demonstra uma vez mais a sua capacidade para surgir nos mais inesperados dos sítios. Numa celebração daquela que é talvez a tribo urbana mais ostracizada pela sociedade britânica, há sempre espaço para celebrar a magia do beautiful (ou dark) game.

2.254 / Por