Re Cecconi, o louco laziale

Há histórias onde vale a pena começar pelo fim. Re Cecconi morreu num 18 de Janeiro da forma mais louca que se possa imaginar. Era uma das grandes estrelas do Calcio, o rei da AS Lazio. Mas também era conhecido pelas suas loucuras. Uma delas custou-lhe a vida. Uma simulação de um assalto, um tiro preciso. Aos 28 anos morria o maestro do futebol laziale, o “Angelo Biondo”.

Herói romano

Médio de uma classe apuradíssima, Re Cecconi era o idolo dos adeptos da AS Lazio. Aos 28 anos vivia como um rei em Roma. Tinha ganhado a pulso o seu titulo. Uma carreira repleta de esforço e sacrificios. Mas também de muita loucura. Dentro e fora do tapete verde. Um mago louco que nascera em 1948, em pleno pós-guerra na pequena localidade milanesa de Nerviano. Loiro como os amaldiçados arianos, o jovem Luciano Re Cecconi cresceu nos suburbios da capital lombarda com o sonho de emular os seus grandes idolos, o trio sueco do AC Milan. Em 1968, cumpridos os 20 anos, estreou-se finalmente como futebolista profissional no modestíssimo Pro Patria Calcio. Chamou rapidamente à atenção do Foggia que encontrou nele o lider nato que a equipa, então na serie B, precisava. Num ano fez-se dono e senhor do meio campo da equipa e levou-os de volta ao convívio dos grandes. Dois anos depois trocou Foggia pela capital. A AS Lazio precisava desesperadamente de um jogador de classe e apontou baterias ao já celebre “Angelo Biondo”.

Foi o inicio de uma louca história de amor. Na capital romana o jovem médio encontrou uma equipa ambiciosa mas sem um lider. Assumiu o posto para delicia dos adeptos laziale e do seu técnico, o sempre polémico Tommaso Maestrelli, responsável pela sua chegada a Foggia. O regista azul tornou-se insubstituivel. No seu primeiro ano apontou um golo e conseguiu dez assistência em trinta jogos. A Lazio, até então uma equipa do meio da tabela, acabou a prova em terceiro, a apenas dois pontos da poderosa Juventus. Ao lado do médio estavam o veterano Giuseppe Wilson e ainda a dupla Giorgio Chinaglia e Mario Frustalupi. Depois do sucesso inicial em Roma, Re Cecconi estreou-se pela Squadra Azzura e entrou no lote de candidatos a viajar ao Mundial da Alemanha. O ano seguinte seria o coroar de uma carreira explosiva. Lesionou-se cedo mas a sua recuperação foi épica. Quando regressou a equipa andava pelo quinto posto. Com uma série de exibições inesqueciveis, a AS Lazio foi trepando a classificação. No final lograva o primeiro Scudetto da sua história levando os adeptos à loucura. O “Angelo Biondo” tornou-se no espelho da vitória e pela cidade cartazes e pintadas com o seu nome espelhavam bem a sua tremenda popularidade. De tal forma que a sua inclusão no onze da Azzura no Mundial da Alemanha tornou-se rapidamente em debate nacional. A eliminação precoce da Itália – na fase de grupos – é associada à presença constante no banco do regista. A sua figura tornava-se divina.

Uma brincadeira trágica

Ao mesmo tempo o jovem médio começava a inundar os relvados com as suas loucuras. Problemas com os árbitros, colegas e rivais tornaram-no num jogador assumidamente conflituoso. O seu caracter de gigolo tornava-o ainda mais popular para os adeptos. Era o verdadeiro playboy do Calcio italiano dos anos 70. No ano seguinte ao titulo – e impedida de participar na Taça dos Campeões por suspensão da UEFA – a Lazio enfrenta graves problemas. O técnico é forçado, por questões de saúde, a abandonar a equipa e o conflictivo carácter de Re Cecconi não apazigua os problemas do balneário. A equipa está perto da despromoção mas uma recta final impecável do médio e o regresso temporal de Maestrelli – que morrerá pouco depois, vitima de um cancro – salvam o conjunto da despromoção. O ano seguinte levantava muita expectativa mas o médio, então com 28 anos, lesiona-se gravemente ao segundo jogo. E não voltará a jogar. Na noite de 18 de Janeiro, depois de jantar num conhecido restaurante romano, Re Cecconi convence o seu amigo e colega de equipa, Pietro Ghedin, a simular um assalto à joalharia do famoso Bruno Tabochini. Os dois saem do restaurante com as gabardinas a cobrir parte do rosto e entram no establecimento. Cecconi grita “Mãos ao alto que isto é um assalto” e o joalheiro, que estava de costas e que posteriomente confessou não ter reconhecido o craque, pega numa pistola que tinha sempre consigo e dispara à queima-roupa. Re Cecconi morre nessa mesma noite.

A última das suas famosas brincadeiras que assolavam a noite romana tinha-lhe sido fatal. Sem Re Cecconi a AS Lazio entra em processo de auto-destruição. A equipa envolve-se numa polemica de apostas ilegais e é despromovida à Serie B. É preciso chegar o final da década de 90 para voltar ao mais alto nível e só em 2000 logra o seu segundo Scudetto. Até então, no topo sul do Olimpico de Roma, sempre havia uma tarja que lembrava aos visitantes que naquele relvado imenso tinha espalhado o perfume do seu futebol um louco anjo loiro chamado Re Cecconi.

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