Imaginem um Brasil vs Argentina debaixo do tórrido calor da Cidade do México. Em campo, os argentinos apresentam a sua grande arma, o génio de Diego Armando Maradona. Do outro lado, com a canarinha ao peito, aparece Pelé. Não é uma mera suposição. Esteve muito perto de tornar-se realidade…

Um génio de outra era

45 anos.

Pelé tinha 45 anos em Maio de 1986. Uma idade mais do que aceitável para um futebolista retirado, quase três décadas depois da sua precoce explosão na Suécia. Três décadas que tinham significado uma profunda metamorfose na história do futebol. Quando Pelé apareceu, quase do nada, o 4-2-4 ainda era uma ideia que não tinha conquistado totalmente os brasileiros. A pressão um conceito vago, a liberdade individual do jogador sobrepunha-se aos esquemas tácticos e a velocidade de jogo bastante menos importante para o desenrolar do encontro do que se tornou com o tempo. Pelé não foi ao Mundial de 1974 – apesar de ter idade para poder competir – porque já não se sentia adaptado aos novos tempos. Os que chegaram com Maslov, Michels, Cruyff, Beckenbauer e o Futebol Total.

Um jogo mais físico, mais exigente tacticamente e fisicamente para os jogadores, mesmo os artesãos do passado. Um cenário que para Pelé era absolutamente estranho, mesmo sem ter disputado um só jogo no futebol europeu. Do Santos paulistano, o genial brasileiro passou para a emergente liga norte-americana onde permaneceu até ao final dos anos setenta. Lá fora, o mundo era radicalmente diferente. No relvado também. E no entanto, com 45 anos, Pelé pensou no estádio Azteca. No delirio das multidões. Naquele salto imortalizado no tempo. E quis voltar a jogar. A fazer do Brasil tetracampeão mundial. Contra a Argentina, contra a Argentina de Maradona.

A birra de Leandro

Edson Arantes de Nascimento não era o único que sonhava com esse duelo.

A derrota do Brasil contra a Itália, em 1982, abriu uma profunda ferida na moral dos adeptos brasileiros. Começou a nascer uma corrente de adeptos que favoreciam uma abordagem mais europeia, mais tacticamente exigente à seleção. Como contraposição levantou-se uma onda de nostalgia dos românticos que acreditavam que Zico, Sócrates e Falcão eram os genuinos herdeiros de Didi, Gerson, Garrincha. E de Pelé.

O assunto saltou para as capas dos jornais e para os bares e ruas das cidades brasileiras em Maio, a apenas um mês do arranque do Mundial 1986, prova para a qual o Brasil se tinha classificado com comodidade. Telé Santana, o homem por detrás do último sopro de magia do futebol brasileiro, queria manter o bloque de 82, adicionando apenas mais incisão na área. O regresso do lesionado Careca era uma das suas armas. A outra era Renato, o avançado do Grémio de Porta Alegre.

No entanto o caracter conflitivo de Renato era um problema com o qual o selecionador parecia ser incapaz de lidar. Talentosos goleador, o dianteiro era também um atleta pouco profissional que passava mais horas nos bares das escolas de samba de Porto Alegre do que nos treinos. A gota que transbordou o copo aconteceu num dos amigáveis prévios ao Mundial. Renato Gaúcho chegou atrasado à concentração em profundo estado de embriagez. Santana não lhe perdoou a traição depois de várias oportunidades dadas e mandou-o para casa. Curiosamente fê-lo com Leandro, o lateral que tinha brilhado no Espanha 82 e que era um dos melhores amigos de Renato. E que tinha sido o principal protagonista dessa celebração nocturna.

A polemica não convocatória de Renato começou por ser um dos grandes debates futebolisticos do Brasil nessa véspera de Mundial. Telé Santana convocou Valdo – também do Grémio – e ouviu as criticas de adeptos de vários clubes que exigiam a chamada do “seu” avançado. O que não esperava era ter de lidar com a renúncia de Leandro. Fiel ao seu amigo, consciente de que tinha sido tão responsável como ele nessa mítica festa até às tantas, o lateral do Flamengo recusou-se a viajar até ao México.

Santana estava no aeroporto, à espera de um jogador que não ia embarcar. Zico, Sócrates e Falcão foram até sua casa, tentar convencê-lo a voltar atrás com a sua decisão. Sem sucesso. E assim o Brasil viajou com menos um jogador para o Mundial. Horas depois do avião levantar voo, ainda com a comitiva no ar, apareceu Pelé a oferecer-se para ocupar a vaga. Ele seria quem levaria o Brasil ao seu quarto título mundial.

A campanha de pressão

A principio a ideia pareceu tão louca que poucos a levaram a sério.

Mas Pelé estava decidido a fazer valer a sua posição. Apareceu na televisão a prometer que se colocaria em forma física nesse mês que faltava até ao pontapé de saída e que seria um suplente útil em momentos de aperto para Santana. Não exigia ser titular mas queria ajudar o “escrete canarinho” a não cair nos mesmos erros de quatro anos antes.

A opinião pública, inspirada pela imagem quixotesca do seu idolo, saiu à rua para apoiar a sua pioneira ideia. Queriam Pelé na seleção outra vez. Até Raymond Kopa, que tinha jogado contra ele nesse Suécia 58 foi favorável ao seu desejo de voltar, dando a entender que génios como ele, Ferenc Puskas, Alfredo di Stefano ou Stanley Matthews não perdiam a capacidade de decidir jogos com a idade. Atrás de si vinha uma poderosa máquina mediatica – alimentada pela rede Globo – e a ilusão de um país. Mas a ideia chocou contra a vontade de Telé Santana.

Inicialmente o selecionador tentou ser o mais diplomático possível, mencionando a idade avançada de Pelé para competir nas condições extremas do México. Á medida que o mês passava – e o Brasil sem jogador extra – aumentavam também as vozes de apoio a Pelé e as respostas mais ácidas de Santana. Sobrevivendo às pressões que chegavam da própria federação, o técnico manteve-se irredutível. Poucos dias antes do apito inicial da prova chegou à concentração brasileira Josimar, o substituto definitivo de Leandro. O sonho de Pelé tinha morrido.

O Mundial de Maradona

As relações entre o astro dos relvados e o génio dos bancos do futebol brasileiro nunca mais foram as mesmas. O Brasil partiu para o torneio como um dos favoritos. Teve problemas em ganhar o seu grupo – um golo fantasma anulado a Michel garantiu a liderança – e nos quartos-de-final a equipa sul-americana cruzou-se com a França de Platini. O duelo, empatado em campo, só foi decidido na loteria das grandes penalidades e os europeus seguiam em frente. Pelo segundo torneio consecutivo o Brasil falhava o assalto às meias-finais da prova de forma dramática. Santana demitiu-se e lá ao fundo ouvia-se a voz de alguém que sugeria que a presença de Pelé podia ter mudado o rosto da história.

O número 10 brasileiro – que viajou ao Mundial como comentador oficial da Globo – sofreu ainda, talvez mais que a derrota do seu Brasil, a definitiva ascensão de um jovem que proclamava o direito de ocupar o seu lugar no espaço mediático reservado ao melhor de sempre. O torneio memorável de Diego Armando Maradona, culminado com o segundo título mundial para a Argentina, reabriu um debate que muitos imaginavam adormecido e que se mantém até hoje.

Que teria sido dessa eterna discussão se, debaixo desse sol sem piedade das terras aztecas, Pelé e Maradona se tivessem cruzado no campo, equipados a rigor, a disputar numa dimensão paralela, um duelo entre eras, para vencer um troféu fictício que pertence às mais misteriosas conjecturas da mente humana?

3.807 / Por
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