Dois dias depois da cidade de Agdam ter caído, o Qarabag conquistou o seu primeiro título de campeão do Azerbaijão. Um título que não puderam celebrar com os seus. A cidade tinha sido arrasada pelas forças invasoras arménias e hoje o que resiste são apenas escombros. Agdam caiu mas o Qarabag continuou a lutar, a centenas de quilómetros de casa, para manter a memoria viva da sua cidade.

Qarabag, sobreviver a 300 kms de casa

Em 2014 o Qarabag foi coroado campeão do Azerbaijão. Foi a primeira vez que o clube celebrou um titulo nacional desde 1993. Nessa altura era uma equipa com cidade, adeptos e identidade própria. Hoje representa um vazio emocional no coração do Azerbaijão. São o símbolo de mais de meio milhar de refugiados que, como o clube, tiveram de abandonar a sua cidade de origem para procurar sobreviver. Um clube que existe apenas com um objectivo, o de voltar algum dia a casa.
A história do Qarabag confunde-se com a história do Caucaso nos dias que se seguiram ao colapso da União Soviética. Um modesto clube, fundado na cidade de Agdam, não tinham tido qualquer expressão durante os dias da liga soviética.

Com o nascimento de um novo país, confirmado após o desmembramento da URSS, o Qarabag viu-se rapidamente parte de uma nova realidade, tomando parte da recém-formada Liga do Azerbaijão. Foram anos de glória para o clube que se transformou rapidamente num dos mais acérrimos rivais do Inter Baku, o clube da capital. Em 1993, poucos anos depois do nascimento do país, o Qarabag tornou-se na grande sensação do futebol nacional ao conquistar uma histórica dobradinha. Primeiro chegou o triunfo na Taça do Azerbaijão e semanas depois, o seu primeiro titulo nacional. O que tinha tudo para ser uma história de conto de fadas tomou cedo contornos de tragédia grega. A meio da campanha vitoriosa do Qarabag, o exército da Arménia invadiu os seus vizinhos do Azerbaijão para reclamar a soberania da zona de Nagorno-Karabakh, onde se situava Agdam.

A invasão foi rápida e implacável. As tropas arménias ocuparam facilmente a zona e iniciaram o seu cerco á cidade enquanto que os seus filhos ilustres, os jogadores do Qarabag, disputavam a meia-final da Taça em Baku. A equipa voltou á cidade, rompendo o cerco, mas foi rapidamente enviada de novo para o coração do Azerbaijão por questões de segurança. As autoridades militares acreditavam que o êxito do Qarabag nos terrenos de jogo compensava o pouco que os seus jogadores podiam fazer no terreno de batalha. A equipa, inspirada pela tenaz resistência dos seus, cumpriu com o objectivo para lograr a dobradinha mas quando a temporada chegou ao fim já Agdam era uma cidade em ruínas na posse do exército arménio. Semanas depois, á medida que o conflito seguia, foi proclamada de forma unilateral a República de Nagorno-Karabakh que não foi reconhecida por mais nenhum estado salvo as também secessionistas repúblicas da Transnitria, Ossétia e Abzákia. Centenas de sobreviventes começaram a fugir, rumo ao sul, transformando-se em refugiados dentro do seu próprio país ao mesmo tempo que arménios, com medo a ser perseguidos, rumavam ao norte. No meio deste puzzle o Qarabag procurava sobreviver como podia.

A fénix do Cáucaso

Ao êxito desportivo de 1993 seguiu-se um longo período de seca.

Muitos dos jogadores perderam famíliares na guerra, alguns procuraram abandonar o futebol, outros caíram no campo de batalha. O clube entrou em colapso e afundou-se para renascer com a força dos mais de 400 mil refugiados da região de Agdam no coração do Azerbaijão. Desde a capital foi criada uma fundação para ajudar os refugiados e uma das primeiras decisões tomadas foi a de dotar o Qarabag de meios para servir como símbolo de esperança aqueles que foram expulsos das suas casas. O clube estava forçado a jogar no estádio da capital, o Tofiq Bahramov, a mais de três horas e meia de viagem do seu estádio original, o Imaret, hoje um conjunto de pedaços de pedra em pedaços que não deixam esquecer as sucessivas noites de bombardeamentos que acossaram a cidade.

Dentro dessa realidade, o clube ressurgiu das cinzas, sobretudo apoiando-se emocionalmente numa base de adeptos fanáticos, desejosos de ver no sucesso do clube um reflexo de que melhores dias podem estar ao virar da esquina. Ainda que politicamente a situação se tenha mantido inalterada – e a República de Nagorno-Karabakh – continue a existir em terra de ninguém e sem o reconhecimento de nenhum estado – os triunfos do clube que ainda ostentam o nome da capital destruída pelas armas relembra o Azerbeijão permanentemente de uma das suas mais dolorosas derrotas.

O renascimento do campeão no exílio

Em 2014, depois de uma série de anos em que a equipa pareceu em condições para voltar a disputar o titulo que não vencia desde esse fatídico mês de Agosto de 1993, conquistando duas Taças pelo caminho e estreando-se em provas europeias, o Qarabag voltou a saber o que é ser campeão nacional. O triunfo sobre o Inter Baku, no relvado, antecedeu um cortejo de lágrimas e memorias e de gritos de revolta pela lembrança daqueles que caíram e dos que jamais poderão voltar a ver os seus. A conquista do campeonato nacional abre uma nova esperança para o futebol do oeste do pequeno estado caucasiano mas não deixa de ser um duro reflexo da instabilidade política da zona. Como sucede já com o Sheriff Tiraspol, também o Qarabag é o espelho de uma serie de cicatrizes mal curadas depois da sangria do império soviético.

Um clube que procura através do sucesso desportivo encontrar alguma forma para poder voltar a casa e olhar para o céu de Agdam uma última vez. Uma cidade de campeões que nunca celebrou um titulo e que espera reencontrar-se consigo mesma graças a uma bola de futebol.

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