A 12 de Julho de 1998, o rosto gigante, imperial, napoleónico de um jogador de futebol dá cor à parede do mítico Arco do Triunfo. A multidão de Paris saiu à rua mas desta vez não é para celebrar nenhuma revolução ou libertação. Está exultante com um acerto de contas com a história. Os milhões de “citoyennes” gauleses gritam pelo seu novo general, pelo máximo representante da BBB. A selecção nacional de futebol, rebaptizada do acrónimo histórico dos Bleus para os Black (Negros), Blanc (Brancos) e Beur (Árabes). O general Zidane, franco-argelino, é transformado em profeta dos novos tempos. Na realidade, não é mais do que um sucessor de uma primeira vaga de emigrantes, proscritos e despeitados génios do futebol que vestiram a camisola azul da França contra aqueles que reclamavam pela ausência de sangue gaulês. A primeira grande geração integradora das minorias do “hexágono” saltou para a ribalta quarenta anos antes da cara de “Zizou” ter substituído, por uma noite, o busto da bela Marianne como símbolo da República.

Um país envergonhado da sua multiculturalidade

A história do futebol francês vive repleta de lendas e mitos alimentadas pela ambição de um país que demorou mais do que podia imaginar até ocupar o seu lugar na história do futebol. Talvez fosse o preço a pagar pelo despeito que os gauleses sempre tiveram pela invenção inglesa. Até aos anos 30 o futebol era um desporto de segunda, para imigrantes, muito distante daqueles hinos ao individualismo que os franceses tanto apreciavam como o ténis, o ciclismo e os desportos automóveis. Se não fosse pela iniciativa de vários industriais regionais, fora do círculo de poder de Paris, talvez ainda hoje o beautiful game fosse ainda um parente pobre no imenso hexágono. E talvez por isso ainda hoje custa à sociedade mais conservadora dentro do país de admitir que o edifício do futebol francês foi construído, desenvolvido e melhorado sempre pela presença daqueles que eram considerados de fora. Os impuros de sangue.

Nas bancadas os adeptos ainda hoje não têm grandes problemas em distinguir entre os franceses puros e os franceses de segunda, produtos da imigração e de um império que se desfez como um castelo de cartas ao mais suave sopro de revolta. É um sentimento omnipresente, o mesmo que provocou sucessivas rebeliões dentro dos balneários e que culminou com a infame prestação dos então vice-campeões do Mundo na África do Sul. Tinham passado apenas doze anos de glorificação do modelo de integração étnico e cultural e as velhas diferenças voltavam a triunfar sobre o pensamento progressista de união. Para alguns era um choque, um retrocesso. Para os mais atentos apenas o reflexo de mais de cinco décadas de história do futebol em França. Uma história que começou a chocar a opinião pública nas vésperas do Mundial da Suécia, em 1958.

1958, a selecção que os gauleses não queriam

Apesar da insistência dos dirigentes e jornalistas franceses, havia algo no futebol do país que parecia não conseguir que triunfasse no estrangeiro. Jules Rimet, o pai dos Mundiais, tinha sido o principal responsável para que a França estivesse a bordo da história da competição desde o primeiro momento mas exceptuando a trivial informação de que foi um gaulês – Fabian Laurent – o autor do primeiro golo oficial do torneio inaugural, a prestação dos franceses era tímida. Mais, era decepcionante. Foi assim nas sucessivas edições que participou e, inevitavelmente, naquelas em que esteve ausente por manifesta incapacidade de se equiparar aos seus rivais. Entre os muitos factores que contribuíam para essa crua realidade estava a falta de empatia dos melhores jogadores do país com o espírito dos Les Bleus.

A esmagadora maioria das estrelas do futebol francês eram considerados cidadãos de segunda no seu próprio país. A maioria tinha chegado via o que restava do império africano, sobretudo de Marrocos e Argélia. Nas suas cidades natais eram traidores à causa da luta pela independência. Na metrópole eram berberes, indignos de serem os representantes da nação. Nesse ambiente de conflito ideológico o normal era que esses mesmos jogadores não demonstrassem grande interesse por jogar com a selecção. Alguns, pura e simplesmente, recusaram-se, Outros faziam-no visivelmente a contra-gosto. E como a França tradicional, branca, era incapaz de produzir grandes futebolistas ao mesmo ritmo que gerava ciclistas, pilotos ou tenistas, a situação era insustentável. Ou o país aprendia a aceitar o imenso talento criado desde fora ou estava condenado a ser uma pequena potência dentro da esfera europeia.
Com a guerra a bater à porta da Argélia, o governo de Charles de Gaulle em Paris decidiu fazer do desporto a sua melhor arma política para controlar as revoltas no norte de África. Apresentar ao resto do Mundo uma selecção multicultural era o primeiro e decisivo passo para dar uma imagem de união entre a França metropolitana e as nações africanas que reclamavam a sua independência. Os futebolistas forjados em famílias de imigrantes europeus ou entre os filhos do império foram convidados pela Federação Francesa de Futebol a sentir a camisola azul da selecção como se fosse sua. A propaganda oficial do Eliseu chamava-os “filhos da França” pela primeira vez em décadas, quebrando um velho tabu e levantando polémicas dos dois lados da barricada. Para o sector conservador da sociedade, esse foi o momento em que a selecção deixou de ser a de França. Mas nem todos os futebolistas receberem bem a investida de Paris. No ano anterior ao Campeonato do Mundo de 1958, vários jogadores de origem norte-africana abandonaram secretamente o país para alistarem-se como voluntários nos exércitos de rebeldes na Argélia.

Entre eles estavam internacionais de primeira linha, como Rachid Mekhloufi, Mokhtar Arribi e Abdelhamid Kermali. Ambos tinham sofrido com os insultos nas bancadas pela sua condição magrebina e não estavam dispostos a entrar no jogo orquestrado por Paris. Mekhloufi, sobretudo, emergiu como o símbolo da contestação dos futebolistas que não se sentiam reconhecidos pelo país que tanto queria que jogasse por eles. Era uma das maiores estrelas da sua geração, peça chave no esquema táctico montado pelo seleccionador Albert Batteux. Mas, sobretudo, era um homem de convicções e a sua decisão acabou por despertar o resto do país para os fundamentos da causa argelina. Quando Rachid voltou a França para continuar a sua carreira, no final da guerra – e já com a Argélia já como nação independente – foi recebido com respeito e admiração. Talvez mais até do que alguns dos que decidiram ficar e disputar o Mundial com o galo ao peito.

Berberes, alemães, polacos e puros sangue

A França que partiu para Estocolmo era uma selecção sem expectativas e com a formação mais multicultural da sua história.

Entre os vinte e dois jogadores convocados por Batteux – o homem forte do célebre Stade Reims que tinha sido uma das primeiras grandes equipas das noites europeias da década – sete tinham as suas origens fora da metrópole gaulesa. O central Raymond Kaebel tinha nascido em território alemão, na zona fronteira à Alsácia. Kazimir Hnatow, médio do Angers, era descendente de uma família ucraniana que tinha decidido deixar o seu país para trás depois da revolução soviética para instalar-se numa comunidade mineira do norte do país. De aí vinham também duas estrelas de ascendência polaca, Maryan Wisnieski e Raymond Kopaszweski. O primeiro tinha sido o mais jovem internacional da história do país, com apenas 18 anos, e era o ídolo da comunidade mineira da proletária cidade de Lens. O segundo preferiu mudar o apelido de nascimento para driblar os habituais insultos das bancadas à sua condição de polaco. O mundo conhecia-o, simplesmente, como Raymond Kopa.

Um génio sem igual na sua geração, Kopa tinha vivido na pele tudo aquilo o que estava reservado pela sociedade francesa aos emigrantes. De pequeno tinha trabalhado horas a fio nas minas para ajudar a sua família. Quando tinha apenas doze anos, perdeu um dedo numa manobra perigosa dentro da mina que provocou a morte de outros trabalhadores. Foi o momento que mudou a sua vida para sempre. Inabilitado para trabalhar debaixo de terra, Raymond começou a procurar no desporto uma forma de trazer sustento para casa. Era pequeno e frágil mas também astuto e rápido e foi no futebol que encontrou o seu melhor aliado. Com dezassete anos já era uma estrela local e rapidamente foi recrutado por Batteaux para o Reims onde se consagrou como o melhor futebolista francês da sua geração. Foi aí que começou a sofrer na pele os insultos e agravios dos adeptos rivais e da imprensa desportiva que parodiavam a sua condição de filho de emigrantes. Kopa tinha nascido em França mas para a sociedade gaulesa não era francês. Cansado de ser tratado como cidadão de segunda, aceitou o convite do Real Madrid para juntar-se a Di Stefano no Santiago Bernabeu. Uma opção que o livrou das injurias francesas mas não do carácter autoritário do argentino. Talvez por isso, quando Batteaux o voltou a chamar para jogar pela selecção no Mundial, o genial Kopa sentiu que devia a si mesmo provar o seu valor no maior palco internacional do futebol.

A sua decisão foi vital para o sucesso dos franceses.
Se Kopa foi o génio que conduziu a orquestra gaulesa na expedição nórdica, o homem que se fez célebre na competição foi outro dos filhos malditos da França gaulista, Just Fontaine. Nascido em Marraquexe, Fontaine era de ascendência magrebina e portanto, um árabe para os metropolitanos. Aos vinte anos chegou a Nice para prosseguir a sua promissora carreira como futebolista e meses depois a selecção convocou-o para o seu primeiro desafio internacional. Just marcou um hat-trick deixando no ar o tipo de jogador em que se iria converter, um dianteiro letal com um faro de golo único. Mais do que isso, Just era também um dos poucos futebolistas que ousava falar contra o sistema de segregação emocional a que muitos dos jogadores eram vetados. Mas ao contrário de Meklhoufi, quando Marrocos se tornou finalmente um estado independente, em 1956, Fontaine rejeitou o convite do seu país de origem em ser o seu porta-estandarte. Apesar da forma como era tratado, Fontaine afirmou sentir-se francês dentro do que ele entendia como uma França plural. Não estava só. Na convocatória de Batteux havia também espaço para Celestin Oliver, um franco-argelino que também tinha sido seduzido pelo seu país de nascimento a seguir os passos dos rebeldes mas que se manteve fiel a Paris.

O país estar-lhes-ia gratos no final da competição. Sem o talento de Kopa, Oliver e Wisnieki e os golos de Fontaine a aventura francesa provavelmente tivesse acabado como todas as precedentes num enorme fracasso.

A triunfal caminhada de uma selecção maldita

Quarenta anos antes de que Zidane, Djorkaef, Vieira, Thuram, Desailly, Pires, Henry e Trezeguet subissem ao relvado do Stade de France, os Bleus multiculturais de Batteux estrearam-se no Mundial de 1958 contra o Paraguai. Quis a ironia do destino que no seu caminho rumo ao título mundial, os gauleses tivessem também de medir forças com a equipa sul-americana. Esse jogo, em Lens, terminou com um agónico golo de ouro de Laurent Blanc. Em Norkopping o que não faltou foram golos, de todos os feitios. Os gauleses golearam por 7-3 e Fontaine marcou o seu primeiro hat-trick da competição. Wisnieki e Kopa também contribuíram com golos e assistências para um triunfo memorável da selecção francesa. A euforia durou pouco. Apenas três dias depois, com uma experimentada equipa jugoslava, os gauleses caíram por 3-2. Uma vez mais Fontaine encarregou-se de cumprir o seu papel com os dois golos. Pelé e Garrincha ainda não se tinham estreado no torneio e ele já era uma das máximas figuras em competição.

No seu Marrocos natal os seus compatriotas não sabiam se celebrar o seu sucesso ou relembrar a sua traição. Para os franceses metropolitanos se duvidas houvessem, essas ficaram desfeitas em Orebro, a 15 de Junho. Os franceses tinham de superar a Escócia para qualificarem-se para os quartos-de-final. Num duelo temível e tenso, a dupla Kopa-Fontaine, tão assobiada em casa, resolveu a contenda com um golo e assistência cada. Pela primeira vez desde que Jules Rimet tinha viajado com a selecção gaulesa rumo ao Uruguai, o país sentia que a selecção estava à altura do país. Talvez alguns sectores da sociedade tivessem sido injustos com os jogadores de ascendência estrangeira, pensaram alguns. De Gaulle aproveitou-se do sucesso para reforçar a sua crença numa França para todos e a imprensa fez eco da gesta na Suécia para dar-lhe a razão. Mas a aventura ainda não tinha chegado ao fim.
Qualificados para os quartos-de-final, os franceses tinham agora de medir-se com outro rival britânico, a Irlanda do Norte, uma das grandes surpresas da primeira fase. Com vários jogadores lesionados, entre os quais o veterano guarda-redes Harry Gregg, os norte-irlandeses foram presa fácil da máquina de ataque gaulesa. O polaco Wisnieski, o marroquino Fontaine e o loreno Piantoni apontaram os quatro golos dos Bleus. Em casa os tentos foram celebrados como se tivessem sido apontados pelo próprio Napoleão Bonaparte. Napoleão, claro, que também era corso de origem italiana e portanto um cidadão de segunda. Ironias do destino que se repetiriam com o passar dos anos. Subitamente, sem que o tempo tivesse dado por isso, a expedição gaulesa estava às portas da final. O último obstáculo, no entanto, era de outro nível. Até porque se a França de Batteux era a primeira versão multi-étnica da história do seu futebol, o Brasil ia a caminho de se transformar, com a sua legião de futebolistas negros, brancos e mulatos, na primeira selecção multicultural a vencer um Mundial. Era um duelo tão social como futebolístico mas em campo não houve sequer um equilíbrio real. Aos dois minutos Vavá abriu o marcador para Fontaine igualar, antes de cumprir-se o primeiro quarto de hora. O Brasil chegou ao intervalo já a vencer e na segunda parte o jovem Pelé fez as honras que a ocasião exigia e apontou o seu único hat-trick num Mundial para selar a passagem à final. Não existia discussão sobre quem tinha sido superior e as expectativas francesas eram tão baixas que ninguém se lembrou de criticar Batteaux por não ter alterado a sua filosofia ofensiva de jogo, deixando Pelé à solta e sem marcação, pronto a destroçar a defesa gaulesa. Seria a primeira de três meias-finais perdidas de forma dramática pelos franceses antes da consagração do Arco do Triunfo. Para compensar os adeptos na metrópole, restava vencer um duelo ideologicamente decisivo na atribuição do terceiro e quarto posto. Frente aos alemães, com quem De Gaulle estava a desenhar o projecto de cooperação europeia, havia ainda uma profunda vontade dos franceses em demonstrar a sua superioridade. Esta era a ocasião perfeita. Os campeões do Mundo de 1954 tinham superado os seus próprios medos e cumprido com a sua obrigação mas não tiveram forças para defrontar uma França mais motivada do que nunca. Sobretudo, uma França que tinha um homem como Just Fontaine. O filho maldito de Marraquexe mostrou-se implacável e assinou a exibição mais célebre da sua carreira, apontando quatro dos seis golos com que os franceses golearam os germânicos. A medalha de bronze poderia saber a pouco para alguns. Para a expedição dos Bleus era o reconhecimento de que uma selecção unida, independentemente de qual fosse a origem dos seus integrantes, poderia levar a França a grandes voos. Uma antevisão do que guardava o futuro.

Os novos filhos pródigos

Quando a selecção francesa de Batteaux regressou a Paris, encontrou-se com um país eufórico com a sua prestação no Mundial da Suécia. De repente Kopa era um filho pródigo, Fontaine um francês de pura cepa e ninguém estava disposto a questionar as origens de Hnatow ou Wisnieski. O governo de De Gaulle sentia-se mais forte do que nunca e a 4 de Outubro proclamou o nascimento da V República. A guerra tinha-se oficializado na Argélia, os pactos europeus com italianos e alemães seguiam por bom caminho e Paris preparava-se para entrar numa década memorável. Uma série de jovens cineastas assaltaram o status quo institucional do meio artístico. Uma loira de curvas proibidas chamada Brigitte Bardot transformava-se num ícone global da beleza gaulesa e as epopeias desportivas do ciclismo, automobilismo e futebol franceses prometiam uma era de prosperidade e crescimento. O que aconteceu foi precisamente o oposto. Dois anos depois da aventura sueca, os Jogos Olímpicos de 1960 em Roma foram um fracasso desportivo para o ambicioso plano de De Gaulle. No ano seguinte Fontaine ajudou a fundar o primeiro sindicato organizado de jogadores, dando voz ao seu lado mais contestário e entrando em conflito directo com a federação. O fracasso dos Bleus em qualificaram-se para o Mundial do Chile apenas contribuiu para reabrir as feridas. Tanto ele como Kopa abandonaram a selecção nacional deixando o vazio que tardou décadas em ser preenchido.
A França conseguiu qualificar-se apenas para dois Mundiais entre o terceiro e o quarto lugar de 1958 e 1982. Em 1966, uma equipa sem figuras deu uma pobre imagem de si mesma em Inglaterra e seria necessário esperar doze anos para uma nova fornada de talentos, já liderada pelo adolescente Platini, recuperarem a tradição mundialista do país. Tinha passado demasiado tempo. A

exuberante celebração de 1958 tinha embatido contra uma visão conservadora e redutora do futebol profissional num país prestes a viver uma década de inflexão social. A perda da Argélia, o último grande bastião imperial, abriu a mecha para seis anos de confrontos surdos que culminaram no Maio de 68. Durante esses anos os adeptos abandonaram os estádios, as equipas francesas sofreram nas provas europeias a inexpressividade social do seu futebol e os Bleus pagaram o preço de uma abordagem quase amadora das autoridades. Foi necessário o investimento financeiro de vários empresários e a abertura definitiva das portas da selecção aos filhos malditos da orgulhosa França para a inevitável inversão do ciclo. As bases da luta não tinham mudado. O rosto de Zidane no Arco do Triunfo podia perfeitamente ter sido o de Kopa, quatro décadas antes. Esse foi o tempo que a França demorou para perceber que no futebol o sentimento nacional é maior que o sangue que corre pelas veias.

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