O futebol é o pulmão, o coração e a alma do Brasil. Está presente em cada poro da pele do país. A 13 de Maio de 1927 o país celebrou o 39º aniversário do fim da escravatura com um jogo de futebol. Jogadores negros contra jogadores brancos. Ainda tinham de passar muitos anos para o Brasil assumir a sua herança mulata. Esse jogo foi o pontapé de saída para uma nova era multi-cultural no futebol canarinho.

Pretos e Brancos unidos contra a escravatura

Hoje ninguém imaginaria um duelo desportivo entre jogadores de uma etnia contra outra. De uma raça contra outra. De credo, cor ou preferência sexual. Mas no Brasil dos anos vinte nada melhor que o futebol representava a paixão popular e o desejo de união depois de séculos de lutas intestinas entre brancos e negros, entre os filhos da emigração europeia e os descendentes da trágica e dramática epopeia dos escravos africanos de tantas gerações. No futebol do Brasil de então os negros, como nos restantes quadrantes da sociedade, eram ainda cidadãos de segunda. Muitos clubes, pura e simplesmente, vetavam a sua participação. Ao contrário do Bangu, o primeiro emblema a lutar abertamente contra o racismo no futebol brasileiro, os grandes emblemas do Rio de Janeiro e São Paulo fomentavam-na. Queriam manter a velha e britânica imagem de clubes de cavalheiros. Num país onde a maior parte da população era negra ou mulata, esse “apartheid” desportivo estava condenado a desaparecer. Era uma questão de como e de quando.

Para abrir caminho a uma nova etapa, foi decidido combinar um encontro amigável para o 13 de Maio de 1927. A data não era inocente. Era o dia em que o país celebrava o fim oficial da escravatura, abolida quarenta anos antes, ainda nos dias do Império, mais por pressão dos ingleses do que por vontade própria. Durante quatro décadas o país tinha-se transformado numa República, dinamizado a sua economia costeira e reformado a sua estrutura latifundiária. Mas os preconceitos raciais permaneciam bem vivos. O futebol vivia esse segregacionismo mas mesmo assim nos anos vinte era já o entretenimento favorito da comunidade negra e mulata a par das danças tradicionais africanas e a música popular. De certa forma o jogo com a bola sintetizava a relação do negro e do mulato brasileiro com a música. O seu estilo em campo, habilidoso, anárquico e artístico perpetuava a velha tradição de sobrevivência dos latifúndios. Contra os futebolistas brancos, os negros podiam desmontar, peça por peça, o edifício da superioridade racial. Só precisavam de uma oportunidade. Esse jogo seria o pretexto ideal.

Constituição das Equipas

Campo do Palmeiras, Combinado Preto VS. Combinado Branco da LAF:
Seleção Brancos: Nestor – Clodoaldo – Bastho – Raphael – Vanni – Gelindo – Apparicio – Néco – Friedenreich – Romeu Guimarães.
Seleção Pretos: Dica (P. P.), Francisquinho – Ferreira (independência) – Cunhal (R. Claro), Mono (Antarctica) – Rogério (Santista) – Bisoca (Syrio) – Nabor (PP) – Camargo (Jundiahy) Gradin e Carrapicho (PP).
Arbitro da partida o Sr. Joaquim de Almeida.

O mulato que jogava pelos brancos

A ideia do jogo foi uma ideia da Liga de Amadores de Futebol de São Paulo – uma federação alternativa do estado que defendia o ideal do amadorismo – que acabou por ser rapidamente aproveitada pelas entidades política do governo estadual de São Paulo. Estas necessitavam criar pontes entre as comunidades de emigração de origem europeia que se tinham instalado em grande número na cidade nos anos anteriores e a comunidade negra. O futebol era o pretexto ideal.

Foi um dia de pompa e circunstância. No estádio do Palmeiras, em Chacara da Floresta, houve discursos políticos bem intencionados. A Associação de Homens de Cor tinha-se juntado à direção do evento e poucos na cidade não estavam avisados do jogo. Em disputa estava algo mais que a Taça Princesa Isabel, a princesa-regente que tinha assinado a declaração de emancipação. Era uma forma de potenciar a integração racial e, para os jogadores negros, uma forma prática de demonstrarem o seu valor. Especialmente contra uma equipa de jogadores de primeira linha onde destacava a figura quase reverencial de Arthur Friedenreich. A sua opção era o sintoma claro de como o mulato se sentia nesta guerra de cores de pele à brasileira.

Filho de pai alemão e mãe negra, Arthur era um mulato que sempre sonhara ser branco. Costumava pintar-se com pó de talco antes dos jogos para reforçar a sua condição de branco e só a sua ascendência germânica lhe abriu as portas dos principais clubes do país. Jogar pela equipa dos negros teria sido uma importante mensagem política mas a primeira grande estrela do futebol brasileiro manteve-se fiel à fação branca e liderou a sua linha de ataque.

Do outro lado, alinhavam sobretudo jogadores de clubes amadores do estado. Ao contrário do Rio de Janeiro, onde o Bangu e o Vasco da Gama tinham já aberto as portas aos futebolistas negros, em São Paulo a maioria ainda actuava fora do circuito dos grandes clubes. A sua vitória surpreendeu tudo e todos.

A equipa dos negros foi superior durante todo o encontro e impôs-se por três golos a dois. Ao combinado de jogadores brancos o golo de Friedenreich valeu de pouco. Por duas vezes a equipa que na ficha técnica aparecia apenas como “Preto” deu a volta ao marcador para acabar por marcar o tento decisivo a dez minutos do fim. Foi um triunfo psicológico e moral. Sete anos depois, quando o Brasil se preparava para partir para o Mundial de Itália, em 1934, na comitiva seguiam já os primeiros profissionais negros do futebol brasileiro. O país tinha aprendido a superar os seus preconceitos. Jogadores como Leónidas, Domingos da Guia e Jaguaré tinham assumido o protagonismo da comunidade e agora sentiam-se finalmente tratados como iguais em campo aos seus congéneres brancos. Foi o inicio da lenda do mulato, do “malandro”, alimentada por Mário Filho e Nélson Rodrigues.

Os heróis negros do futebol brasileiro

O jogo Preto vs Branco repetiu-se nos quatro anos seguintes para manter consciente o público brasileiro de que o racismo ainda era uma questão social importante no país. Depois de sete anos de interregno, foi disputado em duas edições mais no final da década de trinta. Num mundo em guerra, com regimes racistas de um dos lados da barricada, a afirmação cultural definitiva do negro brasileiro foi um dos grandes triunfos do movimento social do emergente país sul-americano. O futebol demonstrou ser o seu melhor aliado. Nas décadas seguintes os principais heróis do futebol brasileiro recuperaram esse espirito ancestral da comunidade negra.

A Leónidas sucedeu Pelé que com Garrincha, Didi, Jairzinho, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Neymar têm perpetuado a saga emocional do futebolista negro brasileiro. A escravatura psicológica tinha chegado ao fim nos campos de futebol antes de que em qualquer outro sector da sociedade brasileira. No relvado o preto e o branco, como as duas equipas naquele 13 de Maio quiserem ser chamadas, eram iguais diante do único deus que interessava, o esférico.

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