Portland vs Seattle, a maior rivalidade da MLS

Num dos pontos mais remotos dos Estados Unidos cresce uma rivalidade futebolística à europeia. Se o Soccer ainda não se tornou num desporto “all-american”, na fronteira entre Washington e Oregon não o parece. Os Timbers e os Sounders dão o pontapé de saída para aquilo em que o futebol se pode converter num futuro próximo, uma ponte entre a tradição europeia e o modelo desportivo americano.

A maior rivalidade do futebol em solo americano

Num país onde as equipas mudam de cidade e de estado como quem muda de camisola, debaixo do modelo de franchise que se move com o vento, ou como quem diz, com o dinheiro, é difícil ter uma rivalidade séria. É preciso muitos anos, muitos duelos emocionalmente impactantes para justificar esse conceito, pelo menos aos olhos dos europeus. Na quase ausência de rivalidades locais e até mesmo estaduais – habitualmente as franchises evitam pisar terreno ocupado – a rivalidade tem de se gestar de outra forma.

No universo da NBA, por exemplo, foram as largas lutas pelo “Anel” entre os Los Angeles Lakers e os Boston Celtics – que representavam ao mesmo tempo os dois pontos extremos de um país-continente – que criaram essa rivalidade que nem o sucesso posterior dos Chicago Bulls danificou. O mesmo é válido no mundo do Baseball ou do futebol americano. O Soccer, vitima de múltiplas reencarnações, tem tido dificuldade em encontrar um veiculo emocional que a justifique. Só há um espaço urbano com a concentração de equipas que possam gerar uma rivalidade local e não existe de forma profunda a dicotomia social entre Este-Oeste que podia estar atrás de um duelo entre os Los Angeles Galaxy ou os DC United, equipas históricas da última vida da Major League Soccer. No meio desse cenário de incertezas, na zona mais ao noroeste do país, uma zona entregue a imensas florestas, lagos e cenários selvagens, espelho de velhas histórias de um farwest desconhecido, o futebol norte-americano encontrou a resposta ás suas preces.

Do hóquei no gelo ao soccer, uma longa história

Entre Portland e Seattle há pouco mais do que três horas de carro de distancia.

Cidades chave da costa oeste, fronteiras quase com o Canada, estando mais perto do vizinho ao norte do que de Los Angeles, a rivalidade é antiga e tem-se manifestado em distintos desportos com assiduidade. Nenhuma é mais emblemática que a vivida nos anos noventa entre os Supersonics de Seattle e os TrailBlazers de Porland nos pavilhões da NBA. O futebol, estava destinado, seria a seguinte trincheira. Na segunda era dourada do Soccer – os dias de glória nos anos setenta – disputaram-se os primeiros duelos entre o Portland Timbers e o Seattle Sounders. Jogos que atraíram mais de vinte mil pessoas e que deixaram claro que havia potencial a explorar na região.

Foi, no entanto, um duelo de curta duração. O fracasso financeiro do modelo da competição e a sua natureza quase semi-profissional condenaram a liga e todos os seus protagonistas e a equipa de Portland foi a primeira a fechar as portas. Dois anos depois foi a vez dos Sounders. O futebol continuou presente na zona, em torneios amadores e competições exclusivas da costa leste. A tradição da rivalidade passou a outras equipas que representavam ambas as cidades ainda que sem o prestigio e apoio dos seus dois emblemas “históricos”. Durante quase vinte anos esses pequenos duelos foram mantendo a chama da rivalidade acesa, aguardando melhores dias, lembrando talvez aqueles duelos interrompidos no futebol europeu ou sul-americano quando os dos protagonistas está numa divisão diferente durante um largo período de tempo. Tarde ou cedo os duelos iriam voltar a ganhar vida e foi com o Mundial dos Estados Unidos e o renascer da MLS que a situação se alterou radicalmente.

O poder mediático do universo Cascadia

A liga foi inicialmente pensada como um campeonato exclusivo a uma dezena de equipas espalhadas pelos Estados Unidos e foi apenas pouco a pouco que a organização do torneio – que ao contrario do resto do mundo não vive de subidas e descidas de divisões mas sim da aprovação de novas franchises – decidiu ir ampliando as equipas e estados representados. Nesse cenário de expectativa, Portland e Seattle candidataram-se a voltar á elite e esperaram o seu momento. Ambas cidades reclamavam ter infra-estruturas e uma base de apoio sólida o suficiente para suportar as exigências de sustentabilidade financeira da competição. Sobretudo tinham provas do que afirmavam. Em 2004, três anos de reativar a atividade, os Seattle Sounders e os Portland Timbers uniram-se aos canadianos Vancouvers Whitecaps para criar um torneio triangular, a Cascadia Cup.

A competição foi um sucesso, atraiu milhares de adeptos e convenceu a organização da MLS que aquele canto do continente merecia atenção redobrada. Durante esses duelos a rivalidade entre ambos clubes foi reativada. Imensos tifos temáticas das claques organizadas – um fenómeno comercial muito americano que tem tido relativo sucesso neste último reboot do soccer – estádios cheios e jogos disputados com vários jogadores locais criavam uma atmosfera europeia, pelo menos tendo em conta a comparação com os restantes clubes americanos que não conseguiam mais que esboçar rivalidades fictícias.

As tentativas resultaram finalmente em 2011 quando ambas as equipas foram admitidas na liga principal. A rivalidade chegava a um novo nível. No dia a seguir à formalização da promoção, os dirigentes do Portland Timbers colocaram um painel gigante na zona limítrofe com Seattle, em plena auto-estrada, onde o emblema do clube era acompanhado da frase “Portland, Soccer City USA”. Semanas depois os dois clubes mediram-se no seu primeiro duelo oficial da MLS e esgotaram os quase quarenta mil lugares do estádio de Seattle, um recorde suportado em muito pela viagem de milhares de membros do “Timber Army”, a claque oficial de Portland e eternos rivais dos “Emerald City” da vizinha a norte.

O Pacifico norte, novo pólo central da MLS

Desportivamente os Portland Timbers têm-se revelado nos últimos cinco anos como uma das mais competentes equipas da elite norte-americana. Um ano depois da estreia conseguiram bater os Sounders – que entraram na competição em 2009 – pela primeira vez. Foram campeões da temporada regular – como em todos os outros desportos americanos, a uma liga regular seguem-se os playoffs – em 2013 antes de eliminaram o Sounders na meia final dos play-offs da Conferência Oeste. Uma noite que Portland celebrou até de madrugada. Os Sounders – que vinham de disputar quatro semi-finais consecutivas sempre com derrotas – ainda não tinham conseguido chegar a nenhuma final de play-offs de conferencia mas compensaram a falta de resultados desportivos com a inesperada contratação de um dos maiores mitos do futebol americano, Clint Dempsey.

Um golpe de asa que provocou o seu efeito, levando a equipa à sua primeira final na passada temporada, onde acabaram derrotados pelos LA Galaxy. A realidade é inequívoca. Nenhum clube arrasta tantos adeptos ao estádio com regularidade como os Sounders, que são o franchising mais rentável da MLS, e nenhum tem uma base de apoio tão fanática como os Timbers. Tarde ou cedo um dos dois clubes será campeão americano. Nesse dia a rivalidade do Pacifico tornar-se-á eterna.

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