Porque chamam “Pensioners” ao Chelsea?

Durante décadas ninguém conhecia o Chelsea em Inglaterra por outra designação que não fosse a de “Pensioners”. Os actuais “Blues” chegaram a contar com a imagem de um pensionista, veterano do British Army, no seu símbolo no lugar do atual desafiante leão. Mas de onde vem essa curiosa conexão de um dos mais exclusivos clubes do futebol inglês a um hospital de veteranos.

As origens do Chelsea

Em 2005 o Chelsea sagrou-se campeão de Inglaterra pela primeira vez em meio século. À medida que os jogadores subiam ao terreno de jogo para serem vitoriados pelos adeptos de Stanford Bridge, à porta do túnel formou-se uma guarda de honra original. Algum desatento podia pensar que eram veteranos do titulo conquistado por Ted Drake na década de cinquenta. Mas não. Eram veteranos, sim, mas do British Army e residentes no Royal Hospital de Chelsea. Na gíria local, eram “pensioners”. O motivo porque estavam em primeira fila nas históricas celebrações leva-nos à própria origem do Chelsea Football Club.
O clube foi fundado em 1904 como um acaso do destino. Um especulador imobiliário da zona, Gus Mears, adquiriu os terrenos onde está hoje Stanford Bridge pensando em atrair a eles uma das equipas de futebol de Londres. Nenhuma aceitou a oferta. Mears pensou em vender os terrenos à Great Western Railway quando estes realizaram uma oferta que dobrava o seu investimento inicial mas a sua paixão pelo beautiful game, impulsionada pelo plano do seu amigo F. W. Parker, levaram-no a apostar na fundação do seu próprio clube.

Com terreno próprio antes de ser sequer um murmúrio, o Chelsea nasceu para afirmar-se como um dos emblemas mais originais do futebol londrino. Depois de varias disputas com os vizinhos de Fulham e de Tottenham, o Chelsea foi aceite na Football League. Mears e Parker escolheram o azul de Eton, o símbolo de armas do Lord of Chelsea, como cor predominante do clube. Em 1905 surgiu o primeiro esboço do emblema, um “pensioner” do vizinho Royal Hospital (na imagem) que durou até 1952.

Dos Pensioners aos Blues

O Royal Hospital tinha sido idealizado no século XVIII. Era um espaço para os veteranos militares do British Army que não tinham família e preferiam continuar a viver em comunidade numa instituição estatal e com uma pensão mensal que rapidamente os levou a ser conhecidos como os “pensioners” ou pensionistas. Durante o século XIX a instituição tornou-se imensamente popular na Londres do Rule Britania, sobretudo no bairro de Chelsea que até aos anos cinquenta era uma zona de elite repleta de importantes mansões e edifícios do estado, construídos a uma considerável distancia do asfixiante centro.

A associação entre o Hospital e o clube foi imediata. O Chelsea Football Club introduziu a imagem de um dos “pensioners”, devidamente fardado com o casaco militar azul que os seus membros eram obrigados a utilizar, no seu emblema e rapidamente os adeptos e a imprensa passaram a tratar os seus seguidores como “Pensioners.

A associação histórica manteve-se até aos anos 50 e era um dos grandes motivos de orgulho do clube, a sua conexão emocional com a comunidade local. Foi assinado pelo clube um protocolo de colaboração com o Hospital e todos aqueles que estavam inscritos como internos tinham direito de forma perpétua a bilhetes para os jogos do Chelsea em Stanford Bridge. A situação mudou com a chegada de Ted Drake. O homem que revolucionou o clube e os levou ao último titulo de liga antes da conquista de José Mourinho achava que a alcunha “The Pensioners” não estava à altura do que deviam ser as ambições do clube. Como outros managers na época, Drake estava determinado a produzir alterações importantes no Chelsea. Retirou o preto e o branco, que habitualmente surgiam nos equipamentos, e apostou absolutamente na conexão com o azul.
Para reforçar essa ligação, promoveu uma campanha entre adeptos para que o Chelsea passasse a ser conhecido, simplesmente, como os ”Blues”. De forma a reforçar esse distanciamento com a imagem clássica, patrocinou a criação de um novo emblema em que um imponente leão – presente nas armas de Lord Cadogan, antigo presidente do clube e Visconde de Chelsea – substituía o veterano militar. Foi o primeiro emblema a aparecer nas camisolas azuis – o anterior surgia apenas em programas de jogo e documentos oficiais – e aquele que ainda hoje associamos exclusivamente à sua história.
A metamorfose foi lenta e para os mais antigos adeptos do clube surgiu como uma afronta à sua origem histórica mas a meados dos anos sessenta, o clube tinha mudado definitivamente o seu perfil, associando-se à “swinging London” e atraindo milionários e artistas proeminentes da cena artística londrina ao Bridge.

Regresso ás origens

A relação emocional com o Royal Hospital e os “pensioners” ficou reduzida aos livros de história na nomenclatura e no marketing do clube. Mas as relações entre as instituições mantiveram-se e os veteranos continuavam a ter direito ao seu lugar cativo no estádio. Á medida que o clube foi crescendo, na década de noventa e dois mil, primeiro com Ken Bates e mais tarde com Roman Abramovich, essa ligação estendeu-se a protocolos de ajuda financeira, projetos desportivos, integração social e os habituais bilhetes cativos para os adeptos transformaram-se em camarotes exclusivos do Royal Hospital no estádio mais popular do futebol londrino a meados da década passada.

Hoje o Chelsea pode ser universalmente conhecido como os “Blues”. O sucesso desportivo conquistado numa década sem precedentes desde os dias de Drake trataram de apresentar o clube ao mundo como um novo-rico recém chegado à elite. Mas aqueles que conhecem a história dos primeiros cinquenta anos de vida do Chelsea sabem que o clube está profundamente ligado a algumas das maiores tradições culturais de Londres. Se alguns clubes ingleses nunca caminham sós, os eternos “Pensioners” continuarão a ter uma guarda de honra onde quer que vão!

2.821 / Por