Num país onde a geometria dita os códigos futebolísticos uma artista conceptual espanhola lançou um desafio único. Campos de futebol inseridos no espaço natural com obstáculos próprios são a base da Polder Cup, um torneio sui generis que triunfa na Holanda.

A espanhola que desafiou a matriz do futebol holandês

Em Setembro de 2010 a artista espanhola Maider Lopéz chegou à Holanda com a vontade de desafiar velhas convenções desportivas. Elegeu o futebol como laboratório particular e a Holanda, país de magos como Cruyff e van Basten, como palco exemplar.

Nascida em San Sebastian, Lopéz cresceu com um apurado gosto futebolístico alimentado em tardes com a família no velho estádio de Atocha, celebrando os últimos títulos de liga conquistados pelo conjunto txuri-urdin. Essa paixão pela futebol ficou e quando decidiu dar seguimento á sua carreira como artista conceptual depois de várias exibições de sucesso em certames e mostras internacionais, o beautiful game apareceu como óbvio protagonista. A criadora espanhola viajou até á Holanda, país onde a terra tem um valor especial. Durante séculos os holandeses conquistaram territórios ao mar através da formação de diques e a criação de polders.

Os polder holandeses não são mais do que terrenos planos, férteis e na esmagadora maioria das vezes rodeados de pequenos canais que nos lembram que antes pertenciam aos mares e que só a tecnologia do homem os converteu em terra. Num país onde a esmagadora maioria dos territórios já foram parte do oceano, os polders ocupam um lugar privilegiado na psique nacional. Na cultura futebolística holandesa a geometria dos espaços, o jogo plano, de passe curto e a estética artística de superar obstáculos com um toque extra de classe pode ser vista como uma herança dos construtores de polders de séculos pretéritos. Dessa forma, Maider Lopez partiu com um desafio na cabeça, o de organizar um torneio de futebol no país dos polders em campos improvisados no coração da natureza holandesa.

O desafio da paisagem natural

Em Ottoland, no sul da província holandesa dos Países Baixos, a nomenclatura correta para o país, Lopez criou os seus próprios campos de futebol pintando as linhas de jogo entre os polders. Fugiu ao elementar e preferiu incluir os obstáculos naturais e humanos no caminho dos jogadores, colocando as balizas separadas por canais de água. Desafios á destreza técnica dos praticantes e uma homenagem ao espaço natural. A prova de que o futebol pode ser realmente jogado em qualquer cenário.

Aproveitando as pequenas urbes da zona, formou várias equipas para competir num torneio baptizado como Polder Cup. Um projeto conceptual fotografado e filmado para ser exibido, posteriormente, nas bienais culturais. Uma forma de homenagem e desafio tanto á matriz holandesa como ao futebol em geral. Em campo as equipas foram forçadas a encontrar novos caminhos para o golo, a inventar e consensuar novas regras, a procurar superar os obstáculos com destreza e imaginação. No final o vencedor do torneio, uma equipa formada entre jovens de uma aldeia vizinha, demonstraram que o futebol podia realmente superar o mais insuspeito dos obstáculos.

Como os jovens sul-americanos e africanos que crescem em ruas estreitas ou os que crescem a jogar em longos e intermináveis desertos de areia, também os holandeses demonstraram diante da objectiva de Maider Lopez que a sua matriz de jogo é o fiel reflexo da ordem desorganizada da sua própria paisagem natural.

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