O futebol francês sempre viveu da bondade de estranhos como diria Blanche DuBouis da célebre peça teatral Um Eléctrico Chamado Desejo. O poder de vários magnates permitiu os distintos momentos de glória do jogo em terras gaulesas. A sua origem como modalidade profissional tem também um patrono de primeiro nível. Não fosse pela Peugeot e talvez o destino do “foot” tivesse sido totalmente distinto.

O poder do leão dos automóveis

São dias difíceis para o Sochaux. O histórico clube milita na Ligue 2 e vive com a corda ao pescoço. Muitos temem que o seu futuro termine por ser similar ao de tantos outros emblemas que marcaram a história do futebol. Esquecidos, condenados a olhar para trás com nostalgia e para a frente sem esperança. As noticias de que o grupo Peugeot está preparado para retirar o patronato ao clube apanharam todos desprevenidos. Há poucas simbioses no mundo do futebol historicamente tão fortes como aquela entre o clube da modesta localidade do norte gaulês e a empresa construtora de automóveis, um símbolo da industrialização do país. Foi graças à Peugeot que a cidade foi colocada no mapa e foi também para a diversão dos seus trabalhadores que o clube nasceu em moldes muito similares aos da Juventus com a FIAT em Itália, do PSV com a Philips em Eindhoven ou da conexão entre os trabalhadores da Bayer com o Bayer 04 em Leverkusen. O futebol francês, em traços gerais, foi impulsionado sempre debaixo da suspeita de ser uma invenção anglicana com todo o preconceito que isso trazia a finais do século XIX.

O país reverenciava o ciclismo, o boxe, o ténis e os desportos automóveis mas olhava com desprezo o jogo que começou nos importantes colégios britânicos mas que acabou nas ruas enlameadas das cidades industriais. Até o rugby, sobretudo na zona sul e ocidental, tinha conseguido replicar esse prestigio. Foram poucos os visionários que mantiveram a chama viva, homens como Jules Rimet, Henry Delauney e Gabriel Hanot, motores também da popularização do desporto a nível mundial. Mas esse era o capitulo organizativo, o trabalho de escritório. No mundo quotidiano nada disso teria servido se vários industriais não se tivessem deixado seduzir pelas virtudes do beautiful game. Um deles foi Jean-Pierre Peugeot, o homem que revolucionou para sempre o futebol gaulês.

Jean-Pierre Peugeot, o impulsionador do profissionalismo

Em 1928 um dos mais influentes membros da família Peugeot – já então pioneira no fabrico de automóveis – decidiu que criar um clube de futebol para os seus trabalhadores era uma ideia fundamental para apaziguar espíritos revoltosos. Nas vésperas do crash da Bolsa o movimento sindicalista e socialista em França tinha ganho peso, como se demonstraria nos governos da Frente Popular na década seguinte. Ter os seus homens contentes era então uma prioridade para um empresário que quisesse ter o negócio a funcionar sem problemas. A proposta foi aceite de forma entusiasmante e assim nasceu o Football Club Sochaux-Montbeliard. A ideia original era simplesmente a de organizar jogos com clubes das regiões vizinhas mas a pouco e pouco a ambição de Jean-Pierre tornou-se evidente e o Sochaux transformou-se no mais influente clube da zona. A pouco e pouco começou a incorporar jogadores de outros emblemas com o aliciante de os incorporar como trabalhadores da fábrica.

Era impossível competir com uma empresa em expansão como era a Peugeot e a qualidade da equipa de futebol ofuscou qualquer rival. Jean-Pierre Peugeot olhava para o exemplo que começava a conquistar o futebol europeu, o da profissionalização. Em Inglaterra e nos países centro-europeus já era habitual ainda que no sul e norte do continente fosse ainda uma questão tabu. Em 1928 a federação inglesa abandonou a FIFA precisamente por estes não concordarem oficialmente com a profissionalização do jogo no Reino Unido. Essa era também a sua filosofia e um ano e meio depois do Sochaux ter sido fundado o seu patrono admitiu publicamente que pagava aos seus jogadores e que era hora de que os restantes clubes seguissem o mesmo caminho. Os dois anos seguintes foram de tensão. O clube continuou a contratar jogadores, sobretudo internacionais pela seleção francesa, pagando-lhes de forma encoberta mas pouco disfarçada e em 1930 o clube juntou-se com outros dos principais emblemas do futebol gaulês numa campanha activa para persuadir a federação do país a aceitar a criação de uma liga de futebol profissional. O futebol em França estava a caminho de entrar na idade adulta.

Sochaux, o pilar da fundação do campeonato profissional

Peugeot foi extremamente influente na persuasão de muitos presidentes de clubes que olhavam para o projeto com receio. Fez campanha ativa a favor da liga profissional e foi conquistando progressivamente apoios importantes. Quando a moção foi finalmente votada no Conselho Nacional, o profissionalismo triunfou por um claro 128-20. Inevitavelmente começou a trabalhar-se na criação de um Championat nacional e o Sochaux foi um dos primeiros convidados a tomar parte da edição inaugural. Não podia ter sido de outra forma já que sem a influencia de Jean-Pierre Peugeot talvez o profissionalismo tivesse chegado mais de uma década depois num processo em tudo similar ao que passou com o futebol ibérico ou alemão.

Em 1931 o Sochaux declarou-se oficialmente como entidade profissional e terminou a primeira temporada do campeonato nacional em segundo lugar, depois da despromoção do Antibes por suborno. Três anos depois chegaria o primeiro titulo de campeão, o troféu que Jean-Pierre ansiava. Numa luta intensa até ao fim o clube bateu o RC Strasburg graças sobretudo à qualidade de onze que incluía futebolistas do nível de Laurent – o autor do primeiro golo da história dos Mundiais – Roger Courtois e o inglês Bernard Williams, um dos muitos que aproveitaram a implantação do profissionalismo para atravessar o Canal da Mancha. Na época seguinte o clube conquistou a Taça de França, de novo num duelo contra o Strasburg, vencendo por 2-1. Ao contrario do habitual alinhavam cinco futebolistas estrangeiros – um inglês, um argentino, dois suíços e um italiano –todos pagos principescamente com o dinheiro da Peugeot. O treinador, o uruguaio Conrad Ross, era o garante de um modelo de jogo que emulava a popular escola platense, então uma das mais reputadas do mundo.

Uma longa tradição de magnatas no futebol francês

Com o passar dos anos a influencia do Sochaux foi decrescendo à medida que outras empresas e magnates seguiam o exemplo pioneiro de Jean-Pierre. Foi nessa escola de investimento que surgiram os bem sucedidos projetos do Lille e do Stade Reims nos anos cinquenta, do Saint-Etienne nas décadas seguintes e do Bordeaux, Marselha e Paris-Saint Germain nos anos oitenta e noventa. Muito antes da invasão dos petrodólares já o futebol gaulês se movia ao som da carteira mais recheada do momento.

Foi no entanto o trabalho da Peugeot que marcou um antes e um depois. O pioneirismo da companhia permitiu aos franceses viver uma primeira idade de ouro que durou até finais dos anos cinquenta, altura em que os seus vizinhos apostaram definitivamente pelo modelo profissional e recuperaram o tempo perdido. Sem a histórica saga do Sochaux e do leão da Peugeot atrás talvez essa idade mágica do “foot” nunca tivesse tido lugar.

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