Durante largos anos houve apenas uma equipa em Itália que conseguiu terminar o ano sem sofrer qualquer derrota. Zero. E ainda com esse registo histórico, ficou a três pontos de ser campeã. O drama do Perugia e o Scudetto perdido entre quase duas dezenas de empates que custaram um título que podia ter sido histórico.

Invictus

A duas jornadas do fim da temporada 1978/79, o AC Milan proclamou-se campeão de Itália pela décima vez. Foi o ano de despedida de um mito – Gianni Rivera – depois de duas décadas a iluminar o Calcio. Foi também o inicio de uma travessia no deserto que duraria quase uma década para os rossoneri. Depois das celebrações chegariam os escândalos, as duas despromoções e o drama financeiro até à chegada de Berlusconi e o seu exercito holandês ao resgate. Mas ninguém podia imaginar que a festa do Milan teria um significado tão profundo. Nesses dias o único tema real de conversa era o do drama vivido na pequena Perugia, uma cidade que esteve a duas semanas de fazer história.

A 6 de Maio de 1979 os homens da Umbria, uma região no coração da “bota”, saíram vitoriados pelos seus próprios adeptos apesar de terem acabado de receber a mais dramática das noticias. O seu triunfo, por 2-1, contra a Lazio tinha sido insuficiente. Uma semana antes o empate contra o Hellas Verona tinha selado o seu destino. Nesse fim-de-semana o Milan batia o Catanazaro por 3-1 e deixava o título praticamente selado. Em San Siro, contra o Bologna, um empate a zero marcou o inicio das celebrações. O Milan era o novo campeão de Itália, a equipa com o melhor ataque do campeonato e a melhor diferença de golos ainda que o seu principal goleador, Alberto Bigon, se ficasse apenas pelos doze tentos. Mas o que Milan não podia reclamar era o feito histórico de ter passado pelo campeonato de forma invencível. Esse era o titulo do Perugia, a única equipa na história do Calcio que passou pela temporada sem conceder uma só derrota e ainda assim não conseguiu ser campeão. Por três pontos o titulo voava para a Lombardia.

A saga dos Grifone de Castagner

Ninguém imaginava que o Perugia estivesse na luta pelo Scudetto, era algo totalmente anómalo para um modesto clube do centro italiano. O sétimo lugar na Serie A da temporada anterior era já um resultado positivamente surpreendente para os homens de Ilario Castagner, o treinador do conjunto e antiga glória da equipa na década de sessenta.

Castagner montou um onze compacto, sem grandes estrelas ou virtuosos mas com uma capacidade defensiva fora do normal. Tinha começado a trabalhar como adjunto no Atalanta até que em 1974 se mudou a Perugia. Ano após ano foi aperfeiçoando o seu sistema. Apanha o clube na Serie B e depois de duas temporadas consolida-se na primeira divisão como uma equipa que sem ser especialmente atrativa, era capaz de obter resultados fora do normal.  A norte de Renato Curi, uma das máximas referências da equipa, vitima de um enfarte durante um jogo entre a sua equipa e a Juventus, no ano anterior, foi um profundo golpe emocional mas acabou por unir ainda mais o colectivo de uma formação reconhecida igualmente pela sua militância política onde triunfaram figuras como Paolo Sollier.

Utilizando a habitual linha defensiva com um libero – Pierluigi Frosio – à frente do guarda-redes Nelio Malizzia, a equipa não contava com nenhuma referencia no Calcio, contando com a imensa capacidade de trabalho de jogadores como Butti, Dal Fiume, Speggiorin, Vannini, Casarsa e Salvatore Bagni, mais tarde estrela do Inter e da seleção italiana. Funcionavam perfeitamente como colectivo e demonstraram-no com uma primeira volta memorável nesse ano emulando a filosofia do Futebol Total e distanciando-se da tradição histórica do Catenaccio.

Começaram o ano com um triunfo frente ao Vicenza de Paolo Rossi, um empate contra o Inter e uma vitória contra a Fiorentina. Foi à quarta jornada, na visita a Turim, que o triunfo frente à Juventus lançou a equipa na liderança da tabela classificativa, posição reforçada na última jornada com a vitória contra o Bologna. Muitos sonhavam já com o que há pouco parecia impossível mas a pesar do clube biancorosso manter a sua invencibilidade, os empates concedidos começavam a ser um problema. Mais do que isso, seriam o seu calcanhar de Aquiles. No final do ano o Perugia não tinha derrotas mas somava igualmente apenas 11 vitórias. Os restantes 19 jogos – a liga era composta por 30 jornadas – saldaram-se por empates. Entre esses empates, a maioria deles a zero, esteve o desenlace final contra um Milan mais irregular mas também capaz de vencer seis jogos mais que o seu rival direto. Utilizando o modelo atual de três pontos por vitória e o Perugia desse ano teria terminado a temporada como equipa invencível na Serie A mas no…quarto lugar.

11 vitórias, 19 empates e o Scudetto perdido

Dois dos empates decisivos foram precisamente contra o Milan, ambos com um golo para cada lado. Foram os jogos que decidiram o título já que a diferença pontual de três pontos ficou saldada nesses duelos. Castagner tinha encontrado a fórmula para sofrer o mínimo de golos possíveis – foram apenas 16 em todo o ano, quase meio golo por jogo, mas a produção ofensiva era escassa (a sétima da liga) e nos momentos decisivos, contra rivais modestos, a equipa pagou o preço da pressão e titubeou, abdicando da liderança no inicio da segunda volta, mantendo desde aí sempre uma diferença pontual entre dois e três pontos contra o Milan. A cada tropeço dos rossoneri, o Perugia respondia inevitavelmente com mais um empate que garantia que tudo seguia na mesma. A dois jogos do fim encerrou-se a questão do título. Sem surpresa. Ao Perugia restou apenas a consolação de ter sobrevivido à última jornada invicto. Seria o seu título pessoal.

No final, o Perugia jamais voltou a estar tão perto de roçar a glória. A equipa procurou responder aos problemas do golo assinando por um valor recorde a Paolo Rossi do Vicenzi, mas os golos do genial avançado foram insuficientes e este acabou por ser suspenso como consequência do caso Tottonero. Quando voltou, para dar o campeonato do Mundo à Itália, em 1982, ia já a caminho da Juventus. Nesse ano o Perugia terminou a temporada em oitavo e Castagner trocava o clube pelo banco da Lazio, antes de passar brevemente pelo Milan. Nunca conseguiu reproduzir o seu ano de sonho ainda que tenha resgatado o Milan da Serie B em 1983 para sucumbir pouco depois ao descontrolo emocional da identidade lombarda. Ironicamente passou ainda pelo Inter antes de acabar a sua carreira, já nos anos noventa, de novo no banco de um Perugia que por essa altura andava perdido na Serie C. Tal tinha sido a caída, do céu ao inferno. Uma vez mais em Perugia o técnico sacou o seu melhor lado e levou uma equipa, liderada pelo japonês Nakata, de novo à Serie A.

Milan e Juventus, os outros invictos

O feito do Perugia foi igualado pelo AC Milan de Fabio Capello e a Juventus de Antonio Conte em 1992 e 2012, respectivamente. Ambas as equipas foram campeãs nesse respectivo ano. Não há nenhum registo histórico em nenhuma das grandes ligas de uma equipa capaz de passar um só ano sem sofrer qualquer derrota e ainda assim falhar o título. Só em Portugal o Benfica passou pelo mesmo, em 1977/78. Ainda hoje a memoria da “Squadra del Miracollo” é uma das lembranças mais profundas do folclore do Calcio.

Num país onde cada triunfo de uma equipa provinciana é celebrada à escala nacional – tal como sucedeu com Bologna, Fiorentina, Cagliari, Verona, Napoli ou Sampdoria – é justo reconhecer que todos se fizeram, durante alguns meses, adeptos do Perugia. Um clube hoje perdido na memoria mas que esteve a poucos minutos de ser rei de Itália.

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