Num país onde um partido centro-direita se manteve no poder durante mais de 40 anos, ser de esquerda era mais do que uma opção. Era uma forma de protesto. O Calcio é, também nisso, um dos melhores espelhos da sociedade italiana. Se a maioria dos clubes é apoiado por Ultras que formam a ala mais violenta da extrema direita italiana, há um eixo que continua a defender o velho ideal da Itália comunista dos anos 40. Entre Perugia e Livorno a distância não se mede em quilómetros. Mede-se em ideias.

O eixo da resistência

O histórico Partido Comunista italiano nasceu numa casa pequena junto ao porto da cidade toscana de Livorno.
1921 era uma data complicada na pouco ortodoxa vida social italiana e com a ascensão dos “camisas negras” de Mussolini ao poder, ser comunista era um problema sério. A não ser que se fosse de Livorno. Numa cidade quase “exclusivamente” vermelha não havia o risco de denúncias, perseguições e sustos.

O porto da Toscânia era um bloco sólido de resistência e daí surgiram os grandes lideres que espalharam a mensagem que chegava da longínqua URSS pelo resto do país. Em Perugia, um centro industrial no coração da bota – a igual distância de Roma e Florença – a mensagem chegou e ficou. Durante o cem anos seguintes um espírito de irmandade uniria forçosamente os destinos de ambas as cidades. E foi o futebol, inevitavelmente, que reforçou ainda mais esse casamento ideológico.

Os Ultras contra os Vermelhos

O futebol italiano é provavelmente um caso único na Europa ocidental. Em nenhum outro país o que passa no mundo futebolístico encontra paralelos tão significativos com o resto da sociedade. Com a politica, com a economia, com a religião, com os media. A Itália do pós-guerra não caiu em mãos comunistas depois de uma ágil manobra americana. Mas os quarenta anos de governo democrata-cristão apenas serviu para deixar claro que os italianos são um povo de extremos. Se o governo estava ao centro, a luta no futebol fazia-se entre a extrema direita e a extrema esquerda. A primeira, mais popular ao Norte e no coração do Lácio, deu origem aos grupos Ultra, as claques organizadas que transformaram o futebol italiano num campo de batalha e fizeram escola no resto da Europa a partir dos anos 70.

Os Ultra, habitualmente organizações com apoios económicos de grupos da extrema direita neo-fascista transformaram-se nos animadores das bancadas do futebol italiano e deram a várias clubes um cunho profundamente ideológico. Mas as saudações fascistas dos adeptos da Lazio, os gritos racistas dos seguidores do Hellas Verona, Bologna ou da Fiorentina e os actos violentos dos tiffosi neruazurris do Internazionale transformaram o inocente futebol italiano pouco e pouco num campo de batalha.

Do outro lado da barricada ideológica, a esquerda italiana procurou distanciar-se do fenómeno, mas houve sectores que aceitaram o desafio. Os gritos de revolta da Roma de Pasolini, o punho levantado de Sollier e a raiva de Lucarelli. Os dois últimos redefiniram em trinta anos o comunismo futebolístico italiano.

Lucarelli, o homem que trocou um Ferrari por Livorno

As Brigada Autonomi Livornese são conhecidas por seguir o seu clube, o Livorno, até ao inferno. Ou pelo menos até à Sardenha.
Um quente domingo, dia de jogo da Serie A no Outono de 2003, três carros desceram toda a Itália, atravessaram o estreito de Messina e chegaram até Palermo (2000 mil kms) para apoiar a sua equipa. Viajaram de carro apenas com uma tarja que dizia “BAL – Libertá livornese” e nem os deixaram entrar no estádio. Fundados em 1999 como claque de extrema-esquerda, tenazmente violenta, os BAL representam o lado mais esquerdista do futebol italiano. Admiradores de Josef Stalin – inauguraram uma estátua ao ditador russo à porta da sua sede – este grupo de adeptos encontrou sempre apoio na sociedade livornesa. E a eles pertence ainda hoje um fiel seguidor dos ensinamentos do partido. Christian Lucarelli, filho de um estivador livornês, desde sempre soube que ali o clube, a cidade e o partido formavam parte de uma mesma entidade colectiva e proletária.

Lucarelli cresceu em Shangai, um bairro proletário construído pelas autoridades fascistas nos anos 30, com a vontade de saltar ao relvado do seu clube de infância. Mas demorou até cumprir o seu sonho. Jogou em vários emblemas de segunda linha, envolveu-se em problemas com a Federazione depois de celebrar o seu primeiro golo com os sub-21 (num jogo em Livorno) exibindo uma camisola de Che Guevarra e depois de vários anos pelo estrangeiro, conseguiu estrear-se pelo seu Livorno. Pagando do seu próprio bolso a carta de liberdade. Uns mil milhões de liras que deu titulo a um livro escrito pelo seu próprio agente que se tornou um best-seller local. Segundo ele, enquanto alguns futebolistas compravam um Ferrari, ele comprava a camisola do seu clube. Algo só possível por quem está profundamente apaixonado pelas suas cores.

Quando chegou ao estádio pela primeira vez, desatou a euforia dos adeptos. Levou o clube da Serie B à Seria A (conseguindo na segunda época chegar aos postos europeus e sempre com o 99, ano da fundação dos BAL, às costas). Cada golo era celebrado com o punho fechado no alto lembrando outros tempos. Na sua etapa prévia tinha passado por Perugia. Não deixou grandes recordações como goleador, mas o seu espírito fez reviver os fantasmas de outra era, onde a cidade úmbrica era outra “Livorno” no meio de Itália.

Sollier, o proletário intelectual

Durante os anos 70 a cidade albergou outro dos grandes futebolistas ideólogos da esquerda italiana.

Paolo Sollier, avançado duro e implacável, entrava em campo com um livro na mão e um punho no ar, que erguia repetidas vezes quando a equipa marcava. A sua camisola vermelha e os calções brancos – tão similar ao equipamento do Livorno – lembrava também o traje da URSS que idolatrava profundamente. Durante largos anos foi o símbolo da resistência numa era onde o espírito neo-fascista dos jogadores italianos – particularmente os da AS Lazio que andavam sempre armados e preparados para começar uma discussão – começava a conquistar adeptos em todo o país. Sollier, como Lucarelli, nunca foi um grande jogador. Ele próprio se definiu como um futebolista de segunda divisão que teve direito a umas férias ocasionais na elite.

Mas era um símbolo respeitado e odiado em iguais partes. Falava antes e depois dos jogos com soltura, questionava decisões politicas e era um dos grandes defensores do movimento sindicalista dos jogadores que começava, só então, a ganhar forma. Oferecia livros aos colegas e trocava o prémio de jogo pela subscrição de uma revista proletária da comunidade da qual fazia parte e a quem doava parte do seu salário. Depois de ter sido treinado pelo esfíngico Helenio Herrera, o técnico ficou tão impressionado com ele que lhe ofereceu uma almofada com a inscrição “A revolução, sempre”, escrita em árabe.

O futuro dos revolucionários

Perugia e Livorno passaram por momentos complicados na sua história.

Os primeiros viram como o filho de Kadhafi jogava durante 45 minutos pela primeira equipa depois do ditador ter comprado ações do clube (tal como sucederia depois com a Juventus) e envolveram-se em polemicas sem fim depois do trabalho auto-destrutivo do presidente Luciano Gaucci. O Livorno nunca teve o dinheiro necessário para combater em campo a elite e passou a sua história subindo e descendo de divisão com a naturalidade de quem encara o jogo como um processo revolucionário em constante movimento.

Num país onde Berlusconi quase sempre dita a lei, o futebol pauta o ritmo. O antigo primeiro-ministro usou o jogo – e o sucesso do seu AC Milan – para se dar a conhecer ao país. Não foi uma novidade já que durante largos anos a direita italiana aproveitou-se do fenómeno popular para criar verdadeiros pequenos-estados ideológicos que utilizam a bola como pretexto para propagar a sua ideologia.

No meio dessa luta, o eixo Perugia-Livorno continua vivo. Como o outro lado do espelho, aquele que entende que o futebol, em Itália, e como tudo, é mais um palco de batalha entre os dois extremos de uma luta sem fim como o final de 1900, esse filme tão profundamente italiano e futebolístico de Bertolucci. Mas isso é outra história…

3.165 / Por