Pedro Calomino, o inventor da finta

Quem inventou a finta? A história está repleta de falsos mitos e às vezes é complexo separar a ilusão da realidade. Apesar de muitos reclamarem a onda, a finta tem um só pai. Um herói do futebol argentino, um dos primeiros ídolos do Boca Juniores. Um craque chamado Pedro Calomino.

Os nomes de um gesto técnico

Durante muitos anos especulou-se sobre o inventor daquilo que conhecemos por finta. Os espanhóis chamam-lhe “el regate” ou “la bicicleta“. Os britânicos apelidam-no de “stepover” e na Itália o movimento é conhecido como “um doppio passo“. O nome varia, a natureza do movimento não.

Nas origens do futebol, a bola era transportada verticalmente por base de uma condução que incluia pequenos toques em frente. Uma cavalgada heróica rumo à baliza. O desenvolvimento da cultura de posse de bola, na Escócia, levou os jogadores a habituarem-se a controlar a bola, avançando com ela em contacto constante com o pé para evitar perdê-la. Durante décadas não houve outra forma de expressar-se em campo. Tempos muitos distantes dos dias de hoje onde os malabarismos são parte fundamental do espetáculo. As fintas de Cristiano Ronaldo, passando as pernas pela bola. Os dribles de esférico colado ao pé de Lionel Messi. As habilidades quase circenses de Ronaldinho. A “roullete” de Zidane. Tudo o que hoje para o adepto é a razão de ser do jogo para os homens da primeira década do século XX pareceria uma inexplicável excentricidade. Foi nesse mundo que a finta nasceu e mudou para sempre o rosto do jogo mais popular do Mundo.

Os artistas que quase inventaram a finta

A história parecia ter reservada a honra a uma disputa entre dois célebres jogadores da década de trinta. Um debate de largos anos entre os que defendiam que a finta era uma invenção italiana ou holandesa. Os que tinham visto jogar o malabarista Amadeo Biavati asseguram que o que ele fazia nunca ninguém tinha conseguido. Biavatti era conhecido não só pelo seu faro goleador mas também pelo controlo de bola. Muitas vezes ultrapassava os defesas com movimentos de pés sobre a bola, voltando atrás para repetir o lance para gáudio do público. Foi o ídolo de infância do cineasta – e apaixonado adepto – Pier Paolo Pasollini, e campeão do Mundo com a Itália.

Mas o seu brilhante gesto técnico coincidiu praticamente no tempo com o de outro jogador superlativo, o holandês Law Adams. Nascido na Indonésia – então as Índias Holandesas – Adams era um ginasta consagrado, além de futebolista. Nos anos 30 foi também um dos mais celebres jogadores do seu país, essencialmente pela estranha capacidade que tinha de enfeitiçar a bola com o seu movimento corporal. A sua carreira acabou cedo, por problemas de coração que lhe custaram a vida com apenas 41 anos, mas a sua finta de tesoura fez escola. No entanto, tal como passava com Biavati, não tinha sido a primeira vez que um jogador a aplicava num campo de futebol. Da mesma forma que durante anos muitos pensavam que o inventor do pontapé de bicicleta era o brasileiro Leónidas, para depois descobrir a história de Ramon Unzaga, também o tempo demorou até revelar ao Mundo a história única de Pedro Calomino, o herói de La Boca.

O primeiro potrero, o homem que inventou a finta

Calomino foi um revolucionário no momento certo e no local perfeito.

Descendente de imigrantes italianos instalados no violento e pitoresco bairro de la Boca, em Buenos Aires, aprendeu a jogar futebol nas ruas, ultrapassando obstáculos e rivais com a mesma facilidade. Era o virar do século e o futebol tinha entrado em força na Argentina graças à crescente presença de empresas e funcionários britânicos. O jovem descendente de genoveses cresceu a pintar casas e a jogar futebol no clube da comunidade local, conhecido entre todos como os “Xeneizes” – os genoveses no dialecto hispano-italiano local – o Boca Juniores. O seu talento era conhecido em toda a capital e durante anos – muito antes do nascimento de La Bombonera – os adeptos de clubes neutrais visitavam os campos onde a equipava jogava só para assistir às suas habilidades.

O primeiro “gambeteador” do futebol argentino – mais de quarenta anos antes de Di Stefano e um século antes de Lionel Messi – o extremo argentino ajudou também a criar a lenda do Boca Juniores, clube com o qual ganhou tudo o que havia a ganhar entre 1910 e 1925. A sua fama era tal que se tornou também num dos mais jovens internacionais, tendo sido figura chave na vitória na Copa América de 1921 contra o brasileiro de Arthur Friedenreich, outro ilustre esquecido da época.

A sua invenção tornou-se parte do adn do “potrero” do qual Calomino foi o primeiro exemplo mediático. A finta, a bicicleta, o regate, a tesoura foram palavras que se associaram progressivamente ao estilo de jogo sul-americano antes de chegar, já nos anos 30, à Europa. A partir de aí tornaram-se parte inevitável do ADN do beautiful game. Mas a sua origem histórica continuará escrita nas casas coloridas de um bairro bonaerense onde o futebol é uma verdadeira questão de identidade.

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