Era uma das grandes esperanças da sua geração e esteve perto de ser um dos primeiros “emigrantes” de luxo do futebol português. Pavão morreu com 26 anos em circunstâncias estranhas que se aproximavam muito da negligência de um futebol praticado ainda de forma obscura deixando atrás de si um mito e muitas perguntas.

A estrela lusa que estava destinada a brilhar no futebol inglês

Tommy Docherty estava tão impressionado com a resistência física e o talento do jovem Nando, como era conhecido pelos amigos no balneário, que lhe prometeu quando se despediu dele que o levaria para Inglaterra. As fronteiras ainda estavam fechadas aos futebolistas estrangeiros – abririam dois anos mais tarde – mas “Tommy Doc”, então a ponto de abandonar o FC Porto, sabia que a negociação entre os clubes, a federação inglesa e o governo estavam avançadas e em qualquer momento se acabariam com anos de isolacionismo. E queria ter a próxima estrela do futebol português do seu lado. Claro que em Inglaterra ninguém sabia quem era Fernando das Neves mas todos conheciam o seu alter-ego futebolístico: Pavão.

Apelidado por muitos do sucessor espiritual de Coluna na medular do futebol português, Pavão tinha muitas das características do génio encarnado que acabava de se retirar. Técnica, verticalidade, disparo de meia distância, boa leitura de jogo e sobretudo uma capacidade física fora do normal que lhe permitia cobrir todas as zonas do campo sem aparente esforço. O protótipo perfeito para o futebol físico praticado em Inglaterra. A transferência, claro está, nunca se concretizou. A 16 de Dezembro de 1973 o jogador do FC Porto caiu estatelado no chão do relvado das Antas. Era a jornada treze. Era o minuto treze. Parecia uma coincidência macabra do destino e o mito ganhou proporções épicas quando minutos depois do fim do jogo os altifalantes instalados no estádio portuense anunciaram o falecimento do jogador, já no hospital São João da cidade Invicta. Uma tragédia que podia ter sido perfeitamente evitada e que custou ao FC Porto e ao futebol português um dos seus mais brilhantes executantes.

O farol de esperança nos anos negros do FC Porto

Pavão começou a sua carreira de jogador em Chaves, a sua cidade natal. Chamou rapidamente a atenção dos olheiros portistas que em 1964 o trouxeram para a cidade do Porto e o integraram na equipa júnior. A sua progressão foi meteórica sobretudo porque era muito mais possante e habilidoso que os jogadores da sua faixa etária. Não surpreendeu ninguém portanto que a sua estreia profissional chegasse com apenas 18 anos e num jogo contra o Benfica de Eusébio. A sua maturidade mental e física era uma evidência e nos anos seguintes transformou-se na figura fundamental do balneário azul e branco, o único futebolista de elite num clube que vivia o seu pior período histórico. Em 1969 os dragões terminaram o campeonato na sua pior classificação de sempre, o nono lugar. Entre a saída e o regresso de José Maria Pedroto – entre 1968 e 1975 – o clube vivia nas ruas da amargura e apenas Pavão, que tinha sido promovido a líder de balneário pelo popular “Zé do Boné”, parecia dar uma luz de esperança aos adeptos. Havia jovens promessas da formação a chegar à primeira equipa como o avançado Fernando Gomes, então a brilhar ainda nos juniores, o talentoso António Oliveira ou o médio Rodolfo Reis mas a estrela absoluta era o jovem de Chaves que precocemente se fez capitão e porta-estandarte do clube. Tommy Docherty, o célebre treinador inglês que orientou os azuis e brancos em 1972 foi um dos muitos que saíram das Antas convencidos que noutro clube, noutro contexto, Pavão seria uma estrela mundial. Lamentavelmente para ele nesse ano todos os grandes mercados internacionais – Espanha, Itália e Inglaterra – estavam fechados a jogadores estrangeiros e o seu destino ficou preso ao clube portuense.  Bella Guttman, escolhido em 1973 para devolver o clube aos títulos pensava o mesmo e fez dele a referência de um meio campo que incluía Oliveira e os brasileiros Marco Aurélio e Bené. O técnico austriaco parecia ter encontrado a fórmula e a iminente chegada ao clube do peruano Teofilo Cubillas – cuja apresentação estava anunciada para o dia posterior ao jogo com o Vitória de Setúbal – parecia adivinhar um futuro risonho para os nortenhos. Até que Pavão, debaixo da chuva miudinha de Dezembro na Invicta, recebeu a bola no circulo centro, deu a sua última ordem de avanço à baliza contrária e procurou António Oliveira com os olhos. Corria o minuto 13 quando lhe enviou o esférico e caiu de bruços no chão para não mais se levantar.

Doping, negligência médica e o silêncio

A autópsia final autorizada diagnosticou a morte de Fernando “Pavão” das Neves como causa uma paragem cardíaca após uma hemorragia cerebral provocada pelo rebentamento de um vaso sanguíneo que levou à entrada em coma no relvado de onde já não saiu. José Santana, o médico do clube indicou que tal podia ter-se devido a um cabeceamento prévio na bola. A Policia Judiciária arquivou o caso pouco depois deixando pouca margem de manobra para debate mas as provas médicas indicavam que havia indícios que iam desde a negligência à mala praxis directamente. Pavão caiu de bruços no relvado e rapidamente todos se deram conta da gravidade do assunto mas o jogador demorou ainda algum tempo até ser transportado até o hospital. Não havia material nas Antas para lidar com esta situação, nenhum desfibrilhador, e assim os electro-choques recebidos já na unidade hospitalar chegaram demasiado tarde. Hora e meia depois de cair caído no relvado das Antas foi pronunciado morto e o trágico desfecho anunciado a um estádio onde todos permaneciam expectantes, á espera de noticias, mesmo depois do final do encontro. Seguiu-se o luto e as revelações do que realmente teria sucedido. Nos exames médicos praticados ao corpo autopsiado detectaram de imediato derrames nas cápsulas suprarenais provocadas por um excesso de descarga de adrenalina. Algo que podia ter sido provocado pelo uso de algum tipo de substância não recomendada à prática desportiva. Sendo Guttman o treinador não foi difícil recordar o seu historial de uso de substâncias dopantes através do seu mítico “cházinho”, onde diluía as cápsulas que dava aos jogadores e que tinham provocado problemas no passado, com o mítico guarda-redes encarnado Costa Pereira á cabeça. Guttman sempre defendeu que as pastilhas eram reais mas apenas se compunham de vitaminas e não de doping, uma dúvida que permaneceu no tempo e que se assemelha muito ás que Helenio Herrera, na mesma época, dava aos jogadores do Inter e que sim foram analisadas a ponto de serem consideradas dopantes.

Podia Pavão ter sido vitima de uma overdose de substâncias dopantes?

Todos os indícios indicavam isso mesmo e a celeridade com que se fechou o processo aponta nessa direcção não fosse igualmente divulgada na autópsia que o jogador padecia igualmente de uma doença crónica no coração, uma estenose aórtica congénita, que deveria ter provocado o seu abandono da prática uma vez detectada. O FC Porto fazia exames médicos todos os defesos no Centro de Medicina do Porto pelo que o responsável da entidade, Alberto José de Almeida, tinha cometido uma falha de diagnóstico ou, pior, sancionara o estado físico do jogador sem este se adequar com as exigências da prática. Negligência médica, qualquer uma das duas opções possíveis, foi como mínimo a verdadeira causa da morte do médio portista. No entanto nada descarta um agravamento da sua condição pelas pastilhas dadas pelo staff técnico que, no caso do seu problema coronário, podem ter ajudado a potenciar o bloqueio do vaso sanguíneo que derivou no seu falecimento. Fosse vitima de doping ou de um erro médico, Pavão acabou por ser, sobretudo, vitima do seu tempo. Sem vontade de fazer ruido á volta de um incidente já de por si traumático, as autoridades envolvidas – clube, unidade hospitalar e a investigação policial – decidiram atribuir a morte a uma causa natural deixando assim a esposa e filha do jogador sem respostas e desamparados pelo clube que só em 1982, com a chegada de Pinto da Costa á presidência, decidiu atribuir uma pensão á família para pagar os estudos da filha do atleta. Quase dez anos depois da sua morte.

Pavão, uma vitima do seu próprio tempo

Pavão foi um dos mais brilhantes futebolistas da sua geração. Foi igualmente vitima de um futebol pré-histórico onde não existia qualquer tipo de exigência médica aos clubes para dar solução imediata a momentos dramáticos como aquele que viveu. Só cinco anos depois com a chegada de Domingos Gomes à liderança do departamento médico dos dragões se instalou o primeiro desfibrilhador no estádio. Ao mesmo tempo o futebolista flaviense pagou igualmente o preço de uma era obscura onde o doping era utilizada em quase todas as modalidades desportivas de forma mais ou menos evidente sem particular controlo. Fosse por negligência médica ou por culpa das substâncias dadas por Guttman nas suas míticas pastilhas, Pavão não foi vitima de uma morte natural no estádio como durante tantos anos se escreveu, quase poeticamente, e sim a vitima de uma das maiores e graves negligências da história do desporto português.

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