Paul Brown, “O UFWC quer devolver a diversão aos jogos de seleções”

Imaginem uma história dos Mundiais de Futebol em que o país com mais títulos seja a Escócia? Uma realidade paralela criada, precisamente, para homenagear a seleção escocesa transformou-se em fenómeno de culto. Desde 2003 que Paul Brown se transformou no profeta de um novo e apaixonante torneio: o Mundial Não-Oficial de Futebol.

Uma história alternativa dos Mundiais

Para quê cair na tirania da FIFA, dos seus torneios de quatro em quatro estrategicamente seleccionados e ganhos sempre pela mesma elite quando se pode ter um Mundial todos os meses?

Essa foi a ideia de Paul Brown, jornalista desportivo e fundador do fenómeno UFWC (Un-Official World Cup), que se sentou à conversa com o @FutebolMagazine sobre o atrativo do seu projeto, a relação com a FIFA e as expectativas que uma competição com espírito de futebol de rua é capaz de criar.

A ideia de Brown tem um precedente histórico real.

Em 1967 a Inglaterra era, para todos os efeitos, a seleção campeã do Mundo. Pela primeira vez na sua história o orgulho inglês coincidia com os critérios da FIFA. Mas um só ano depois de celebrar em Wembley o troféu mundial, os ingleses foram batidos em casa pela Escócia. Nessa tarde, num encontro para o já extinto British Home Championship, os escoceses ganharam por 3-2. E auto-proclamaram-se campeões do Mundo!

Trinta e cinco anos depois o jornalista da revista Four-Four-Two decidiu resgatar esse episódio histórico e transformou o sonho dos escoceses numa realidade paralela. Aceitando a ideia de que o campeão do Mundo podia ser conhecido jogo a jogo, estudou a história dos encontros de seleções desde o primeiro duelo entre ingleses e escoceses em 1873 para estabelecer uma linha de campeões que dura até hoje consagrando pelo caminho seleções como Curação, as Antilhas, Zimbabwe, Georgia ou Angola.

A Escócia é o país como mais títulos conquistados neste Mundial paralelo, contando com 86 triunfos, seguido de perto pela Inglaterra com 73 e a Argentina com uns já distantes 53. Portugal já foi por duas vezes campeão deste Mundial Não-Oficial.

Confrontado com a popularidade à volta do UFWC o autor do projeto não tem dúvidas. A emoção que traz uma realidade onde cada jogo é uma final não tem preço.

Paul Brown: “As pessoas apaixonam-se pelo UFWC porque cada jogo é uma final”

Há, na cultura do futebol de rua, a sensação de que quando se ganha ao melhor é-se automaticamente o melhor. Sem outros condicionantes. Era essa a premissa inicial do Campeonato do Mundo Não-Oficial (UFWC)?

Sim, a ideia principal foi a de devolver a diversão ao conceito de futebol internacional. Muitas vezes os jogos entre seleções, mesmo oficiais, podem ser extremamente aborrecidos mas com a criação de uma ideia como o UFWC os jogos transformam-se em finais e passam a ter um interesse suplementar para o adepto.

A iniciativa recebeu elogios da própria FIFA. Qual é a sensação de ser elogiado pela própria organização que realiza o torneio oficial que vocês procuraram replicar?

Sim. A FIFA declarou que deseja que todos os seguidores do UFWC se divirtam e é precisamente esse o nosso objectivo. Não queremos, nem por sombras, substituir a FIFA mas saber que estão ao corrente do projeto é uma satisfação grande.

Quando seguem um jogo entre o campeão do UFWC e a seleção que lhe pode roubar o título sentem o mesmo tipo de emoção que transmite a final oficial do Mundial?

O UFWC não pode competir com o Mundial da FIFA em emoção mas as finais oficiais acontecem só de quatro em quatro anos. A nossa vantagem é que, entretanto, podemos desfrutar muito mais da emoção de saber quem é o novo campeão!

Dos artigos originais publicados na revista Four-Four-Two ao livro publicado há uns anos, como se desenvolveu a ideia de transformar o UFWC numa aventura escrita?

Houve um surpreendente interesse nos artigos que publiquei na revista e isso levou-nos à ideia de publicar um livro. Como a UFWC tem uma história diferente da dos torneios oficiais permite-nos falar de muitos jogadores e seleções que não venceram um Mundial da FIFA mas que foram importantes na história do jogo. Uma forma de chamar a atenção para esses grandes nomes que passaram ao lado da consagração oficial.

Analisaram mais de 800 jogos antes de elaborar a lista histórica de campeões da UFWC. Um simples erro, num jogo, deitaria a perder todo o trabalho porque o título segue uma linha temporal muito concreta. Quão cuidadosa foi a investigação para garantir que essa falha não existe, principalmente nos primeiros cinquenta anos da competição onde há dados às vezes contraditórios?

A principio fizemos uma pesquisa intensiva e avaliamos possíveis fórmulas para conseguir encontrar a ideia que queríamos transmitir. Depois de definir as regras, voltamos a avaliar cada resultado para compilar a lista definitiva. Durante os anos houve várias controvérsias com alguns jogos mas posso dizer de forma confiante que o Uruguai é, atualmente, o verdadeiro campeão.

Não têm uma taça Jules Rimet mas têm o troféu Charles Alcock. Não têm mascotes de quatro em quatro anos mas contam com um dinossauro como símbolo. Qual é o próximo passo no marketing do conceito UFWC?

Realmente não existe uma política de marketing consciente. Sempre foi um fenómeno espontâneo, de boca a boca. Não é um projeto lucrativo e o próprio troféu e mascotes são apenas criações virtuais. Gostaria, pessoalmente, de poder produzir réplicas do troféu e entregá-las aos respectivos campeões mas para isso precisamos de um sponsor generoso!

O projeto pode ter começado como uma aventura divertida mas com os anos tornou-se num fenómeno de culto bastante sério. É como se alguém tivesse criado um troféu paralelo aos Óscares e o Zimbabwe tivesse ganho sete prémios de Melhor Filme. O que é que prende tanto as pessoas a esta ideia original?

Pessoalmente acho que é porque cada jogo é uma final. Uma seleção pequena, num dia de sorte, pode ganhar ao campeão e tornar-se ela própria campeã do Mundo, nem que seja só por um jogo. Isso faz também com que adeptos do futebol que habitualmente seguem apenas as seleções mais importantes tomem contacto com outros países, realidades e os passem a seguir. Recentemente tivemos o caso da Coreia do Norte que foi campeã durante algum tempo e tivemos muitos seguidores a verem avidamente jogos dos coreanos quando antes isso seria impensável se não existisse este estimulo.

Sabendo já qual será o calendário dos jogos até Julho acredita que é possível que no final do Mundial do Brasil o novo campeão do Mundo da FIFA seja o mesmo da UFWC como aconteceu com a Espanha em 2010?

Não. É impossível poder prever isso e no fundo essa realidade é o que torna o UFWC tão fascinante. O Uruguai vai agora jogar com a Jordânia mas como qualquer das seleções que se apure tem ainda de jogar três ou quatro amigáveis pode até suceder que o campeão não esteja no Mundial do Brasil. De qualquer das formas se a equipa campeã da UFWC chegar ao Brasil vai ser um estimulo extra saber onde o troféu vai acabar. E em Julho, começar tudo outra vez sem ter de esperar a 2018.

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