Durante anos a capital de França foi uma cidade esvaziada de futebol profissional. Um oásis no hexágono. Desde a ascensão do Paris Saint-Germain o cenário começou a alterar-se mas foi a falência do histórico Racing que deixou uma vaga emocional e económica por preencher. Paris continua à espera de ter a sua rivalidade futebolística em campo.

Uma capital sem rivalidades

Há poucos jogos de futebol que envolvam tanto como um “derby”.
São motores económicos da região, vectores emocionais para os adeptos e verdadeiros postos avançados na luta pela hegemonia de uma cidade, de uma zona, de uma nação. A esmagadora maioria das capitais europeias vive de forma ardente essas rivalidades históricas. Em Londres, multiplicam-se os “derbys” por zonas geográficas. Em Madrid os gigantes Real e Atlético medem-se regularmente mas o duelo entre os modestos Rayo Vallecano e Getafe, Leganés ou Alcorcon também fazem parte do pulsar da capital espanhola. Poucos jogos são tão fascinantes como um Lazio vs Roma, Galatasaray vs Bessiktas ou um Panatinaikhos vs AEK enquanto que em Viena, Zagreb, Belgrado, Budapeste, Estocolmo ou Moscovo o ritual repete-se. Mesmo em países onde o futebol na capital tem um papel periférico – como a toda poderosa Alemanha – a capital desperta-se de forma diferente em dia de derby. O caso português não podia ser mais paradigmático. A emoção de um Benfica vs Sporting define, de certo modo, a essência do nosso futebol. Mas em França o vazio subsiste.

Paris é uma das cidades mais belas e imponentes da Europa. É também uma das capitais com maior poderio económico e diversidade demográfica. É também um oásis desportivo alimentando nos últimos anos exclusivamente pelo fenómeno PSG.
A própria fundação do Paris Saint-Germain, a principio da década de 70, explorava o vazio emocional do futebol na capital gaulesa. Até esse momento a cidade não dispunha de um clube capaz de disputar a hegemonia ás potencias a sul e norte de Ille-de-France. O clube nasceu como uma manobra de marketing e foi subsistindo graças sempre á inversão milionária de distintas empresas. O apoio popular – intenso, sobretudo nos bairros periféricos – nunca foi suficiente para sustentar o projeto que atingiu o seu primeiro apogeu graças ao dinheiro do grupo Canal Plus e que agora está na elite europeia graças ao investimento qatari. Paris e o PSG confundem-se para os adeptos porque, na realidade, o conjunto do Parc des Princes é o único emblema que se pode associar à capital do país. Mas isso não significa que seja o único clube que encontramos registado na zona.

Do clube de Jules Rimet ao sonho de Lagardere

O Red Star FC foi um projeto poli desportivo desde a sua essência e sobre a liderança de Rimet – então ainda longe de ocupar o papel de presidente da FIFA – começou a trazer vida ao modesto estádio de Colombes, um dos orgulhos da capital na primeira metade do século. Um clube com grande tradição – vencedor de cinco edições da Coupe de France – e fundado em 1897, o Red Star popularizou-se também graças á sua formação – vários internacionais franceses e de países africanos de origem francófona passaram os primeiros anos nas escolas do clube. Sobreviveu vinte anos na Ligue 1, que ajudou a fundar, até à despromoção definitiva em 1973 e hoje encontra-se perdido nas profundezas do futebol gaulês, disputando a terceira divisão. Não está só.

Nos anos oitenta houve a possibilidade real de criar-se uma potencia europeia em Paris longe das cores do PSG. A fortuna de Jean-Luc Lagardere alimentou esse sonho debaixo do escudo do Racing Paris que foi rebatizado como Racing Matra – nome da companhia que presidia Lagardere – e debaixo dessa ambição o clube contratou vários futebolistas internacionais de renome como Littbarsi, Francescoli, Fernandez, Ginola, Bossis ou Ruben Paz e treinadores de prestigio como Artur Jorge, recém-sagrado campeão europeu. O Racing durou pouco na elite, o tempo que aguentou a fortuna de Lagardere. O seu desaparecimento foi tão rápido e abrupto como a sua ascensão (depois de ter sido uma potencia nos anos cinquenta e sessenta) e hoje é outro dos clubes parisienses que arrasta uma centena de adeptos quinzenalmente para ver os seus jogos nas divisões amadoras. No futebol regional subsistem outros emblemas da capital com escassa expressão popular. É o caso do Paris FC.

Paris FC, o primeiro projeto de marketing do futebol francês

A sua história é curiosa. Foi fundado em 1969 como uma primeira tentativa para datar Paris de um clube relevante depois das despromoções do Red Star e do Racing. Pouco depois foi associado a um novo projeto, o Paris Saint-Germain, tendo originalmente protagonizado a fusão com o modesto Stade Saint-Germain. Poucos anos depois do arranque do projeto, desencantados com o seu rumo, os clubes separaram-se mas foi o Paris FC que ficou com o direito de disputar a Ligue 1. Foi sol de pouca dura e rapidamente o clube foi despromovido tendo regressado em 1978 para disputar apenas uma temporada na elite, que disputou ao mesmo tempo que o PSG. Foi a única vez na história que ambos projetos se cruzaram na Ligue 1. Depois da experiência o clube foi absorvido pelo Racing Paris e quando este faliu renasceu nas divisões amadoras e atualmente está também na terceira divisão gaulesa.

Também podíamos falar de clubes como o US Ivry ou do AC Boullogne-Bilancourt, uma equipa da popular zona do bosque de Bolougne, e também do Maccabi Paris. O nome deste último denuncia as suas origens judias. É um dos poucos clubes assumidamente étnicos de Paris e representa, de forma quase anónima, a comunidade hebraica da cidade. Para o fim deixamos aquele que é, provavelmente, o maior caso de sucesso do futebol parisiense à excepção do PSG. Um caso com sotaque português que nasceu na periferia, em Creteil. O Creteil-Lusitanos disputa atualmente a Ligue 2. Está a uma promoção da elite. De tornar realidade o sonho de um derby parisiense. Fundado nos anos 30 foi dinamizado pela comunidade lusitana de emigrantes instalados em Creitel quando o US se fundiu com o Lusitanos Saint-Maur – um bairro dentro do pequeno subúrbio a onze quilómetros a sudeste de Paris. A pesar de ter sido após essa fusão que o emblema deu um importante salto de qualidade o certo é que o clube é agora uma identidade parisina e não exclusivamente lusitana. Continua a ter vários jogadores portugueses e luso-descendentes nas filas mas também conta com uma clara maioria de futebolistas franceses ou de outras etnias. Essa profissionalização levou o projeto das entranhas do Championat para a Ligue 2. A subida de divisão é um sonho antigo e de difícil realização mas só o facto de terem logrado subir tão alto diz muito sobre a sustentabilidade do projeto.

Os motivos pela ausência de derbys locais em França

E então, porque subsiste este vácuo de competitividade sem que possa emergir um emblema á altura do PSG para dar forma a um derby de Paris?
Uma das principais razões está na própria estrutura desportiva do futebol francês. Desde as suas origens o jogo foi olhado com desconfiança e desprezo pelas elites. Ainda que seja certo que os grandes organizadores e promotores do futebol – Jules Rimet, Henri Delauney, Gabriel Hanot – fossem gauleses, o público não parecia estar demasiado interessado num desporto visto como algo excessivamente britânico preferindo outras modalidades mais individuais como o ténis, as corridas automóveis e o ciclismo. Em zonas muito concretas do “hexágono” o futebol nunca conseguiu superar a popularidade do rugby. Foi apenas o tecido industrial e os grandes empresários que manteve o futebol vivo e por isso os grandes clubes surgiram em zonas demográficas que subsistiam exclusivamente da industria como Lille, Reims, Saint-Etienne, Lyon ou Rennes.

As excepções podiam encontrar-se em cidades portuárias, altamente dinâmicas, como Marselha, Bordeaux e Nantes. Com uma curiosidade muito peculiar mas presente até hoje. Em todas essas cidades só havia espaço para um clube. Não existe a cultura da rivalidade local em França e toda essa dinâmica é transportada para o confronto regional. Paris, que teve clubes de expressão menor durante quase um século, acabou por abraçar a mesma filosofia até aos anos 80. Durante meia dúzia de anos os duelos entre o Paris Saint-Germain e o Racing Matra Paris pareciam contradizer essa norma mas a falência do império de Lagardere condenou para sempre, aparentemente, esse modelo bipolar na capital. Tal como no resto do país parece que a população de Paris prefere apoiar em massa um só clube, representativo de todos os parisinos, a procurar uma divisão local de emoções e expectativas.

A importância económica de um derby na capital

No entanto, a pesar da realidade atual, vários políticos e empresários têm defendido a importância para o futebol francês da existência de uma segunda alternativa na capital, uma zona urbana com um dinamismo demográfico e uma riqueza económica suficiente para sustentar dois projetos paralelos. Bernard Tapie, apoiado pelo governo de Nicolas Sarkozy, foi um dos primeiros gestores a impulsionar a ideia mas esta acabou por não sair do papel. Os clubes que existem atualmente representam pontos geográficos muito concretos – em alguns dos casos, são verdadeiros emblemas étnicos – pelo que é difícil ver a ascensão de um deles em especial para desafiar o PSG.

Ainda assim, a capital parisiense continua a suspirar por poder replicar esses fins de tarde no Parc des Princes com esses duelos que possam entrar para a historia como reflexos da alma do futebol da cidade. Paris continua á procura do seu derby e olhando para o resto do continente e para as suas históricas rivalidades nas mais importantes capitais, essa dualidade parece hoje mais fundamental do que nunca.

1.912 / Por