Panini, a fábrica dos sonhos que se colam

Há mais de cinquenta anos que a nossa vida não a mesma sem eles. As coleções de cromos Panini fazem parte do ADN emocional de qualquer adepto. É uma fábrica de sonhos de papel que se colam à memória. A cada novo ano, novo torneio, o ritual repete-se. Cromos para a posteridade com selo tão italiano.

A saga dos irmãos Panini

A história pode ser madrasta para alguns e feliz para outros. Durante gerações os cromos foram sinónimo de Panini. E ao contrário também vale. Mas os irmãos Giuseppe e Benito pouco têm a ver com a ideia de criar coleções de figuras de papel que se podiam colar em cadernetas. Foi um empresário de Milão, dono da empresa Carnivale, o homem que teve a ideia genial de reproduzir as fotografias dos jogadores da Serie A num guia para os adeptos. Mas não encontrou forma de vender a ideia, desistiu do seu sonho e guardou-o numa gaveta. Podiam ter ficado aí para sempre e com eles a nossa própria alegria adolescente de fazer de uma carteira de seis cromos o centro do nosso universo. Mas a história que dar outra oportunidade á ideia. Só que em outras mãos.

Em 1961 os irmãos Panini, distribuidores de imprensa, souberam da falência da Carnivale. Sabiam algo sobre essas figurinhas de heróis futebolísticos. Gostaram da ideia, viram-lhe futuro. E compraram-lhes a colecção. Souberam vende-la Criaram pequenas carteiras onde cabiam duas a três figuras. Vendiam-nas no seu posto de distribuição a dez liras. Fizeram uma pequena fortuna. Todos na região queriam ter a sua réplica das estrelas da altura. A cidade estava a poucos dias de converter-se no epicentro do futebol mundial. Não havia melhor sitio para começar a aventura. Com o dinheiro recuperado, os irmãos criaram a empresa Panini. Sediaram-na na sua Modena natal, a poucos quilómetros de Milão, mas mantiveram a capital lombarda como o seu centro preferencial.

O primeiro cromo publicado pertenceu a um jogador do Internazionale, Bruno Bolchi e foi a estrela sueca Niels Liedholm o protagonista da capa do primeiro álbum oficial da marca. Nos dois anos seguintes a sua colecção tornou-se num fenómeno nacional e vendeu um total de 53 milhões de figuras. A febre tinha assaltado os amantes do Calcio e os irmãos Panini eram ricos. Sem o saberem tinham dado o pontapé de saída para uma das mais ancestrais e veneradas tradições para os adeptos de futebol de todo o Mundo.

Três Maradonas por um Vierchwood

Á medida que a empresa Panini crescia – dedicando-se à distribuição editorial, publicação de revistas e livros – as suas coleções de figuras tornaram-se cada vez mais célebres. Em 1970 os Panini decidiram saltar fronteiras e criaram a primeira colecção internacional, dedicada ao Mundial de Futebol que ia ter lugar nesse Verão no México Doze mundiais depois, ainda cá estão.

Internacionalmente várias empresas começaram a distribuir os produtos Panini no continente europeu e, inevitavelmente, começaram a criar-se coleções de cromos para cada país onde a empresa entrava. Espanha, Portugal, Inglaterra, Alemanha Ocidental, França e Holanda aderiram rapidamente á moda. Na década de setenta não havia nenhum adepto do mundo que não conhecesse os cromos Panini. Criou-se uma verdadeira corrente cultural, alimentada pelos mais novos mas sufragada – económica e emocionalmente – pelos mais velhos. Jovens trocavam cromos nos intervalos das aulas, adultos procuravam em alfarrabistas cópias únicas dos jogadores da sua infância. Era assim na altura e ainda o é hoje. Com o crescimento da imprensa mudou também o negócio.

Os primeiros cromos tinham de ser colados à mão e eram muitas vezes figuras estilizadas de fotografias a preto e branco pintadas manualmente. A partir de finais dos anos setenta as fotos oficiais – tiradas no inicio da temporada pelos clubes – davam forma aos cromos que já traziam consigo um novo formato autocolante. Umberto Panini, um dos irmãos que fundou e dirigia a imprensa, inventou então uma máquina especial, capaz de guardar diretamente os cromos nas suas carteiras e acelerou o processo levando-o a uma nova dimensão. Quando a família saiu da empresa, em 1988, o mundo já não podia viver sem a sua invenção. As suas coleções tinham ultrapassado o Oceano, estavam instaladas a nível internacional e eram agora parte única no folclore de cada torneio internacional, de cada temporada desportiva. Para terminar uma colecção podiam-se trocar três cromos de Maradona por um central do Cremonese. Não havia limites para o que alguém estava disposto a dar por uma figura rara. As edições clássicas tornaram-se num dos itens mais procurados em leilões. A ideia tinha triunfado definitivamente.

A polemica dos cromos publicitários

Nos últimos anos o universo dos cromos entrou noutra dimensão.

O sucesso do modelo virtual levou à criação de coleções online e á multiplicação de novas sagas dedicadas a clubes, seleções ou personalidades para além da habitual colecção de cada competição internacional. Durante anos houve tentativas, algumas delas falhadas, de fazer de coleções de provas como a Champions League o equivalente anual ao sucesso internacional que são os cromos dos Mundiais de futebol. Em vésperas de que arranque um novo torneio no Brasil, a polemica voltou a assaltar a memória dos irmãos Panini quando a companhia, num acordo com a FIFA, decidiu colocar na sua nova colecção nove cromos publicitários. Sem eles, oficialmente, a caderneta de 649 figuras não está completa. O protesto de milhões de fãs da marca foi tal que no Brasil a empresa distribuidora aceitou entregar aos coleccionadores um pack com nove cromos e duas carteiras extra com figuras aleatórias para preencher os espaços originalmente dedicados à publicidade dos patrocinadores oficiais do torneio.

É o último campo de batalha numa área que se tornou fundamental para adeptos de todo o Mundo. Do pequeno negócio de um quiosque modesto de Modena, as cadernetas de cromos Panini roubaram os sonhos de milhões ao longo dos anos. Uma fábrica de magia e ilusão que dá cor e vida à eterna paixão pelo mundo do futebol.

2.748 / Por
  • Pedro Sousa

    Quero o cromo Algéria Fans da caderneta virtual panini