Não houve outro país que contribuísse tanto para o desenvolvimento do futebol português como a Hungria. Durante mais de meio século os húngaros chegaram ao futebol luso e não só plantaram as sementes que floresceram nos principais clubes nacionais como se transformaram em autênticos “papa-títulos” a ponto de que são, ainda hoje, a segunda nacionalidade com mais títulos conquistados por treinadores.

O país que ajudou a formar a identidade do futebol português

Quando o Belenenses venceu o único título de campeão nacional no seu historial, em 1946, quebrou igualmente um feito histórico. Pela primeira vez desde a formação do Campeonato da Liga – o antecessor oficializado pela Federação Portuguesa de Futebol do Campeonato Nacional da 1º Divisão – o título principal do futebol em Portugal caía nas mãos de uma equipa que não era treinada por um húngaro. Doze anos depois.

Se os ingleses foram os introdutores da modalidade em Portugal, a finais do século XIX, seguindo o exemplo do que sucedeu um pouco por todo o mundo, o que fez realmente o futebol português crescer e conquistar uma identidade própria foi a aportação húngara. Sem o futebol magiar Portugal seguramente seria uma nação futebolística muito diferente, mais atrasada na sua evolução táctica e no cultivo de uma identidade técnica que permaneceu ao largo dos tempos.

Os húngaros, expoentes máximos do futebol criativo, privilegiador da posse e da habilidade táctica representada pela escola danubiana, ensinaram aos jogadores – muitos deles futuros treinadores – mas também aos técnicos rivais e ao público que havia uma forma de interpretar o jogo que estava muito distante do direto “football association” britânico, nos anos trinta já em clara decadência. Nessa mesma década a Hungria assume-se – lado a lado com a Áustria do Wunderteam montado por Hugo Meisl – como a grande potência centro-europeia, disputando dois Mundiais – finalistas vencidos em 1938, em França, frente é mais física e direta Itália – e fazendo dos seus principais clubes as grandes potências do maior torneio internacional de equipas, a Taça Mitropa. Muitos dos treinadores que chegaram a Portugal nesse período tinham começado a sua carreira de jogadores no pós I-Guerra Mundial e por isso vivido a época áurea da escola danubiana.

Nos anos vinte, ao contrário do resto da Europa, o futebol húngaro abraçou o profissionalismo, os seus estádios tinham uma das mais altas taxas de ocupação do continente – mais de 50 mil em muitos casos – e os seus clubes meios para caminhar para a importante evolução técnico-táctica introduzida por pioneiros como Jimmy Hogan, homem responsável pela gestação da escola húngara. Graças ás suas lições, o futebol português, indiretamente, deu um salto de qualidade tremendo a partir da chegada massiva de técnicos magiares nos anos trinta.

Os treinadores húngaros com títulos em Portugal

No total, desde a disputa do Campeonato da Liga (a partir de 1938/39 da 1º Divisão), um total de 8 treinadores húngaros foram campeões nacionais em Portugal por 16 vezes, a mais cifra entre as nacionalidades estrangeiras, por cima dos ingleses (13) e dos brasileiros (10). Paralelamente, na disputa do Campeonato de Portugal (a partir de 1938/39 a Taça de Portugal), houve igualmente onze títulos levantados por húngaros – três no Campeonato de Portugal e oito Taças de Portugal. Se a isso somamos os campeonatos distritais, vigentes até aos anos quarenta, a cifra amplia-se ainda mais uma vez que entre Porto, Lisboa e Braga há 25 títulos logrados por técnicos magiares. Isso para não falar igualmente nos primeiros dois títulos continentais, obra do mais polémico de todos os treinadores magiares. No total os húngaros conquistaram no futebol português um número mágico de 57 títulos.

O primeiro húngaro a vencer o Campeonato de Portugal, em 1925, foi Akos Teszler, o primeiro treinador remunerado em Portugal, que orientou o FC Porto entre 1922 e 1927. Foi sucedido por outro magiar, o treinador do Marítimo Francisco Ekker na temporada seguinte.

No banco dos azuis e brancos, a Teszler sucedeu-lhe o mais influente dos técnicos húngaros no futebol português, o mito Josef Szabo. O homem que se celebrizou igualmente como homem por detrás da épica formação dos Cinco Violinos com o Sporting,  venceu o Campeonato de Portugal de 1932 com os azuis e brancos (antecedente da Taça de Portugal que conquistou em três outras ocasiões com as cores do Sporting) e três anos depois o primeiro Campeonato da Liga num total de três títulos de campeão nacional tendo sido o primeiro treinador a conquistar duas dobradinhas (apenas superado mais tarde por Otto Gloria).

Em 1935/36 o Benfica conquistou o seu primeiro campeonato nacional igualmente comandado por um influente magiar, Lipo Herzcka, responsável pelos três títulos consecutivos entre essa temporada e 1937/38. Com um rico passado no futebol espanhol, onde treinou a Real Sociedad, Athletic Bilbao e Real Madrid – a quem levou ao primeiro título da sua história antes de chegar a Lisboa, foi o técnico fundamental para elevar a equipa encarnada á elite nacional.

No ano seguinte foi a vez do FC Porto retomar a dianteiro, vencendo a primeira edição oficial do Campeonato Nacional da 1º Divisão com uma equipa treinada por uma antiga glória da baliza dos dragões, Mihayl – cujo nome foi popularizado para Miguel – Siska, outro grande técnico húngaro que conquistou o bicampeonato e deixou uma importante marca na forma de treinar da equipa nortenha. Os então já populares “Três Grandes” deviam a sua primeira época dourada na competição nacional aos treinadores húngaros e também por isso nos anos seguintes foi sempre ao país magiar que os clubes procuraram recorrer para encontrar soluções para o banco. Entre os dois títulos de Szabo com o Sporting, afirmou-se no banco do SL Benfica outro treinador húngaro de excelência, Janos Biri, que em 1945 se transformou no terceiro técnico a vencer o tricampeonato. Todos eles eram húngaros.

Reis da Europa graças á Hungria

A partir de 1945 os treinadores húngaros continuaram a ser altamente requisitados mas apenas voltaram a celebrar um título nacional mais de uma década depois quando Bella Guttman, a par de Otto Gloria o primeiro treinador moderno no futebol português, levou o FC Porto primeiro, e o SL Benfica depois, ao campeonato nacional, durante três anos consecutivos marcados igualmente pelos primeiros dois titulos europeus do futebol português. Foi uma ironia do destino uma vez que o Honved era o grande candidato a vencer a primeira edição da Taça dos Campeões Europeus – troféu oficializado, em parte, por sua culpa, mas o clube recusou participar, evitando assim que uma equipa magiar levantasse pela primeira vez a Taça.

Guttman amaldiçoaria o clube e a si mesmo e não voltou a levantar o troféu mas a influência húngara permaneceu nas duas décadas seguintes com os triunfos na Liga de Lajos Czeiler (1964) e Lajos Barotti (1981), todos ao serviço do Benfica. Foi o último título magiar na história da competição, o 16º, recorde que até hoje perdura.

Os sucessores, brasileiros mas com perfume húngaro

Sem títulos mas com uma importância fundamental no futebol luso passaram outros técnicos húngaros como Magyar Ferenc, Gensi Deseo, Gyorgi Orth, Janos Kalmar, Alexander Pecs ou Rudolf Jeney. Não deixa igualmente de ser fundamental apontar a enorme influência húngara no futebol brasileiro, com sucessivas emigrações de treinadores de prestigio nos anos trinta e quarenta para a América Latina, ajudando a dar uma coesão táctica a um futebol que era, até então, eminentemente técnico. Dessa escola húngaro-brasileiro surgiram inovações como a “Diagonal” e o 4-2-4, popularizado depois no futebol europeu por um húngaro que tinha feito escola no Brasil, o inimitável Bella Guttman.

A série de técnicos brasileiros campeões em Portugal nos anos cinquenta e sessenta resultava, portanto, também dessa mesma influência húngara, de forma indireta, perpetuando a sua importância indiscutível na história do futebol luso. Ao mesmo tempo que a Hungria se assumia como máxima potência mundial no período entre os anos 30 e 50, culminada com a famosa seleção dos “Mágicos Magiares”, as suas lições permitiram ao futebol português lançar igualmente as bases da sua própria idade de ouro. Sem o futebol húngaro e os seus mentores hoje, seguramente, o futebol em Portugal seria muito diferente.

2.700 / Por
  • Fernando Ferreira

    Não deixa de ser estranho que um país com uma história tão brilhante no futebol mundial se tenha transformado a partir dos anos 70 numa potência de segunda ou mesmo terceira ordem.

    A selecção a quem denominaram “os mágicos magiares” foi claramente uma das melhores da história do futebol. Há várias imagens no You Tube sobre as suas actuações.