A partir dos anos oitenta os patrocínios passaram a ser parte integrante do universo futebolístico. O seu assalto às camisolas dos clubes não surgiu nem ao mesmo tempo nem ao mesmo ritmo. Mas sabem os adeptos de hoje quais foram os primeiros patrocinadores dos principais clubes do futebol mundial?

Quando os patrocínios estavam proibidos

Em 1995 a UEFA cedeu e permitiu que os clubes pudessem apresentar os seus equipamentos com patrocinadores nos jogos das competições europeias. A última fronteira contra o uso de patrocínios nos equipamentos estava ultrapassada. A saga tinha começado quase duas décadas antes. Nesse período as marcas invadiram o mundo do futebol e as camisolas impolutas e sagradas passaram a ser pasto de publicidade a troco de receitas que permitiam manter a competitividade ou salvar inclusive alguns clubes da falência. O processo foi largo e não seguiu o mesmo ritmo. Nos países do norte europeu foi assumido como algo natural. No sul da Europa houve equipas que se mantiveram à margem até não puderem mais e os seus primeiros equipamentos devidamente patrocinados não surgiram até finais dos anos oitenta.

Houve também a necessidade de ajustar a legislação em alguns países onde o patrocínio estava expressamente proibido. Em 1972 a FIFA deu o primeiro passo, permitindo pela primeira vez que fossem cosidos aos equipamentos patrocínios. A principio a ideia parecia restringir-se apenas às marcas que fabricavam o material desportivo mas essa brecha na lei antecipou uma revolução em toda a regra. Em varias ligas a mudança da legislação antecipou uma mudança radical em que, de um ano para o outro, todos os clubes entraram no carrossel dos patrocínios nos equipamentos. Noutros, com legislação mais liberal, o processo seguiu ao ritmo que cada clube quis. Entre os pioneiros Eintracht Braunschweig e Kettering Town, em 1973 e o final dos anos oitenta, todos os grandes clubes do futebol mundial abraçaram a nova realidade económica do beautiful game.

Os pioneiros, Alemanha e Inglaterra

A Alemanha foi o primeiro país a contar com uma equipa na primeira divisão com patrocinador na camisola. A decisão do Eintracht Braunschweig de exibir a cerveja Jaggermeister (em lugar do emblema do clube) abriu um precedente rapidamente explorado por outros clubes. Em 1974 o Bayern Munich fez valer a sua parceria com a Adidas e passou a exibir o nome da companhia na camisola de forma destacada. Ao mesmo tempo o Borussia de Dortmund recorria ao patrocínio da câmara municipal da cidade mineira do Ruhr enquanto que o Hamburgo SV passava a exibir nas camisolas a marca Campari. A Bundesliga foi uma das primeiras grandes ligas mundiais a exibir maioritariamente patrocínios nos equipamentos dos seus principais clubes e só no final da década é que outros campeonatos seguiram o mesmo exemplo.

Em Inglaterra o pioneiro foi o Liverpool que por breves jogos utilizou na camisola vermelha o patrocínio da marca Hitachi tendo-a retirado pouco depois ao longo da época 1979/80. Nesse mesmo ano os seus vizinhos de Goodison Park renderam-se á moda e associaram a camisola azul à marca Hafnia. O mais antigo patrocínio começou dois anos depois quando o Arsenal estabeleceu uma parceria com a marca japonesa JVC. Pouco a pouco os restantes grandes do futebol inglês seguiram o exemplo e em 1982/83 a marca Sharp surgiu pela primeira vez nas camisolas do Manchester United. Seriam os seus patrocinadores até final dos anos noventa. Nesse mesmo ano os seus vizinhos do City começaram a colaboração com a marca automóvel Saab e na temporada seguinte foi a vez do Chelsea abrir pela primeira vez o futebol inglês ao mercado dos petrodólares com o acordo com a Gulf Air. No final dos anos oitenta todos as equipas da então First Division exibiam já com naturalidade os seus patrocinadores. Na vizinha Escócia a empresa CR Smith assinou um acordo simultâneo para representar tanto o Celtic como o Glasgow Rangers. Foi em 1983/84. Na Holanda a federação abriu em 1982 a possibilidade a todos os clubes aceitaram ofertas de empresas para patrocinar as camisolas e todos os clubes acederam. O Ajax estreou-se com a marca TDK enquanto que o PSV foi patrocinado pela casa-mãe, a Philips.

O arranque comercial da Europa latina

No sul da Europa o processo demorou mais tempo até se confirmar definitivamente.
O primeiro caso de patrocínio surgiu nas camisolas do Perugia, ocasionalmente, em 1973, com a marca Pastificio Ponte. Foi a Juventus, um clube com uma profunda mentalidade empresarial, a render-se definitivamente aos novos tempos com o acordo assinado em 1979 com a marca Ariston. Os restantes clubes da Serie A aderiram à moda duas temporadas depois. A Roma de Falcao estreou-se com a marca de pasta Barilla e os dois gigantes de Milão apostaram por marcar estrangeiras, a Pooh Jeans para o AC Milan e a Inno Hit para o Internazionale.

Em Espanha o clube pioneiro, o Racing Santander, apenas estreou patrocinador oficial em 1981 com a marca Teka que mais tarde seria patrocinadora do Real Madrid. Os merengues exibiram no ano seguinte pela primeira vez o logo da marca Zanussi nas camisolas enquanto que o seu vizinho da capital, o Atlético, foi um dos últimos a render-se aos novos tempos quando Jesús Gil y Gil aceitou a oferta da marca Mita antes de entregar o patrocínio das camisolas à câmara municipal que ele próprio presidia, Marbella. Espanha foi também o país com os mais longevos resistentes. Por motivos ideológicos tanto o Barcelona como o Athletic Bilbao resistiram largos anos a vender a sua camisola. O Barcelona arrancou em 2006/07 numa parceria com a Unicef que mais tarde passou a Qatar Airways em 2011/12, o primeiro patrocínio pago na história do clube. Já o clube basco começou em 2004/05 a associar a camisola ao governo de Euskadi para depois assinar um protocolo com a petrolífera basca Petronor em 2008.

O caso Português e Sul-Americano

Portugal aderiu, como quase toda a Europa do sul, a meados dos anos noventa à moda dos patrocínios. O pioneiro foi o FC Porto que já debaixo da liderança de Pinto da Costa assinou em 1983 uma parceria com a marca Revigres, ainda hoje parceiro oficial do clube e patrocinador da camisola até 2003. Pouco depois foi a vez do Benfica seguir o exemplo do seu rival a norte, associando-se à marca Shell em 1984/85. O Sporting Clube de Portugal, tal como o Atlético de Madrid, resistiu até bem ao final da década antes de associar-se à marca Fnac – não confundir com o distribuidor francês – que também patrocinaria o rival Benfica. No final da década todos os clubes portugueses da primeira divisão exibiam patrocínios nas camisolas, a maioria de empresas locais que funcionavam como pulmão financeiro dos clubes.

Do outro lado do Atlântico o processo começou antes. No Brasil tudo arrancou com a mudança da legislação em 1982 que originalmente só permitia patrocínio nos torneios continentais tendo mais tarde ampliado a cobertura aos jogos estaduais e nacionais. O Democrata de Sete Lagoas foi o pioneiro, nesse ano, ao associar-se ao Banco Agrimisa. Poucos meses depois foi a vez de São Paulo e Corinthians publicitarem a marca Copaf (no caso do Corinthians nas costas já que o destaque ia para a frase “Democracia Corinthiana”). No ano seguinte foi a vez do Santos (Casas Bahia) juntar-se ao lote de clubes e em 1984 dois grandes emblemas do Rio de Janeiro, Flamengo (Lubrax) e Vasco da Gama (Banco Nacional) assumiram-se como pioneiros na cidade carioca. Mais a sul, na Argentina, coube ao Boca Juniores ser o primeiro clube com patrocinador oficial, um contrato assinado em 1983 com a empresa Vinos Maravilla. O River Plate tardou dois anos para concluir negociações com a empresa Fate, unindo-se assim ao leque de escudos históricos com patrocinador oficial.

Quando os patrocínios estavam proibidos

A esmagadora maioria dos negócios que envolveram os mais relevantes representantes das grandes ligas continentais envolviam valores que distam e muito dos praticados hoje em dia. Em alguns casos eram quase simbólicos enquanto que noutros suponham apenas uma pequena verba dentro de todo o orçamento que continuava a depender sobretudo das receitas de bilheteira. A chegada da televisão por cabo ampliou as receitas por contratos televisivos e aumentou igualmente a exposição das marcas e o valor a pagar por aparecer nas camisolas dos grandes clubes foi subindo de forma inequívoca.

Hoje os adeptos olham para uma camisola sem patrocínio com estranheza mas há três décadas atrás era precisamente a possibilidade de associar o equipamento a uma marca que causava revolta entre os seguidores de um clube. A metamorfose dos grandes escudos do futebol mundial foi chave para abrir caminho a uma nova era. Estes foram os primeiros nomes a colorir as camisolas desses grandes escudos, os pioneiros do futebol moderno que ainda hoje ecoam com nostalgia na memoria de muitos.

3.026 / Por
  • Ze

    A UEFA só proibia o patrocínio, até meados dos anos 90, nas finais europeias. Achei curioso, em 90, o Marselha ter um patrocinador para a liga doméstica e outro para a TCCE.