Os grandes heróis esquecidos de África

Antes do futebol africano se tornar num fenómeno de popularidade em todo o Mundo, nos campos do Continente Negro brilhavam alguns dos melhores jogadores da sua história. Sem o enfoque mediático dos seus sucessores, consagrados por uma era de uma mediatização global, foram fundamentais em cimentar a popularidade do jogo em África. É altura de conhecer melhor os heróis esquecidos do futebol africano.

Os génios do Continente Negro

Uns dizem que foi com o calcanhar de Rabath Madjer em Viena. A maioria prefere escolher a dança icónica de Roger Milla depois do golo a René Higuita nos Oitavos de Final do Mundial de Itália, em 1990. Seja um caso ou outro, parece evidente. O futebolista africano começou a estar na moda no final dos anos 80. Uma moda que nunca mais passou.

Em 1995, George Weah venceu o Ballon D´Or da France Football.

Não foi um brasileiro, não foi um argentino, foi um africano que acabou com a hegemonia dos jogadores europeus num troféu que só nesse ano se abriu a jogadores de todo o Mundo. Essa decisão, bastante polemica na altura, era no fundo o espelho da crescente popularidade internacional do futebolista africano. Não era só a grandeza do avançado do AC Milan que estava no palco, a receber o troféu. Era o futebol africano no seu todo. E todos os grandes jogadores que antecederam a sua geração.

Weah fazia parte de uma série de jogadores memoráveis. Mas, sobretudo, de uma geração de transição. Antes dele os futebolistas nascidos em África eram vistos com curiosidade e exotismo mas não eram capazes de gerar o mesmo respeito que os futebolistas americanos na Europa. E no entanto desde os anos 30 que jogadores nascidos em África tinham ajudado a escrever a letras de ouro a história do futebol europeu.

Até aos anos 60, quando o processo de descolonização chegou praticamente ao seu final, os grandes jogadores africanos foram reconhecidos internacionalmente. Eusébio foi o primeiro futebolista negro a vencer um Ballon D´Or, trinta anos antes de Weah. Antes dele o perfume do Magrebe já tinha conquistado a Europa com Ben Barek, Mekhloufi ou Just Fontaine e entre Coluna, José Águas, Matateu e Peyroteo tinham sido estrelas internacionais na sua era dourada.

Mas com a progressiva independência das nações africanas a Europa – e o por arrasto, o Mundo – desconectou do futebol em África que viveu mais de duas décadas afastado das luzes da ribalta. Mas os grandes jogadores continuaram a nascer, a crescer e em alguns casos, a provar o futebol europeu com sucesso.

Keita, o malabarista negro

Se o Mali nunca tivesse conseguido a independência (em 1960) talvez Salif Keita tivesse passado para a história como um dos melhores jogadores gauleses da história.

Mas não.

O homem que deixou o futebol francês a seus pés, antes de passar por Portugal, é talvez o maior entre os futebolistas africanos que nunca receberam o devido reconhecimento internacional. Vitima do seu próprio tempo, Keita nasceu em Bamako e aí se forjou como futebolista de elite. Goleador pela equipa local, o Royal Bamako, rapidamente chamou a atenção dos olheiros gauleses que mantinham os paises africanos debaixo do seu radar. Em 1967 assinou pelo Saint-Etienne para substituir o argelino Rachid Mekhloufi, e ao serviço dos Les Verts transformou-se num dos maiores jogadores dos palcos europeus. Em 1971 apontou um recorde de 42 golos, antes de assinar pelo Marseille. Depois de problemas com a directiva – que o queria forçar a nacionalizar-se francês – passou por Espanha, onde brilhou no Valência  e por Portugal. No Mali, as suas gestas eram seguidas com devoção. Nunca cumpriu o sonho de levar o seu país a um Mundial mas em 1972 esteve perto de vencer a CAN, naquele que foi o melhor ano da história do futebol do seu país.

De Milla a Madjer

Se Keita foi uma estrela consagrada na Europa, em África venceu apenas por uma vez o Ballon D´Or entregue pela revista France Football só a jogadores do continente negro. Foi o prémio inaugural, uma forma de consagrar a sua importância para o futebol em África. Uma herança que deixou escola para o aparecimento na década seguinte de nomes brilhantes.

Roger Milla, que se fez popular aos 38 anos, foi o seu sucessor espiritual no futebol africano, mas não teve o mesmo sucesso nas incursões que realizou pela Europa. A sua experiência serviu de alerta para muitos jogadores que ouviam regularmente falar de tratamento diferenciado, de racismo, de dificuldades de adaptação a um jogo mais táctico e muscular e a verdade é que os anos 70 e 80 ficaram marcados pela ascensão dos jogadores do norte do continente, que jamais deixaram os seus países de origem. No Egipto brilhava a estrela fulgurante do Al-Ahly, o dianteiro Mahmoud El-Khatib, o maior jogador da história do país.

A ocidente, de olhos no Mediterrâneo, nascia uma geração inesquecível de futebolistas argelinos, primeiro com Ali Bencheikh, jogador do MC Alger, e depois com a dupla Lakhdar Belloumi e Rabath Madjer. Juntos não só lideraram a melhor seleção da história da Argélia como ajudaram a popularizar na Europa uma vez mais os futebolistas africanos. Belloumi nunca saiu do seu país mas as suas exibições no Mundial de Espanha tornaram-no num jogador cobiçado pelos grandes do Velho Continente. Madjer, ao contrário do seu amigo de sempre, decidiu arriscar e depois de passar por França fez do seu calcanhar em Viena, o golo que colocou África no mapa.

A geração dourada africana

Foi com esse gesto que a comunicação social começou a procurar de forma evidente o novo Madjer, o novo génio africano. E pela profunda conexão entre França e as suas antigas colónias, foi aí que a imprensa se concentrou. Do marfilenho Youssouf Fofana, estrela do ASEC Mimosas que se consagrou internacionalmente com o AS Monaco, ao ganês Abedi Pelé, uma das estrelas individuais do Olympique Marseille presidido por Bernard Tapie, os nomes foram-se multiplicando nas fichas dos clubes europeus.

A obrigatoriedade de jogar apenas com dois futebolistas estrangeiros no onze obrigou os clubes a serem bastante mais selectivos na sua prospecção por África, garantindo que só realmente os melhores futebolistas africanos chegavam à Europa. Um deles, talvez o mais subvalorizado, foi o zâmbiano Kalushe Bwalya.

Se Godfrey Chitalu é um nome icónico no país, o rei dos goleadores, o grande futebolista da história do coração do continente é sem dúvida Bwalya. Em 1989 chegou ao campeão europeu, o PSV Eindhoven, depois de quatro anos como goleador de serviço do Cercle Brugge, onde partilhou durante anos o título de melhor marcador da liga belga com o popular Jean-Pierre Papin. Na Holanda confirmou a sua fama de avançado goleador. Ao lado de Vanenburg e Romário, fez parte de uma linha ofensiva temível que venceu por duas vezes a Eredivise. A sua fama internacional era tal que em 1996 tornou-se no primeiro jogador da história a entrar no top 15 do prémio FIFA Award sem jogar num clube europeu ou sul-americano.

Por essa altura o seu génio já tinha sido eclipsado pelo Ballon D´Or de George Weah, que em 1989 lhe tinha sucedido na versão do prémio em África, e pela ascensão de uma nova geração de futebolistas nigerianos que começava a invadir livremente as ligas europeias.

O ocaso mediático das estrelas africanas

Bwalya foi o último de uma longa saga.

Nem ele, nem Abedi Pelé, nem Yeboah, as grandes estrelas nessa viragem de década, chegaram a tempo de brilhar ao mesmo nível de Weah e dos seus sucessores. A pouco e pouco a fama do futebolista africano consagrou-se e a liberdade absoluta de compra e venda de jogadores levou a uma emigração massiva dos jogadores do continente negro para o futebol europeu. Poucos chegaram ao nível de estes génios esquecidos.

Nwaknu Kanu, Samuel Etoo, Didier Drogba e Toure Yayá estão entre as mais honráveis excepções. De tal forma que, depois de Weah, quando muitos imaginavam que o triunfo no Ballon D´Or seria o primeiro de muitos para os futebolistas africanos, nunca mais nenhum chegou sequer perto do pódio.

A maioria do grande público aprendeu a apreciar o génio destes jogadores irreverentes tarde demais para os Belloumi ou Keita, jogadores que sentiam que eram vitimas de um isolacionismo mediático a que o futebol africano foi votado depois do processo de descolonização. Ninguém esquecia a repercussão mediática das gestas de Just Fontaine ou Eusébio, por exemplo, jogadores nascidos em África mas com passaporte europeu.

Pelo caminho ficaram mais de duas décadas de futebolistas de um talento tremendo que ajudaram a escrever, com letras de ouro, a história do futebol e que continuam a ser um enigma para os espectadores que ainda olham para o baile de Roger Milla com a mesma surpresa daqueles que testemunharam nesse dia a revolta definitiva do futebol africano.

4.307 / Por
  • Rodrigo Teixeira

    É uma pena que nenhuma seleção africana conseguiu se impor no cenário mundial. Por um lado isso deu oportunidade a várias nações africanas diferentes participarem de Copas do Mundo nos últimos anos.
    Por outro lado, pessoalmente, queria muito ter visto a evolução de seleções como Camarões e Nigéria fazendo frente as equipes europeias e sul-americanas. Isso sem falar no Egito, que tem uma seleção forte, times estruturados mas some das Copas do Mundo.
    Costa do Marfim parecia ser a nova grande seleção africana mas ainda não conseguiu se firmar.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Rodrigo,

      Parece cada vez mais evidente que o “momento” de África, já passou. Não há, actualmente, uma selecção no espectro africano que possa medir-se de igual para igual com as potências europeias e sul-americanas e na maioria dos casos estão a ser ultrapassadas por equipas asiáticas como a Coreia e o Japão.

      um abraço