A história de superação de Eric Abidal tocou num dos temas tabus do mundo do desporto da alta competição. No entanto, o jogador francês não foi o primeiro futebolista a ganhar o seu duelo com o cancro sem abdicar da sua carreira. A lista de heróis, felizmente, é bastante mais larga.

O herói de cristal

Chamaram-lhe o génio de cristal, o futebolista mais frágil. Um génio com um corpo que lhe impedia de chegar a outro nível. Mas a natureza das suas lesões, irritantes, repetitivas, angustiantes, tinha uma origem muito mais complexa. E dramática. Uma vitória díficil, talvez a maior da sua carreira, contra o mais temido dos rivais: o cancro.

Em Agosto de 2003, quando começava a soar para os grandes clubes do futebol europeu, a jovem estrela em ascensão do futebol holandês foi diagnosticada com um tumor benigno. Um ano depois, já com a camisola do Chelsea ao peito, Arjen Robben confirmou ao mundo as suas piores suspeitas. Tinha cancro nos testículos. Com apenas vinte anos não era só a sua carreira desportiva que estava em causa. Robben teria de lutar pela sua própria vida. E fê-lo. Durante esse ano, em silêncio. Só sabia a verdade o departamento médico dos seus dois clubes, o PSV Eindhoven e o Chelsea, e os seus famíliares mais próximos. No dia em que fez publica a verdadeira extensão da sua doença, Robben também anunciou que estava totalmente curado. O mundo do futebol não podia acreditar. O extremo tinha realizado uma temporada memorável ao serviço do clube londrino e com a sua seleção no Europeu de 2004, em Portugal. Tudo isso enquanto encontrava o caminho para driblar o fantasma da morte.

Mas a luta teve os seus efeitos secundários. O corpo de Arjen sofreu um envelhecimento precoce e a sua resistência física diminui em relação ao padrão habitual do atleta de alta competição. Durante esse ano de luta, em muitos casos o relatório médico do Chelsea indicava a sua ausência por problemas musculares. Não era verdade. Eram os dias em que Robben se submetia aos agressivos tratamentos que aceleraram a sua calvice e o ajudaram a marcar o golo mais importante da sua carreira.

Os anos seguintes foram marcados tanto pelos seus momentos de génio como pelas suas inseparáveis lesão. Para o jogador era um mal menor. Podia ter sido algo bastante mais grave. O cancro testicular não é tão grave nem mortal como o cancro no fígado que padeceu Eric Abidal. Mas no desporto de elite poucos são os que puderam declarar publicamente, como Arjen, que tinham ganho esse encontro decisivo.

Espanha, a liga com maior número de casos

Robben mudou-se de Londres para Madrid. Em Espanha a sua doença passou desapercibida da imprensa quando se falava das suas lesões. Mas foi precisamente aí que se viveram os casos mais mediáticos no mundo do futebol na luta contra o cancro.

Em 1994 o internacional búlgaro Lubuslav Penev, então futebolista do Valência, foi forçado a abandonar temporalmente a alta competição para enfrentar-se a um perigoso cancro no testículo esquerdo. Penev venceu o duelo e reincorporou-se à elite, continuando a marcar golos que agora tinham, seguramente, um sabor especial. Anos depois o cancro testicular voltou a aparecer sob a forma de fantasma nos guarda-redes do Atlético de Madrid. Primeiro foi o internacional espanhol José Molina, então na sua etapa final de carreira com a camisola do Deportivo. O caso de Molina foi extremamente parecido ao de Robben e ao de outro guarda-redes da liga espanhola, o argentino Carlos Roa. Nos três casos, depois de um ano de tratamento, os jogadores declararam vitória e prosseguiram com as suas carreiras, apesar da doença ter apressado a decisão do internacional argentino em retirar-se do futebol profissional. German Burgos, atualmente adjunto de Diego Simeone no Atlético de Madrid, passou pelo mesmo drama de Eric Abidal. Um cancro num rim, muito mais devastador e difícil de curar, manteve-o fora dos relvados durante um largo período ao que então era o titular do Atlético de Madrid. “El Mono” encarou de frente o rival e travou a expansão do cancro como se fosse o penalty decisivo da sua vida e dois anos depois estava definitivamente curado e renascido para o futebol. Tal e qual como Abidal, o herói emocional de Can Barça.

As outras batalhas ganhas

Felizmente os exemplos de Abidal e Robben têm servido de alerta mediático para uma realidade crua e preocupante. Nos últimos quinze anos o aumento dos casos de cancro nos atletas profissionais tem aumentado a um ritmo frenético. É a doença mortal dos novos tempos e nem os desportistas de elite parecem estar a salvo.

Heiko Heirrelich, avançado do Borussia de Dortmund na década de noventa, confessou em 2001 ter superado com sucesso um cancro cerebral. Ebbe Sand, internacional dinamarquês, teve a carreira (e a vida) em risco quando em 1999 lhe diagnosticaram cancro nos testículos. Um ano depois estava de volta ao ativo. O brasileiro Narciso dos Santos venceu uma dura batalha contra a leucemia em 1999. Os espanhóis Sergio Aragoneses e Borja Basagoiti (cancro testicular) também se transformaram em casos de sucesso, uma inspiração para aqueles que se têm de enfrentar com um rival que parte para este duelo como favoritos. Entre os casos de jogadores que continuam a sua luta, fora dos relvados, está o de Stilyan Petrov, que depois de vários anos a tentar compaginar a luta contra uma agressiva leucemia que o tem debaixo de mira há vários anos decidiu pendurar as chuteiras para dedicar-se exclusivamente a ganhar o jogo mais importante da sua vida. Petrov é o caso extremo, o oposto das histórias com final feliz de Abidal ou Robben. Vitima das radiações do desastre nuclear de Chernobyl, ao internacional búlgaro resta-lhe acreditar que no final do combate o seu nome apareça como mais um exemplo dos futebolistas que sobreviveram à luta contra o cancro.

4.140 / Por