São os clubes por quem o tempo não passa. Os heróis eternos das suas competições. Porta estandartes de várias eras. Há ligas onde alguns dos seus protagonistas estiveram sempre presentes. Esta é a história dos 20 clubes que disputaram todas as edições dos campeonatos de primeira divisão das principais ligas do Mundo desde o primeiro pontapé de saída.

As potências históricas do futebol ibérico

De Portugal ao Uruguai. Da Alemanha à Escócia.

A história do futebol faz-se de glória e drama. Muitos dos maiores emblemas mundiais sofreram, algum dia, as penas de cair nas divisões secundárias. Uns levantaram-se mais fortes. Outros caíram para sempre no esquecimento. Mas há um grupo selecto de clubes que não sabe o que é sofrer as agruras do inferno futebolístico que significa uma despromoção. São vinte clubes de elite mundial em ligas históricas de topo que souberam superar todos os desafios que o tempo lhes colocou à frente e, ainda assim, se mantiveram invictos. Clubes que não conhecem rival nos seus domínios.

Em Portugal é bem sabido que só existem três emblemas que nunca desceram de divisão. Não é por acaso que são os únicos, e genuínos, “Grandes” dos campos lusitanos. Futebol Clube do Porto, Sport Lisboa e Benfica e Sporting Clube de Portugal estão presentes no campeonato nacional desde a sua edição inaugural. Entre eles partilham todos os títulos de campeão salvo em duas ocasiões em que Belenenses e Boavista procuraram pintar o país de outra cor. São a espinha dorsal emocional e social do futebol português. A perspectiva de descer de divisão sempre foi distante para cada um destes clubes. A pior classificação em Liga dos azuis-e-brancos foi um nono lugar em 1969/70. Dois lugares acima, o sétimo posto, foi o pior que o Sporting Clube de Portugal alcançou. Sucedeu em 2012/13. Já o Benfica sofreu a sua pior classificação de sempre em 2000/01, ocupando o sexto lugar final.

Portugal não é caso único.  Em Espanha também há três clubes que nunca foram despromovidos. Aos inevitáveis Real Madrid e Barcelona, super-potências continentais, também o Athletic Bilbao não conhece o sabor da segunda divisão. Os bascos, terceiro grande do país vizinho, não são só um dos clubes com mais títulos de liga e taça como também resistiram ao passar dos anos mantendo-se fiel á sua politica exclusivista onde só cabem jogadores de origem basca. Desde 1929 a filosofia tem servido para permanecer entre a elite do futebol espanhol.

Do Utrecht ao Inter, invictos europeus

O país com mais clubes que nunca foram despromovidos entre a elite do futebol é a Holanda. Na terra das tulipas e dos polders são quatro os emblemas que disputaram todas as edições da história da Eredivise desde 1956, quando se organizou o campeonato nacional, até agora.

Ajax de Amesterdam, Feyenoord de Roterdão e PSV Eindhoven – três campeões da Europa de futebol – são acompanhados nesta lista pelo histórico mas humilde FC Utrecht. Os azuis e vermelhos são os herdeiros do histórico DOS Utrecht, campeão nacional em 1958. O clube fundiu-se em 1970 com USV dando forma ao novo FC Utrecht mas manteve o seu historial pelo que a mais antiga longevidade da história da principal competição de clubes na Holanda é sua.

Na vizinha Alemanha só o histórico Hamburgo está na elite desde a primeira edição da Bundesliga. O clube do norte do país esteve mais perto do que nunca de perder a sua histórica série de permanência entre os clubes de primeira divisão ao disputar esta temporada um play-off contra o Greuther Furth mas o triunfo dos campeões europeus em 1983 permitiu ao emblema de Hamburgo de continuar no topo. Nenhum outro clube germânico tem um recorde remotamente parecido ao seu na história da Bundesliga, a última grande liga do futebol europeu a ser oficialmente formalizada em 1963. Os três grandes da Turquia – Galatasaray, Bessiktas e Fenerbache – também fizeram parte de todas as edições do campeonato profissional turco, que deu o pontapé de saída em 1959 depois de várias décadas de torneios semi-profissionais.

Na Europa há ainda a destacar o caso do Dinamo de Moscovo na Rússia, do Celtic de Glasgow na Escócia e do Internazionale em Itália. Os “católicos” partilhavam até há dois anos o registo de permanência desde o arranque da liga escocesa, em 1890, com o seu rival “protestante”. A despromoção do Glasgow Rangers deixou o Celtic só na lista dos clubes com mais anos no topo na história do futebol. São já 124 anos consecutivos na 1º divisão do seu respectivo país. O clube azul de Moscovo participou em todas as edições da liga soviética desde o arranque do torneio profissional em 1936 e também em todas as provas da recém-criada liga russa em 1991. É o decano do futebol do maior gigante do continente europeu.

Os 20 clubes mundiais que nunca desceram da 1ª Divisão


Em Itália o Inter é o orgulhoso detentor do recorde. AC Milan e Juventus, os seus principais rivais no palmarés e apoio popular no país da bota, foram despromovidos no passado por questões relacionadas com escândalos de apostas e corrupção arbitral. Os rossoneri foram igualmente despromovidos por más temporadas desportivas mas os seus vizinhos neruazurri de Milão permanecem fieis ao seu estatuto histórico de lideres de permanência no topo do Calcio.

Os resistentes das ligas sul-americanas

Do outro lado do Atlântico também há casos de clubes com uma longevidade única nas sucessivas edições dos campeonatos de 1º Divisão. No Uruguai, que durante várias décadas teve a liga mais forte do futebol sul-americano, há dois clubes que podiam estar nesta lista, os eternos rivais e vizinhos de Montevideu, Nacional e Peñarol. Desde 1902 que são equipas de primeira divisão mas ambos clubes, em 1903, decidiram não participar no torneio e portanto não podem ser contabilizados nesta lista. Na vizinha Argentina a recente despromoção do River Plate deixaram o seu crónico rival boenarense, o Boca Juniores, como único sobrevivente do chamado clube dos cinco – onde se incluíam igualmente Racing Avellaneda, Independiente e Estudiantes de la Plata – a nunca cair no poço da segunda divisão.

O caso dos heróis da Bombonera é especial. Por duas vezes já o campeonato argentino sofreu alterações de fundos para garantir que o clube – entre outros emblemas – fossem salvos da despromoção desportiva. No Chile também o Colo-Colo, o gigantesco clube que saltou para a glória durante os anos do regime de Augusto Pinochet, conta com temporadas de vida as disputadas na 1º Divisão do país, um recorde que subsiste desde a sua primeira edição em 1933.

No Brasil a polemica divide a lista entre dois grupos. Há cinco clubes que nunca foram despromovidos desde o arranque da competição. Mas só há um clube nessa lista que nunca falhou uma edição, o Cruzeiro de Belo Horizonte. O clube mineiro participou em todos os anos em que se disputou o Brasileirão. São Paulo e Santos recusaram participar na edição de 1979 da prova. Foram readmitidos no ano seguinte.

Quanto a Internacional de Porto-Alegre e Flamengo, oficialmente participaram em todas as edições menos em 1987. Foi o ano do caos organizativo do futebol brasileiro cuja federação acabou por entregar a organização do torneio ao recém-criado Clube dos 13. Flamengo e Internacional recusaram-se a participar no modelo instaurado para disputar a fase final e retiraram-se da prova que acabou por ser ganha pelo Sport Recife. Na lista oficial de títulos o torneio conta como válido para todos menos para os dois emblemas que ainda se consideram como participantes históricos de todas as edições oficiais do Brasileirão. A realidade é outra.

Há ainda emblemas noutras ligas menores dos continentes europeu e sul-americano bem como de campeonatos de outras confederações que nunca foram despromovidos desde que se estrearam na primeira edição da competição. Mas estes são os vinte grandes nomes da história do futebol. Os que estavam lá no dia do pontapé de saída das suas respectivas ligas e hoje, décadas e décadas depois, continuam a marcar presença no arranque de cada temporada.

30.165 / Por
  • Pedro Lucas

    Caro Miguel,

    Apenas refiro isto a título de curiosidade, e porque surge no texto: ao ser referido no texto os alargamentos que o campeonato argentino sofreu para que vários históricos não caíssem nas catacumbas da 2ª divisão, seria necessário, a bem da verdade e da continuidade da prosa, que se falasse nas duas temporadas em que o Porto beneficiou de tal estratégia, para continuar a ser um dos 20 totalistas.

    Abraço

    • Miguel Lourenço Pereira

      Caro Pedro,

      Efectivamente, houve duas temporadas em que o apuramento – que ainda se realizava via distritais – foi alterado de forma a permitir que o FC Porto pudesse entrar na competição depois de ter sido superado no campeonato que habitualmente dominava com tranquilidade. Nesses dois anos houve ampliação de vagas para a AF Porto e os azuis-e-brancos puderam tomar parte no torneio. A partir do momento em que os distritais deixaram de ser a base de apuramento para a competição, a situação não se voltou a repetir.
      Um abraço

  • Daniel

    No caso do Brasil a matéria está errada em diversos pontos. O campeonato é disputado desde 1971 e não 1970 (que foi uma ediçao do Torneio Robertão). No caso de 1987, em que INTER e FLAMENGO foram finalistas da Copa Uniao (e se negaram a enfrentar Guarani e Sport), o CRUZEIRO foi semifinalista da Copa Uniao, sendo eliminado pelo INTER. Se o CRUZEIRO tivesse avançado a final tambem se negaria a enfrentar Sport e Guarani. Então, é errado fazer diferença entre CRUZEIRO, FLAMENGO e INTERNACIONAL, se ambos estavam no mesmo barco (vide Clubes dos 13). Se a CBF não reconhece o FLAMENGO como Campeao de 1987, nao pode reconhecer nem FLA, nem INTER e nem CRUZEIRO como participantes desta edição. Basta pesquisar melhor o assunto que se verá que os 3 clubes ou NENHUM deles particparam de todas edições no Brasil. Obrigado

    • Miguel Lourenço Pereira

      Daniel,

      Tem toda a razão na questão do ano. Efectivamente o primeiro ano do “Brasileirão” é 1971 e não 1970, sendo que um campeonato “naciona”l existe desde 1959 mas noutro formato distinto.

      Em relação a 1987, falamos de supostos. Se por um lado é certo que o Cruzeiro pertencia ao mesmo Clube dos 13 de Flamengo e Internacional e que portanto seria altamente provável que tomasse a mesma atitude, a verdade é que nos registos oficiais o seu nome permanece como tendo feito parte da prova. E é a esses registos que acudimos. A CBF reconhece o Cruzeiro como participante oficial da competição e portanto para nós isso faz toda a diferença. Mas é um debate aberto excelente.

      Obrigado!

  • Carlos
    • Fábio Palestrino

      São Paulo foi rebaixado sim, no paulista de 1990.

      • Walker Santos

        A matéria é sobre campeonatos nacionais, não regionais.

  • olheiro

    Caro Miguel,

    Só hoje li este artigo. No entanto, há uma imprecisão no que diz respeito à Alemnaha. Na verdade, o Bayern também nunca desceu de divisão. Todavia, não participou em todas as edições da Bundesliga (o primeiro campeonato nacional alemão em sistema de “poule”) porque na primeira edição convidaram um clube de cada região (para que fosse um campeonato mesmo…nacional) e em vez do Bayern o contemplado foi o TSV 1860 München.

    No entanto, uma vez que o título menciona os clubes que “nunca desceram de divisão”, em bom rigor o Bayern também nunca desceu…

    Além disso, a frase “Nenhum outro clube germânico tem um recorde remotamente parecido ao seu [Hamburger SV] na história da Bundesliga, a última grande liga do futebol europeu a ser oficialmente formalizada em 1963.” também não é correcta, pois o Bayern, apesar de não ter participado na primeira edição da Bundesliga, subiu a esta no ano seguinte, pelo que apenas tem menos uma participação do que o Hamburger SV na Bundesliga – a primeira – que é um recorde…digamos…remotamente parecido com o deste clube.

    Saudações desportivas!

    • Miguel Lourenço Pereira

      Olheiro,

      Obrigado pelo feedback.
      No entanto o Bayern subiu realmente no terceiro ano da Bundesliga – não esteve presente nas duas primeiras edições, apenas a partir de 1965/66, terminando até no terceiro lugar no seu primeiro ano. Mas esse ponto é válido tendo em conta o texto do título ainda que a ideia por detrás do artigo tenha sido a de mencionar as equipas que arrancaram a competição e nunca foram despromovidos.

      Um abraço