22 de Junho, Cidade do México. Com uma temperatura abrasadora, Inglaterra e Argentina subiram ao relvado do estádio Azteca para disputar um dos encontros mais icónicos da história do futebol. O jogo ficou marcado por dois golos míticos mas talvez nenhum deles tivesse sido possível se, à última da hora, a Argentina não tivesse decidido trocar o seu equipamento oficial da Le Coq Sportif por uma camisola original.

A experiência inglesa no México 70

Quando os ingleses chegaram ao México, em 1970, uma das grandes preocupações do então seleccionador Alf Ramsey foi o material desportivo utilizado pelos jogadores em encontros que iam ser disputados à hora do almoço para facilitar o visionamento dos espectadores europeus.

Debaixo de um calor impossível, os jogadores seriam forçados a temperaturas extremas e Ramsey acreditava que tanto os calções escuros habituais dos ingleses como o equipamento alternativo tradicional, vermelho, poderiam supor um problema. Por isso, nas semanas antes, encomendou uma variação desses equipamentos oficiais tudo isto numa época onde a FIFA ainda não detinha um controlo absoluto sobre o uso das camisolas em jogos dos Campeonatos do Mundo. Aos calções negros sucederam uns brancos para apresentar um inovador equipamento totalmente em branco, como principal, e o segundo equipamento foi desenhado de forma a ser totalmente azul claro. A camisola vermelha mantinha-se, para casos extremos, mas apenas como terceira opção uma vez que a cor parecia atrair demasiado a luz solar e provocar um excesso de suor nos futebolistas.

Os ingleses utilizaram na fase de grupo os dois primeiros equipamentos mas quando chegou o duelo com a Alemanha foram forçados a mudar de novo para o vermelho e acabaram por perder o duelo. A terceira camisola vermelha era de algodão e não de Aertex, o material mais ligeiro e de fácil respiração usado nos outros equipamentos até então. A lição ficou para o futuro. E seriam os ingleses, ironicamente, a pagar o preço.

O algodão azul da Le Coq Sportif que Billardo temia

Dezoito anos depois o Mundial voltou ao México, depois do cancelamento da candidatura da Colombia. A Argentina de Carlos Billardo não chegava no lote das favoritas mas graças ao génio individual de Diego Armando Maradona, a partir do momento em que a Albiceleste chegou aos oitavos de final tudo parecia ir de vento em popa para os sul-americanos. Billardo, conhecedor profundo do calor do meio-dia mexicano, tinha ficado preocupado pelo facto do seu segundo equipamento – uma camisola azul escuro que acompanhava os calções negros da equipação principal – ser feito de algodão e portanto pesado, além de que a tonalidade parecia atrair mais a intensa luz solar e provocar a desidratação mais acelerada dos seus futebolistas. Na fase de grupos a equipa utilizou a camisola principal, fabricada pela empresa francesa Le Coq Sportif utilizando o mesmo material, Aertex, de fácil transpiração que os ingleses tinham usado uma década e meia antes. Mas a segunda camisola não dispunha desse material e a diferença era evidente. Quando o sorteio colocou os argentinos frente aos seus vizinhos uruguaios e ditou que seriam os primeiros a passar para o seu equipamento alternativo, soaram os alarmes no acampamento argentino. A equipa argentina passou a eliminatória mas com grande sofrimento e os jogadores queixaram-se abertamente do peso da camisola e de como o suor complicava os seus movimentos. As imagens falavam por si mesmas, as camisolas azuis escuras pareciam pesar uma tonelada. O problema podia ter ficado aí, como uma anedota, não fosse um novo sorteio voltar a ditar que cabia aos argentinos mudar, de novo, a sua camisola titular pela suplente para o seguinte duelo de quartos-de-final contra a Inglaterra. Os homens de Bobby Robson iriam utilizar a camisola principal – branca – e uns calções alternativos – azuis claros – forçando os argentinos a jogar com a camisola azul escura e os seus calções negros. Se o esforço contra os uruguaios tinha passado factura, Billardo sabia que os seus jogadores podiam não aguentar o ritmo uma segunda vez frente aos atléticos ingleses e dispô-se a encontrar uma alternativa. A sua decisão mudou o curso da história.

A loja de Cidade do México que salvou a Argentina

Nos dois dias antes do duelo no estádio Azteca os argentinos procuraram todas as opções possíveis. Era demasiado tarde para a Le Coq Sportif mandar novo material desde França e a FIFA não aceitou a petição argentina de alterar a ordem das camisolas por pressão da federação inglesa. Billardo decidiu então enviar Ruben Moschella, um dos elementos do seu staff técnico, de passeio pelas ruas da Cidade do México com o objectivo de procurar camisolas desportivas da mesma tonalidade de azul mas de um material muito mais ligeiro, de polyester, para evitar o calor gerado pelo algodão. Durante horas Moschella visitou as lojas de roupa desportiva da capital mexicana até que encontrou uma que tinha não um, mas dois modelos muito parecidos. Incapaz de decidir-se, comprou uma camisola de ambos e levou-a ao centro de concentração dos argentinos para que fosse Billardo a decidir. Acabou por ser Diego Maradona o homem a escolher a camisola que o ia tornar imortal. Enquanto o staff técnico observava as duas camisolas, de tonalidades e desenho ligeiramente distintas, Maradona passou pelo quarto e olhando para uma delas apontou com o dedo afirmando “Essa camisola é muito bonita, com essa amanhã ganhamos aos ingleses!”.

A palavra de El Pibe era lei na concentração da equipa das Pampas e imediatamente o staff técnico argentino voltou à loja e encomendou trinta e oito camisolas mais que foram entregues no hotel de concentração horas depois. Mas o trabalho árduo ainda não tinha começado. Os argentinos tiveram de encontrar um especialista em costura que fosse capaz de retirar o emblema da federação argentina das camisolas originais e voltar a cozê-lo nas novas. Quando viram que a operação simplesmente não era possível foi necessário redesenhar o emblema com base naquele utilizado em 1978 desde o principio e cozê-lo nas camisolas, tarefa entregue ás mulheres da limpeza do próprio hotel de concentração. A operação levou horas. Para completar, os números – à época as camisolas ainda não tinham nomes – foram serigrafados a partir de um modelo de camisolas de futebol americano também á venda na loja desportiva e colados e passados a ferro nessa mesma noite antes do grande jogo. Na manhã do dia 22 de Junho, depois de quarenta e oito horas frenéticas, os argentinos tinham o produto final nas mãos. A camisola esteticamente era muito parecida à utilizada contra o Uruguai mas também muito mais leve e prática para suportar os 39 graus de calor que iam padecer

A camisola da “Mão de Deus”

Nos momentos preliminares ao jogo os dirigentes da FIFA e a equipa arbitral liderada pelo tunisino Ali Bin Nasser, confirmaram que o equipamento dos argentinos cumpria com todos os regulamentos estipulados. A delegação tinha já esclarecido anteriormente a situação com a Le Coq Sportif – colando igualmente o logotipo da marca na nova camisola – e tudo estava preparado. O jogo chegou ao intervalo com um empate a zero mas ao contrário do duelo contra os uruguaios, os futebolistas voltaram ao balneário muito menos suados e com as camisolas muito menos pesadas. Ficou de imediato claro que a decisão tinha sido acertada e que, pelo menos, não seria por esse detalhe que a eliminatória seria perdida frente a uma aguerrida e defensiva Inglaterra que abdicou nessa tarde de jogar com dois extremos para marcar ao homem Diego Armando Maradona. De nada lhe valeu a Bobby Robson a jogada. Seis minutos depois do reatamento, no seguimento de uma jogada confusa, o número 10 argentino – um dez de estética de futebol americano e não com a habitual estampagem de futebol da marca francesa – ergueu o seu punho no ar e marcou um dos golos mais míticos e infames da história do futebol, a “Mão de Deus”. Para emendar-se apenas quatro minutos depois Maradona decidiu voltar a ser um ente divino de chuteiras e assinou a sua maior obra prima, levando o esférico do seu meio campo até dentro das redes de Peter Shilton depois de deixar atrás de si uma legião de jogadores ingleses.

A Argentina venceu por 2-1 e selou a passagem para as meias finais onde superou a excelente equipa belga antes de bater a Alemanha Ocidental na final por 3-2, no mesmo estádio Azteca. Os albicelestes nunca mais tiveram de voltar a utilizar o seu segundo equipamento improvisado mas a decisão de Billardo e a escolha inspiracional de Maradona ajudaram a mudar a história e um equipamento que não era mais do que uma camisola desportiva avulso na montra de uma loja desconhecida da Cidade do México acabou por transformar-se em protagonista numa das tardes mais memoráveis da história do futebol mundial.

612 / Por