O que faz de Zeman um treinador de culto?

O despedimento Zdenek Zeman da AS Roma gerou uma onda de histeria colectiva nas redes sociais. Com um palmarés escasso, o técnico checo conseguiu tornar-se nas últimas décadas num treinador de culto para muitos adeptos. Mas o que tem Zeman que o faz ser tão reverenciado no mundo do futebol?

Em nome do espetáculo

Em trinta anos de carreira, Zdenek Zeman treinou quinze equipas. Nunca ganhou um título, salvo duas vitórias na Serie B italiana e um título de campeão da Serie C.

Nunca esteve perto de ganhar uma grande competição nacional, um título europeu. Tem um número de vitórias e derrotas bastante similar no seu historial e o clube mais importante que treinou na carreira, por duas vezes, o AS Roma, acabou por demiti-lo por falta de resultados. E no entanto, muito para lá das fronteiras transalpinas, poucos treinadores reúnem a mesma admiração colectiva e respeito dentro do meio do que ele.

O sucesso do nome Zeman começa, precisamente, aí. Num mundo de resultados imediatos, de números e estatísticas, ele representa o lado mais romântico do futebol. É um treinador que enfoca o seu trabalho sobretudo na formação de jovens jogadores e na aplicação de conceitos tácticos da escola danubiana quase perdidos no tempo. Joga contra a corrente do seu próprio tempo e ao fazê-lo desperta não só a curiosidade mas também a admiração entre colegas de profissão e adeptos neutrais. A sua vocação ofensiva, em Itália, um país reconhecido pela sua escola táctica de contenção, tornou-o quase num mito vivo.

Os adeptos do clube que treina sabem que não ganharão muito, mas que cada jogo será um espetáculo em si mesmo. Um show que começa no próprio Zeman, uma dessas figuras cheias de vida que foram desaparecendo dos bancos, e acaba no relvado. Golos, marcados ou sofridos, são a imagem de marca dos seus trinta anos como treinador profissional. E para o futebol de hoje isso tornou-se quase uma utopia.

Zemanlandia

A história da sua vida é quase tão rocambolesca como a sua forma de treinar.

Sobrinho de um internacional checo que jogava no Palermo, Zeman costumava passar as férias com o tio na Sicília  Em Maio de 1968, quando tinha 21 anos, o golpe da Primavera de Praga apanhou-o em Itália. Consciente de que a repressão soviética na cidade o ia afetar a ele e à sua família, decidiu não regressar. Começou a trabalhar no clube onde o tio jogava, colocando em prática a formação de educação física que tinha recebido na Universidade de Praga, primeiro como preparador e mais tarde como treinador de equipas juvenis. De aí vem a sua devoção pelo trabalho de formação, uma forma de trabalhar que manteve ao longo de toda a sua carreira. Em 1986 decidiu dar o salto a treinador principal, aceitando uma oferta do modesto Foggia.

A experiência não correu bem e durante três anos Zeman vagueou por equipas dos escalões inferiores enquanto aprimorava os seus conhecimentos tácticos no centro de Coverciano, onde se formava a nata dos técnicos italianos. Em 1989 voltou ao Foggia, mas desta vez estava preparado.

Apanhou a equipa na Serie C, a terceira divisão do futebol italiano, e no primeiro ano garantiu a promoção à Serie B, prova que ganharia no ano seguinte. A imprensa começava a olhar com atenção para uma equipa com uma média de idades muito jovem, onde despontava um promissor avançado chamado Giuseppe Signori, orientada por um técnico excêntrico que privilegiava o ataque num 4-3-3 veloz, sem libero, apoiado numa defesa zonal e com um pressing constante que se transformou num enigma para os seus rivais. No primeiro ano na Serie A o modesto Foggia acabou em nono lugar, com mais golos marcados que todas as equipas salvo os três primeiros. Tinha nascido o fenómeno “Zemanlandia”. O Foggia fazia valer as suas origens, viajava sempre de autocarro (longas horas), treinava em parques públicos, ao lado dos adeptos e quase nunca procurava soluções no mercado, apesar da chegada do romeno Petruscu ter oferecido à sua linha defensiva um pendor mais ofensivo.

As farmácias do Calcio

No segundo ano do Foggia na Serie A a equipa sofreu a venda de alguns dos seus jogadores mais importantes mas Zeman sempre deixou claro que era o método, não os protagonistas, que importava realmente e confirmou-o ao levar o clube pela primeira vez na sua história a um lugar europeu no ano seguinte. Desta vez foi o próprio Zeman quem deixou a Apulia para viajar até Roma onde se tornou em técnico da Lazio. Em dois anos consecutivos conseguiu um lugar no pódio – o melhor resultado do clube desde os anos setenta – mas acabou por ser despedido para dar lugar ao sueco Eriksson. Tinha deixado atrás de si as bases da equipa que seria campeã anos depois, incluindo as estreias profissionais de jogadores como Alessandro Nesta.

Atravessou o Tibre e assinou pela Roma, para estupefacto geral, e aí dedicou-se a fazer o mesmo trabalho para o sucesso posterior de Capello ao lançar para a primeira equipa um jovem adolescente chamado Francesco Totti, acompanhando-o de outros jogadores como Tomassi ou Delvechio. Mas a história lembra-se talvez mais depressa das suas bombásticas declarações, depois de um amigável de pré-temporada, do que pela sua equipa extremamente ofensiva. O treinador checo foi o primeiro profissional a por publicamente o dedo na ferida do doping no futebol em Itália ao sugerir à imprensa que estava na hora “do futebol italiano abandonar a farmácia”, em referências directas ao que acontecia com muitos clubes de topo, particularmente a Juventus.

Bastou esse gesto de frontalidade para que o popular treinador se tornasse em personan non grata para o Calcio. Durante anos foi atacado publicamente pelos internacionais italianos – aqueles sob os quais pairavam as acusações – mas também por jornalistas e dirigentes. A Roma preferiu não renovar o seu contrato, por temer represálias dentro dos corredores da Federação e só anos mais tarde a justiça acabou por dar-lhe razão, ao confirmar que a Juventus tinha utilizado substâncias dopantes e proibidas durante a gestão de Marcelo Lippi. O seu nome estava de tal forma marcado que, pela primeira vez na sua carreira, o técnico abandonou Itália e procurou sorte na Turquia, mas depois de uma má experiência voltou ao futebol italiano para dirigir um Napoli então nas divisões secundárias em consequência da falência do clube. Zeman perdeu-se nas divisões secundárias até que apareceu o modesto Lecce, que o devolveu à ribalta, numa equipa potenciada pelo talento dos adolescentes Bojinov e Vucinic. O projeto declinou com a venda dos jogadores e depois de um novo hiato o técnico encontrou no Pescara a mesma base de trabalho que no Foggia o tinha levado ao estrelato.

O modesto clube dominou de forma asfixiante a Serie B, guiados pelo talento do jovem Marco Verrati e o apetite goleador da dura Insigne e Imobile, três adolescentes que nos anos seguintes se tornariam internacionais. A Roma voltou então a bater à porta, prometendo a Zeman tudo aquilo que se lhe tinha negado aquando das suas declarações polemicas em 1998, mas desta vez o casamento terminou mais cedo. O seu arrojado modelo táctico, tão inovador a principio dos anos 90, era incapaz de lidar com a realidade mais cínica do futebol italiano atual e depois de um arranque promissor, a equipa tropeçou na tabela e Zeman foi despedido, para desespero da sua imensa legião de fãs.

O profeta dos românticos

Zeman acabou por ser uma vitima da sua própria invenção mas os seus admiradores parecem ser capazes de lhe perdoar tudo. Em Itália tornou-se um símbolo da contra-cultura, um homem capaz de desafiar as mais férreas convenções do país, desde o futebol defensivo da escola do giocco a la italiana à sombra constante da corrupção e do doping que manchou por diversas vezes o futebol italiano. O resto do Mundo, que a principio o achava um personagem extravagante, aprendeu a ver em si tudo aquilo que opõe à imagem do técnico atual, fiel aos seus princípios  incapaz de comprometer a sua filosofia em troca de milhões ou de uma vitória num jogo sem emoção.

Numa era em que o futebol é, cada vez mais, um fenómeno que não deixa espaço para o erro e para a improvisação, o espírito da mais genuína devoção ao jogo de ataque de um homem que fez toda a sua carreira a partir desde baixo ajudou a transformar a imagem de Zdenek Zeman num dos treinadores de culto da sua geração. E passe o que passar nos próximos anos é difícil pensar que essa imagem vá alguma vez mudar.

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