O futebol nos Estados Unidos existe num mundo à parte do modelo europeu. Funciona com um modelo de negócio radicalmente diferente, assente na filosofia das franchise que domina todos os grandes desportos norte-americanos. Mas o que é preciso para criar uma franchise da MLS?

A cultura das Franchise

Na Europa o sucesso do futebol é o resultado de uma complexa equação. Entram em jogo conceitos tão tribais como a identificação local, regional, a ligação entre uma equipa – muitas vezes privada, noutros detida pelos próprios seguidores – e os seus adeptos. É um cordão umbilical onde o dinheiro ocupa, emocionalmente, um papel secundário. Sempre que se sugeriu que uma equipa de futebol fosse transladada de base, que as suas cores, emblemas e espaços sagrados fossem modificados, os adeptos responderam negativamente. Mas nos Estados Unidos o mundo do desporto funciona com outros conceitos. Nada é eterno e tudo tem de ser rentável.

Os clubes na Major League Soccer não nasceram da intervenção espontânea dos adeptos locais. Foram negócios cuidadosamente planeados. Em 1993, a um ano do Mundial, a FIFA e a federação norte-americana chegaram a um acordo protocolar que obrigava os americanos a reabriram uma liga profissional de futebol. Desde o fracasso da NASL, encerrada por falta de interesse popular e problemas financeiros, em 1985, o futebol nos Estados Unidos tinha permanecido um fenómeno amador e centrado nas universidades. Dez cidades foram escolhidas a dedo. Entre os condicionantes para a eleição destes novos emblemas estavam os apoios financeiros locais – os verdadeiros donos da franchise/clube – o impacto social do futebol nas respectivas áreas urbanas e a presença de um público fixo capaz de competir com os mais bem sucedidos desportos nacionais: o baseball, o futebol americano e o basket.

Foi assim que a MLS nasceu e desde então essa foi a base do seu desenvolvimento. De dez equipas em 1993 o campeonato chegou às 19 equipas que atualmente compõem a liga. Mas qual é o processo para colocar uma franchise em competição?

Dos 5 aos 100 milhões de dólares, o custo de estar na MLS

Dinheiro. A palavra chave em qualquer projeto desportivo norte-americano é o dinheiro.

Todas as franchises inscritas na MLS – e na recuperada NASL, hoje a segunda divisão do futebol americano – custam dinheiro aos seus donos. Têm de pagar pela sua inscrição na liga e pela sua manutenção. Os valores não são fixos. São definidos pela comissão da Major League e variam consoante a conjunção económica, a necessidade de expansão da liga e o mercado a explorar. Atualmente, face à existência de vários projetos, o preço médio ronda os 70 milhões de dólares.

Em 1996 várias equipas entraram em ação como franchises na competição. Na altura, segundo a revista Forbes, tiveram de pagar um preço unitário de 5 milhões de dólares para participar na competição. Um valor insignificante se tivermos em consideração que o New York City FC – uma fusão entre o Manchester City, e o dinheiro qatarí, e os New York Yankees – terá de pagar em 2015 cerca de 100 milhões de dólares para ser a 20º equipa oficial da competição.

Até a esse momento, 40 milhões de dólares tinha sido o preço mais elevado pago por um projeto, os Montreal Impact. Com um bom motivo. Pela primeira vez a competição seguiu o modelo de outros desportos americanos e aceitou um clube fora do país, neste caso do Canadá. A média de investimento inicial nas franchises por parte dos vários clubes da liga no entanto varia entre os 7,5 milhões de dólares (pagos pelo Chivas USA e Real Salt Lake) e os 20 e 35 milhões pagos pelo San Jose Earthquakes, Seattle Sounders ,Philadelphia Union, Portland Timbers e Vacancouver Whitecaps. Todos eles, clubes que entraram no circuito da MLS na expansão progressiva dos últimos cinco anos, considerada como o renascimento de uma competição que tinha praticamente definhado no final da sua primeira década.

As condições para ter uma franchise de sucesso

No entanto o dinheiro não é o único elemento necessário para estabelecer uma franchise na MLS.

Cada projeto desportivo tem de oferecer garantias à comissão de gestão da liga.

Uma delas é oferecer um estádio para mais de 20 mil espectadores. Só sete dos atuais recintos são utilizados exclusivamente para a prática do futebol, uma moda recente. Até então era habitual as franchises partilharem os estádios com equipas de futebol americano da mesma cidade, muitas vezes pertencentes ao mesmo dono. Uma das condições obrigatórias para criar uma franchise de soccer numa cidade que já conta com uma equipa de futebol americano é, precisamente, a autorização da família ou empresa que detém essa equipa. A lei dá-lhes cinco anos de preferência para estabelecer a sua própria versão futebolística da sua franchise, findo o período a zona torna-se aberta para novos investidores. Como David Beckham.

O antigo internacional inglês, e uma das figuras de proa em campo da MLS nos últimos anos, prepara-se para entrar em jogo com a sua própria franchise no sul da Flórida, um espaço até agora sem representação por falta de interesse da franchise local de futebol americano, os Miami Dolphins. O jogador tinha no seu contrato com a MSL a possibilidade de ter direito à sua própria franchise por 25 milhões de dólares mas entrará neste projeto com dinheiro de um milionário boliviano, Marcelo Claure, para estabelecer as bases do seu projeto.

A localização de cada franchise também não é obra do acaso. Os donos têm de apresentar estudos de impacto comercial, garantindo que o clube será instalado numa zona urbana que garante receitas previstas em material de merchandising, venda de entradas e contratos de patrocínio. A maioria dos projetos centra-se em zonas urbanas de grande dimensão e com grande presença de comunidades de origem europeia (a leste) ou latina (no sul e oeste), o braço da sociedade americana que mais se aproxima à paixão global do jogo. Se os resultados não estiveram à altura – e durante alguns anos essa foi a realidade de muitos dos projetos – a franchise tem a possibilidade de estudar uma mudança de localização (os San Jose Earthquackes transformaram-se recentemente nos Houston Dynamo). Equipas inteiras mudam de nome, de sede e de adeptos se for necessário. Tudo em nome do lucro.

Um campeonato em circuito fechado

Todos os anos o futebol da MLS segue o exemplo de outras ligas, com as equipas divididas em confederações e sub-regiões, na fase de grupos, para terminar o ano na corrida aos play-offs que definem o campeão nacional. A previsão da comissão de gestão da competição aponta para uma liga de 24 a 26 equipas até ao final da década num mercado emergente onde todos os projetos são lucrativos e muitos deles estão valorizados em mais de 100 milhões de dólares.

O negócio de montar uma franchise nos Estados Unidos deixou de ser uma excentricidade para transformar-se num modelo lucrativo que chama já a atenção de vários investidores estrangeiros, empresas do Médio Oriente, da Rússia e da velha Europa. Essa realidade agrega-se ao aumento crescente da presença da comunidade latina na sociedade norte-americano com o respectivo investimento de milionários mexicanos e sul-americanos que garantem uma fluidez de negócio que supera, em muitos casos, as melhores expectativas dos fundadores da competição. Com um tecto salarial que permite aos clubes pagarem muito menos pelos seus jogadores do que estes ganhariam no vizinho México ou na Europa (um sistema do qual estão isentos jogadores considerados como estrelas mundiais) e com um sistema de draft emulado dos desportos mais populares do país, a sustentabilidade financeira é possível. Mais de metade do lucro dos clubes ainda chega das receitas de bilheteiras (dois terços dos bilhetes são vendidos antes da época começar) à frente da televisão e dos patrocínios.

A Major League Soccer tornou-se num universo elitista onde o preço de entrada é cada vez mais caro, o circuito de investimento é fechado (não existe o modelo de despromoção mas sim a venda ou troca de franchises) e o lucro cada vez maior. Um negócio de futuro!

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