O primeiro jogo combinado da história do futebol

A FIFA e a UEFA estão de acordo. A compra e venda de jogos é um dos maiores perigos para o futuro do futebol, por cima do doping e da luta contra o racismo ou a a homofobia. Mas este fenómeno não é novo. Desde o século XIX que o match-fixing faz parte da história do futebol.

Uma longa história de jogos combinados

Quantas vezes não se ouviu nos estádios, nos bares, na imprensa, em conversas entre amigos que este ou aquele jogo estava combinado. Comprado. A suspeita sempre rodeou o futebol, um desporto que move paixões, emoções e muitos milhões. Uma realidade que não é radicalmente diferente hoje do que era no passado. Apesar das máfias – sobretudo do sudeste asiático – serem uma ameaça real ao fair play moral do jogo, as histórias de jogos combinados fazem parte do esqueleto do futebol desde tempos imemoriais. Algumas dessas histórias foram provadas no momento e os respectivos castigos aplicados. A maioria, no entanto, foi apenas confirmada com o passar dos anos, quando o medo e as penalizações deram lugar a uma abordagem mais ligeira e despreocupada pelos protagonistas.

Todos se lembram do Mundial de Espanha de 1982 e do pacto de não-agressão entre alemães e austríacos que provocou a eliminação da Argélia. Quatro anos antes, na Argentina, vários rumores circularam sobre a venda do decisivo encontro entre argentinos e peruanos por parte da equipa de Lima a troca de apoio militar e económico da Junta Militar de Videla. Na história das competições europeias deram-se vários exemplos de jogos sob o qual ainda hoje paira uma sombra de suspeita, a maioria dos quais protagonizados por clubes italianos. Durante décadas a Serie A viveu debaixo de fortes criticas quanto aos resultados conseguidos em campo. Os dois polémicos títulos conquistados pela Juventus em 1981 e 1982 – sobre a Fiorentina e Roma – e as despromoções de Milan e Lazio (bem como a suspensão de vários jogadores, entre os quais Paolo Rossi) desmontaram a teoria de que o Calcio era um futebol limpo. O triunfo, histórico, do Hellas Verona, em 1985, foi o parêntesis, num oceano de dúvidas que permaneceu entrado já o século XXI.

Em todos estes casos de corrupção, compra e venda de jogos o padrão de comportamento foi o mesmo. Jogadores, dirigentes, árbitros apareciam envolvidos e os jogos elegidos pareciam ter uma importância fundamental. No fundo o mesmo padrão seguido pelos sucessores daquele que foi, genuinamente, o primeiro jogo combinado da história.

O primeiro match-fixing da história

Nos primeiros anos da First Division inglesa, o primeiro campeonato de liga do Mundo, a despromoção era decidida de uma forma original. As duas últimas equipas classificadas na temporada regular disputavam um play-off com os dois clubes que tinham terminado a Second Division nos primeiros lugar. O resultado agregado dos jogos definia quem estaria na temporada seguinte entre a elite.

Em 1898 essa luta juntou as equipas do Stoke City, Blackburn Rovers, Burnley e Newcastle. Durante o mês de Abril realizaram-se os respectivos jogos de tal forma que, no último dia da competição, o Burnley e o Stoke sabiam que ambos se apurariam para a First Division se o resultado final fosse um empate. Só em caso da derrota de uma das equipas o Newcastle teria carimbado o seu bilhete. O guarda-redes do Burnley, Jack Hillman (na foto), abordou os jogadores da equipa rival antes do jogo e nos balneários estabeleceu-se um pacto de não-agressão. Perante 4000 adeptos, nenhuma das equipas rematou sequer à baliza do contrário. Durante noventa minutos limitaram-se a trocar a bola no meio-campo, a realizar lançamentos largos que terminavam, invariavelmente, em nada. O público da equipa da casa – o Stoke – sentiu-se tão insultado pela atitude dos seus próprios jogadores que em várias ocasiões invadiu o campo. Não serviu de nada.

No dia seguinte a imprensa inglesa falava da vergonha do jogo sem remates e o Newcastle United apresentou oficialmente uma queixa à Football Association. A situação foi, de tal forma tão polemica, que a F.A. não teve outra opção. Anulou os jogos da “liguilha” e ampliou a First Division de 16 a 18 equipas garantindo que os quatro emblemas se qualificavam. Era a forma politicamente correcta de aplicar uma severa penalização tanto ao Stoke como ao Burnley.

Ironicamente, na temporada seguinte, enquanto o Newcastle acabou o ano confortavelmente a meio da tabela, o Burnley de Hillman foi despromovido. Os jogadores do seu rival no último dia da competição, o Nottingham Forrest, foram de novo abordados por Hillman que prometeu 2 libras por jogador para perderem o encontro, visto que a equipa de Nottingham estava cómoda no oitavo lugar. Os jogadores recusaram-se, o Forrest venceu por 3-0 e Hillman foi, finalmente, suspenso pela Football Association por doze meses tornando-se no primeiro futebolista punido oficialmente por tentar combinar um jogo de futebol.

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