Ainda hoje o Uruguai exibe orgulhosamente quatro estrelas de campeão do mundo. Sim, quatro. Os charruas não se limitam a celebrar com propriedade os títulos conquistados em 1930 e 1950. Para eles essas vitórias não valem mais do que as logradas em 1924 e 1928 quando os Jogos Olímpicos atribuíam de forma oficiosa o título de campeão mundial. Um título que os uruguaios não esquecem.

A cisão entre Jogos Olimpicos e a FIFA

Em 1928 Jules Rimet decidiu definitivamente quebrar os laços com o Comité Olímpico Internacional. Era uma luta que vinha já desde o pós-guerra. Rimet, homem moderno, acreditava na necessidade de abraçar o profissionalismo de forma definitiva e sem enganos. O COI, por outro lado, seguia defensor absoluto do modelo de puro amadorismo. As excelentes relações até então do maior orgão desportivo mundial e da federação mundial de futebol azedaram. Rimet lançou então a ideia de criar um torneio independente dos Jogos Olímpicos, até então o medidor do valor mundial das seleções de futebol, particularmente desde o pós-I Guerra Mundial, quando começaram a participar as primeiras nações do resto do planeta, fora do circuito europeu de amadores. Foi a génese dos Mundiais de Futebol. Em Barcelona, num congresso especial, ficaram assentes as bases do torneio que imitaria o ciclo quadrienal dos Jogos Olímpicos mas em anos intercalados, ficando 1930 como ponto de partida na cronologia oficial. O Uruguai ofereceu-se como organizador com outras seis nações europeias. A oferta uruguaia superou todas as outras. Pagariam todos os gastos de deslocação e alojamento em troca da organização, data em que celebrariam os seus cem anos de história. A escolha era óbvia mas por outros motivos. O Mundial seria no Uruguai porque os uruguaios eram, efetivamente, os campeões mundiais em título.

Campeões olímpicos mas não do Mundo

O futebol apareceu em 1900 no calendário olímpico, em Paris, depois de estar ausente da edição inaugural porque não fazia parte do calendário original heleno. Até 1914 foi disputado sempre por equipas compostas exclusivamente por atletas amadores, e sempre europeias e muitas vezes equipas de clubes que surgiam em representação nacional. Os ingleses, fieis á sua hegemonia á época, eram os vencedores crónicos tendo triunfado com o Upton Park – não confundir com o West Ham – em 1900, e já com a seleção amadora em 1908 e 1912. Em 1904 num jogo entre um combinado canadiano e outro estadunidense, venceram os primeiros. Em 1920, nos primeiros jogos após o interregno da I Guerra Mundial, a participação foi ampliada mas salvo o caso especial dos egipcios, patrocinados pelos diplomatas ingleses a participar, todos os restantes intervenientes eram europeus e o triunfo dos belgas sobre espanhóis e holandeses, mas as grandes potências da época, austriacos e hungaros, boicotaram o torneio criticando o modelo amador numa altura em que começavam a abraçar o profissionalismo. Os triunfos posteriores a 1904 foram reconhecidos pela FIFA – fundada nesse ano – como títulos oficiosos mas a verdade é que eram torneios apenas entre países europeus e que dificilmente podiam dar origem ao título de “campeão mundial”. Até que em 1924 tudo mudou.

O ouro olímpico e o primeiro título Mundial

Nos jogos de Paris de 1924 pela primeira vez o torneio olímpico tomou forma de Campeonato Mundial. As grandes potências da época – salvo os britânicos, como seria habitual, porque a FIFA teimava em não reconhecer estes atletas como profissionais – decidiram participar mas enviaram como representantes os seus melhores atletas, todos apresentados como amadores mas na realidade já “falsos profissionais”, ou seja, atletas pagos por fora para competir na elite mas que se apresentavam a título oficial como simples amadores. O torneio finalmente deixou de ser um exclusivo europeu e abriu-se ao resto do planeta tornando-se realmente num Mundial.

Participaram 22 seleções, um recorde até ao Espanha 82, incluindo 18 europeias e ainda os Estados Unidos – com o soccer a viver a sua primeira etapa dourada – o Uruguai, a Turquia e o Egipto. Os jogos foram disputados no Stade des Colombes perante multidões entusiasmadas e rendidas sobretudo á qualidade de jogo das equipas que alinhavam algumas das suas principais figuras. Mas nenhuma deslumbrava tanto como o Uruguai. Os sul-americanos que tinham pago a viagem, feita em terceira classe, com uma dezena de jogos amigáveis em Espanha e França antes do arranque do torneio, eram claramente a melhor seleção mundial á época, praticando um futebol ofensivo, criativo mas perfeitamente organizado que potenciava o génio dos seus principais artistas, com Jose Andrade, La Merveille Noire, como cabeça de cartaz.

Os uruguaios não tiveram rival á altura. Humilharam os jugoslavos por 7-0 e os norte-americanos por 3-0 nas primeiras rondas antes de bater os organizadores por um contundente 1-5, saindo debaixo de um imenso coro de aplausos do estádio parisino. Nas meias-finais, uma vitória mais contida, por 2-1, com reviravolta no marcador, frente á tenaz Holanda abriu as portas da final, conquistada por um contundente 3-0 aos suíços, com golos de Petrone, Cea e Romano. Os uruguaios eram medalha de ouro e, por conseguinte, campeões do Mundo de futebol, e como tal celebraram no seu regresso a Montevideo. O êxito e o título logrado despertaram o apetite dos seus grandes rivais porteños. Quatro anos depois o Mundial Olímpico, se é que se pode baptizar assim os Jogos de 1928, seria o prelúdio do primeiro Campeonato do Mundo.

A consagração do futebol platense

Em 1930 o Uruguai celebrou o primeiro título oficial de Campeão do Mundo FIFA batendo a Argentina na final da edição inaugural. Uma final que era, na prática, a reedição de uma grande rivalidade que tinha marcado o futebol sul-americano na década anterior mas também a repetição da última final olímpica que contou para eleger o “campeão do mundo”.

Depois do êxito uruguaio em Paris, os argentinos decidiram enviar também a sua melhor equipa ao torneio de 1928 em Amsterdão para disputar o título mundial aos seus vizinhos. É preciso recordar que, á falta de um título oficial da própria FIFA, todos os intervenientes no mundo do futebol consideravam que os Jogos contavam efetivamente como Campeonato do Mundo a partir do momento em que a competição se abriu fora das fronteiras europeias. Participaram 17 equipas – ainda assim números superiores a qualquer torneio da FIFA até aos anos 80 – incluindo chilenos, mexicanos, norte-americanos – e apesar dos europeus, salvo os britânicos, terem enviado as suas melhores formações, o passeio dos sul-americanos até á final foi tranquilo. Nesta ocasião os argentinos foram os mais goleadores da competição mas os uruguaios os mais competitivos e depois de bater a poderosa Itália nas meias-finais, abriu-se o caminho para uma final exclusivamente sul-americana no Olímpico de Amsterdão. Foi um jogo tenso e intenso e terminou com um empate a um golo o que forçou a realização de um replay, três dias depois, no mesmo cenário. Nessa ocasião os uruguaios foram superiores. Figueroa abriu o marcador para Luisito Monti, mais tarde um dos célebres “oriundi”, empatou ainda antes da meia-hora de jogo. Um golo de Scarone, a vinte minutos do final, matou definitivamente as expectativas argentinas e permitiu ao Uruguai celebrar o segundo ouro olímpico. O segundo título mundial. Para eles não seria o último.

As quatro estrelas no escudo do Uruguai

Nos meses anteriores ao torneio olímpico a cisão com as federações britânicas e o choque com o COI sobre o conceito de amadorismo provocaram a esperada cisão. A FIFA decidiu afastar-se de forma definitiva do Comité Olímpico e a competição saiu do calendário em 1932, voltando brevemente em 1936 e desde então sendo disputada oficialmente por jogadores amadores – ainda que a partir dos anos 50 se tenham alterado as regras olímpicas. No entanto, o nascimento do Campeonato do Mundo retirava qualquer prestigio á medalha de ouro olímpica. Nunca mais os Jogos outorgariam o título de campeão mundial e vencer o ouro olímpico em futebol transformou-se num título vão, quase sem importância e sem o reconhecimento da FIFA como equivalente ao seu torneio. No entanto o mesmo não passou com as competições anteriores ao primeiro Mundial. Por isso, quando os uruguaios venceram o primeiro Campeonato do Mundo, celebraram o mesmo não como o primeiro mas sim como o terceiro consecutivo – algo que nunca mais nenhum país logrou – e depois de triunfar em 1950 no Brasil, consideram-se nos primeiros Tetracampeões do Mundo. Ainda hoje assim o fazem constar no seu currículo e na utilização de quatro estrelas de campeão do Mundo. A FIFA nunca reconhecerá qualquer título num torneio que era organizado – mas não coordenado – por si por diferenças óbvias com o COI mas todos aqueles que viveram os dois Jogos Olímpicos dos anos 20 e a consagração do futebol sul-americano sabem que esses foram, na prática, que não na designação oficial, os primeiros Mundiais de Futebol. E ambos foram ganhos pelo “Olímpico” Uruguai, uma das mais inesquecíveis seleções da história do futebol. A das quatro estrelas no peito!

 

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