Em 1922 o Raith Rovers viveu a melhor época da sua história. A fama do clube era tal que foram convidados a uma tour pelas ilhas Canárias. O navio onde viajava a equipa naufragou. Podia ter sido a primeira grande tragédia da história do futebol. Mas a sorte esteve do lado dos escoceses. Nenhum jogador perdeu a vida.

A alternativa ao Old Firm

Não existe uma localidade chamada Raith. Ainda que um jornalista da BBC londrina, em 1964, tenha terminado a transmissão de um jogo da Taça escocesa que terminara com a vitória do Rovers com a célebre frase “As ruas de Raith devem estar a celebrar agora mesmo”, o clube pertence à pequena localidade de Kirkcaldy. Durante os primeiros anos do século XX, o Raith Rovers foi consolidando o seu papel como um dos membros mais ilustres da segunda linha do futebol escocês atrás dos míticos clubes de Glasgow, o Rangers e o Celtic. Em 1914 perderam a final da Taça da Escócia contra o Falkirk. A II Guerra Mundial impediu aquela equipa de ir mais longe mas quando o conflito armado acabou, o Raith Rovers partia com a legitima ambição de lutar pelo título de liga.

Para isso, a equipa começou a treinar regularmente com bolas, algo que até então ninguém fazia no futebol escocês. Um paradoxo importado de Inglaterra para uma nação que tinha ensinado ao resto do Mundo a importância de ter a bola sempre colada ao pé, no relvado, ao contrário da cultura dos seus vizinhos a sul do kick-and-rush. Foi o inicio de uma era de curta prosperidade que esteve a ponto de acabar em tragédia. Em 1921 a equipa arrancou o ano com uma digressão pela Dinamarca, onde o futebol escocês conhecia grande popularidade. O Raith realizou jogos com vários clubes de Copenhague e da Jutlândia, recuperando de uma derrota inicial para depois dar uma versão muito melhor do seu estilo de jogo. O sucesso da tour reforçou o seu estatuto de potência do futebol escocês. Foi o pontapé de saída para um ano memorável. O clube falhou o assalto ao título nas últimas jornadas mas acabou em terceiro lugar depois de que o sprint final de Celtic e Rangers lhes tivesse arrebatado a liderança que chegaram a ostentar. Era a melhor classificação de sempre da história do clube. Ainda o é. Mas com esse novo estatuto, os dirigentes do Rovers decidiram repetir a tournée no Verão. Para um destino mais distante. As ilhas Canárias.

O naufrágio na Costa da Morte

A 28 de Junho a equipa, composta por catorze jogadores e dez dirigentes, incluindo o staff técnico, embarcou no Highland Loch para uma viagem de uma semana e meia rumo às ilhas espanholas. Entre os jovens jogadores dos Rovers estava Alex James, uma das futuras grandes estrelas do futebol britânico do período entre-guerras. Um dos homens de confiança de Herbert Chapman no Arsenal. A viagem decorreu sem sobressaltos, com paragens pontuais na costa francesa e espanhola, até ao dia 30 de Junho. O dia da tragédia.

A equipa dormia nos seus camarotes depois de uma noite bem passada. Estava previsto que o barco chegasse ás costas de Portugal durante o dia seguinte. Uma tempestade inesperada ao contornar a “Costa da Morte” antecipou o fim da viagem do navio. O Highland Loch foi atirado pelas enormes ondas contra as rochas do pequeno porto galego de Currubedo e a água começou a entrar na sala de máquinas. A tripulação e os passageiros a bordo foram levados até à proa do navio. Muitos ainda levavam vestidos os pijamas. Á medida que o navio se afundava, os tripulantes desciam através de cordas para os botes de salvamento que tinham sobrevivido ao impacto. Durante uma hora o pânico apoderou-se dos jogadores do Raith Rovers mas todos foram resgatados a tempo.

Os tripulantes foram levados com vida para a praia e alimentados pelos locais. O barco ficou preso entre as rochas mas uma semana depois acabou por voltar ao mar, dirigindo-se para a vizinha Vigo onde foi consertado. A equipa seguiu por terra até à cidade galega onde, dias mais tarde, apanhou boleia de um cruzeiro de passageiros com destino para as Canárias onde chegaram com uma semana de atraso face á data prevista. Disputados os cinco jogos agendados – todos com vitórias para os escoceses – os membros do Raith Rovers voltaram a casa depois de uma breve escala em Portugal. No ano seguinte, no entanto, decidiram ficar na Escócia apesar dos vários convites para repetir a digressão. Não valia a pena tentar o destino outra vez.

O renascimento europeu do Raith Rovers

O Raith Rovers viveu nos anos vinte o seu apogeu desportivo.

Depois da II Guerra Mundial o clube caiu nas divisões secundárias do futebol escocês de onde não voltou a sair durante largos anos. Em 1993 viveram um segundo apogeu com a conquista da Taça da Liga escocesa que carimbou também a estreia europeia do clube. Na terceira ronda, um duelo contra o Bayern Munchen na extinta Taça UEFA, reavivou a velha história popularizada nos anos sessenta sobre onde realmente estava o clube. Os bávaros, habituados a viajar por todos os cantos do continente europeu, tiveram de pedir ajuda à embaixada alemã em Londres para identificar o campo do rival. Acabaram por ganhar a eliminatória, com dificuldade, e por vencer a competição.

Para o Raith foi um ponto de viragem. Os jogos europeus tinham dado prestigio e dinheiro a um velho histórico preso na segunda divisão do futebol escocês e permitiram ao clube reconstruir o seu modesto estádio. O jogo da reabertura foi, ironicamente, contra o Bayern Munchen graças à intermediação de Uli Hoeness que tinha ficado impressionado com o fair play dos escoceses.

O naufrágio do Raith entrou diretamente para o folclore do futebol britânico. Esteve a ponto de ser a primeira tragédia da história do futebol. Antes de Superga, antes de Munique. Numa altura em que os naufrágios dos navios eram comuns e fatais – o Titanic tinha chocado contra um iceberg apenas três anos antes – a sorte que acompanhou o Raith Rovers na sua excursão espanhola. A mesma que os abandonou nos campos de futebol nos anos seguintes e que preservou o seu nome na história do beautiful game.

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