Em 1970 o Brasil maravilhou o mundo de futebol e conquistou o seu terceiro título mundial. Uma equipa repleta de lendas que passou para a posteridade como os últimos grandes românticos mas que realmente chegou ao título também com a preciosa ajuda da NASA. Uma combinação entre futebol-arte e a mais avançada tecnologia e preparação física ajudou a construir o mito que é o Brasil do México 70.

A debacle de 1966 e a reinvenção da CBD

A derrota em 1966 foi muito dificil de engolir no Brasil. A equipa não era muito diferente daquela que tinha brilhado quatro anos antes no Chile para dar continuidade á lenda iniciada na Suécia, em 1958. Estavam Garrincha e Pelé, entre outros, mas a dureza do jogo físico europeu e a má forma dos astros brasileiros antecipou um final diferente. Num grupo extremamente competitivo a velocidade, dinamismo e disciplina táctica de húngaros e portugueses foi suficiente para desmontar o “escrete” na sua pior versão. Nem Garrincha nem Pelé estiveram á altura e oito anos depois o mundo preparou-se para conhecer outro campeão. A CBD – Confederação Brasileira dos Desportos, mais tarde CBF – foi a que mais sofreu com a derrota. A organização, bem como o seu máximo líder, João Havelange, tinham recebido autênticas fortunas nos seis anos anteriores graças ás digressões e jogos amigáveis a que eram convidados nos quatro cantos do mundo por serem os inquestionados reis do futebol.

Tal como o Santos, também o “escrete” capitalizou o efeito Pelé ao máximo e por isso mesmo a derrota no duelo com Portugal, que supôs a eliminação do torneio inglês, foi recebida como um duro e inexplicável golpe emocional. Os próprios adeptos brasileiros, que tinham uma relação de amor e ódio com os Mundiais, de repente começaram a questionar os êxitos logrados e a pedir caras novas, dando por finalizado o período de ouro da geração de Pelé e companhia. Pela primeira vez “O Rei” sufria a ira dos seus “súbditos” e foi nessa dinâmica critica que chegou ao comando da seleção João Saldanha, um homem que partilhava dessa ideia e que tinha ficado impressionado com o avanço táctico dos europeus face ao futebol canarinho. No entanto, o novo governo militar brasileiro, tinha outros planos. E vencer no México, em 1970, era primordial para o regime.

Da NASA para a Cidade do México

O staff da Confederação Brasileira dos Desportos tinha aprendido a lição. Em 1958 o Brasil surpreendeu o Mundo porque contava com uma equipa repleta de estrelas, apoiada por um excelente trabalho de preparação física e psicológica. No México os sul-americanos queriam repetir a mesma fórmula.

Dois anos antes do Mundial o México recebeu os Jogos Olímpicos. A comitiva brasileira olímpica sofreu na pele a altitude e o calor da Cidade do México. No seu regresso ao Brasil, partilhou as informações que tinha coleccionado com a CBD. O então ainda selecionador, João Saldanha, iniciou então um processo de preparação que visava dotar os jogadores brasileiros da condição física perfeita para aguentar os condicionantes que ia encontrar em campo. À sua equipa técnica habitual foram pela primeira vez adicionados, de forma oficial, preparadores físicos, médicos, nutricionistas e enfermeiros, responsáveis por garantir que o estado físico do jogador estava sempre ao seu melhor nível. Depois da substituição do polémico selecionador João Saldanha por Mário Zagallo, os dirigentes canarinhos entraram em contacto com vários membros da NASA para terem acesso ao plano de treinos físico dos astronautas que viajam nas missões espaciais. Uma ajuda que se revelaria fundamental.

No Brasil o programa espacial da NASA foi seguido muito de perto especialmente pelo regime militar que tinha chegado ao poder precisamente com o apoio tácito dos norte-americanos que procuraram criar uma zona livre de estados de inclinação comunista no seu próprio continente. As relações entre ambos países eram amigáveis e foi nesse contexto que viajaram até ao centro de treinos da NASA vários oficiais do exército brasileiro para informar-se da melhor forma de ter os jogadores canarinhos preparados para a exigência física que suponha competir na altitude mexicana. Durante semanas foram testemunhas dos métodos norte-americanos que mediam a capacidade de resistência dos astronautas em câmaras de ar fechadas bem como os preparavam a nível físico com provas de resistência extrema para as condições que podiam encontrar nas missões espaciais.

Quando trouxeram para o Brasil os dados recompilados, numa equipa de trabalho liderada por Claudio Coutinho, futuro selecionador, e por um jovem Carlos Alberto Parreira, então preparador físico, a confederação fez a sua própria sequência de treinos de forma a ter os seus futebolistas nas melhores condições físicas para disputar o Mundial. Saldanha tinha aprendido diretamente com o Capitão Lamartine, um militar de formação científica que tinha publicado um trabalho de investigação sobre preparação física em altitude, a importância da condição física no desporto de elite em condições adversas. Lamartine persuadiu Saldanha a realizar um longo estágio de adaptação às condições que ia encontrar no México. Três semanas de intenso trabalho físico a mais de três mil metros de altitude que permitiriam aos jogadores aumentarem a concentração de glóbulos vermelhos nos seus organismos. Uma decisão que se revelaria fundamental para aguentar o ritmo físico exigido durante a competição. Mesmo no momento em que Saldanha foi substituído por Zagallo, ninguém questionou o plano de Lamartine. Quando a comitiva brasileira aterrou na Cidade do México, o seleccionado Mário Zagallo foi abordado pelos jornalistas surpreendidos pela chegada tão madrugadora do Brasil ao país. “Vamos ser os primeiros a chegar e os últimos em partir”, respondeu. Faltavam vinte e cinco dias para o arranque do torneio.

Guanajuato, a base do sucesso da geração de 70

O Brasil aterrou no México a 4 de Maio, mais de três semanas antes do arranque da competição. Essas semanas foram passadas num retiro no centro do país, em Guanajuato, em quase estado de aquartelamento militar. A velha cultura de celebração nocturna tão associada ao futebol brasileiro foi substituída por várias sessões de treinos diários, horários estritos de repouso e uma alimentação feita à base de produtos trazidos diretamente desde o Brasil. Duas semanas antes de viajar para o México a federação mudou os horários de sono dos jogadores, uma medida hoje habitual mas quase extra-terrestre à época. Os futebolistas eram pesados diariamente e sempre que alguém saía dos padrões exigidos era colocado a treinar à parte durante dois dias até recuperar o nível do colectivo. As camisolas amarelas que a televisão a cores popularizou para todo o sempre foram as primeiras a serem desenhadas de forma a que o calor das horas de jogo não as colasse ao corpo dos jogadores, tornando-as mais pesadas. A própria gola, originalmente verde em formato triangular foi substituída por um colarinho redondo mais pragmático para escorrer o suor.

Para conquistar a simpatia dos locais, os treinos eram regularmente abertos ao público e vários itens de merchandising dos brasileiros oferecidos como lembrança. A jogada de relações públicas, um velho truque brasileiro posto em prática pela primeira vez em 1958, funcionou. Em todos os jogos disputados o apoio dos mexicanos foi massivo para a equipa brasileira. De nada valeu aos italianos, antes do apito inicial da final, distribuírem rosas aos adeptos do Azteca. Tinham chegado tarde ao coração dos mexicanos.

Pelé e a arma emocional da Ditadura Militar

No Brasil da Ditadura Militar era importante reforçar o papel da colectividade. Mas ao contrário das principais ditaduras, a junta militar liderada por Emílio Medici queria vender ao mundo a imagem de um país em harmonia, fiel às suas tradições e origens. E isso incluía, forçosamente, o espírito individualista do “malandro”. Desde a década de vinte que o futebol brasileiro tinha progressivamente sido associado à imagem do mulato pobre, do “malandro” das favelas, tão capaz de driblar os adultos com astúcia como de realizar uma sequência perfeita de passos de capoeira ou, em caso de necessidade extrema, roubar uma que outra carteira do bolso dos mais incautos. Todas as grandes estrelas nascidas das ruas brasileiras eram rapidamente associadas a essa imagem, tão parecida à do “pibe” do mar de la Plata e, diametralmente, tão distante da organização e colectivismo dos velhos europeus. Negar a origem do futebol brasileiro não era uma opção para Medici.

Apesar das manifestações estudantis, apesar da crise económica, o país queria ser no México um eco de luz, cor e sons. Um reflexo futebolístico do movimento Tropicalista que entre a Bahia e o Rio de Janeiro começava a transformar-se num sério caso de popularidade internacional. Ao som de Caetano Veloso, Chico Buarque ou Elis Regina, os brasileiros queriam uma seleção que lhes fizesse recordar os meninos do Rio a jogar despreocupadamente nas areias de Ipanema. A função de Zagallo era transformar essa ilusão de magia individual numa máquina perfeitamente oleada. Não a podia ter cumprido de melhor forma. O homem que, enquanto jogador, foi o principal responsável pelo nascimento do 4-3-3, encontrou a forma perfeita de acomodar o talento individual dos seus melhores jogadores com o espírito de grupo que queria implementar. O México 1970 viu, provavelmente, o nascimento da primeira versão de teste de um dos modelos tácticos mais modernos que possamos imaginar, o 4-2-3-1. Numa época em que ainda havia equipas que jogavam no antiquado 4-2-4 apresentado ao mundo pelo Brasil no Mundial da Suécia, o esquema de Zagallo não podia ser mais vanguardista. Um elemento só tornava-o possível: Pelé.

Apesar de estar numa fase mais apagada da sua carreira o mediatismo de Pelé no Brasil não tinha comparação e o General Medici sabia-o melhor do que ninguém. No ano prévio ao torneio mandou espalhar pelo país cartazes em que o seu rosto surgia ao lado do goleador, uma forma de plebiscito emocional. Pelé viajou para o México desejoso de demonstrar que ainda se sentia um fora-de-serie. No seu velho amigo, companheiro dos títulos de 1958 e 1962, encontrou o arquitecto perfeito para o seu estilo de jogo. Zagallo colocou Pelé no coração do eixo ofensivo do Brasil, solto de marcação, desatado de espartilhos tácticos e rodeou-o de jogadores quase tão talentosos e com missões concretas. Jairzinho era o dono do corredor direito do ataque mas com a função de realizar constantemente diagonais para abrir o carril ao capitão, o lateral Carlos Alberto. No lado oposto surgia Rivelino, a jovem estrela do Corinthians, provavelmente a primeira estrela internacional forjada nos pequenos campos de futebol de salão.

Mais adiantado do que Pelé movia-se Tostão quejogava na mesma posição de Pelé no Cruzeiro mas a quem Zagallo adiantou no terreno, consciente de que a sua facilidade para mover-se entre os defesas rivais iria abrir espaços para as incursões de Pelé e Jairzinho. O mais politicamente ativo dos jogadores desta seleção, dotado de um sentido critico feroz e uma inteligência pouco habitual para os padrões do futebol da época (formou-se em medicina após ter abandonado o futebol precocemente por problemas de visão), foi a peça fundamental no puzzle. Com ele o carrossel ofensivo estava em perpétuo movimento, coordenado de longe pelo talento inato do mais improvável dos médios defensivos, Clodoaldo, e pelo mais cerebral dos jogadores que viajaram até ao México, Gérson. Seis futebolistas em constante trocas de posição, fisicamente preparados e capazes de jogar de olhos fechados depois de dias e dias de treinos preparados até ao máximo detalhe numa visão bastante diferente do culto do individualismo que a mitologia do futebol criou à volta de uma equipa memorável.

O triunfo do plano NASA

A 21 de Junho, quase dois meses depois de aterrar no México, a seleção canarinha subiu ao relvado do estádio Azteca com o coração do mundo no bolso. Ninguém se preocupava com a Itália de Fachetti, Riva, Mazzolla e Rivera, condenado ao banco pela incompreensível política de rotação de registas do selecionador transalpino. Todos queriam ver o samba das camisolas douradas. Ás doze horas e dezoito minutos o central italiano Tarcisio Burgnich viu a bola sobrevoar a sua cabeça. Um ser humano, pensou, nunca será capaz de a apanhar. Atrás de si Pelé, saltou uns metros mais do que era possível e ficou suspenso no ar enquanto o esférico entrou na baliza italiana. Ninguém sabe ao certo se alguma vez de ali saiu. A sua lenda, flutuando, para toda a posteridade, assombrou todos os que contemplavam à distância de um satélite a consagração viva de um mito. Um novo Amstrong capaz de passear na Lua.

A mitologia perpetuou a lenda, esqueceu-se que pouco depois os italianos, sempre serenos, empataram o jogo graças a um erro de individualismo puro de Clodoaldo. Esqueceram-se que só passada a hora de jogo o Brasil voltou a colocar-se em vantagem no marcador quando Gérson, o mais improvável dos goleadores, celebrou emulando o Corcovado carioca em terras aztecas. Que o golo de Jairzinho, o homem que marcou em todos os encontros da competição, foi mais resultado do desgaste físico italiano e da velocidade dos incansáveis brasileiros do que da maestria tropical canarinha. Esqueceram-se, sobretudo, que o plano de treinos da NASA revelou-se fundamental em cada jogo, em cada momento de aperto, dando aos jogadores brasileiros uma superioridade física que, aliada á sua condição técnica, lhes permitiu dribarl todas as adversidades. A nostalgia tem o condão de recordar sempre aquilo que quer. De resumir o complexo em algo conciso. Algo que dure, por exemplo, trinta segundos. Nove toques, oito homens, trinta segundos. Tostão, Brito, Clodoaldo, Pelé, Gersón, Rivelino, Jairzinho e Carlos Alberto. Um golo possível por um trabalho que começou dois anos antes. Um golo para a posteridade com o selo da aventura espacial.

2.433 / Por
  • Marcelo Venancio

    Ah tenha dó , que culpa o Brasil tem de ter se preparado melhor que os outros, não sei se é verdade que o Brasil foi estudar o preparamento físico dos astronautas e se ele o fez que mal tem isso ? Se preparar bem é contra as regras? Muito tendencioso esse título , enquanto a matéria só mostra com fatos que essa seleção estava muito além de sua época , não só pelo preparo físico mas também em esquema de jogo e por ser para mim a seleção que mais reuniu craques de bola , e isso não é um demérito e muito menos trapaça muito pelo contrário essa seleção agora com esses fatos tem q ser muito mais elogiada e exaltada , acho que mesmo q não houvesse tal preparo , ainda teria feito o q fez pelos craques que ali havia . A matéria só quis desqualificar essa seleção e tudo que ela fez , muito covarde isso . Por que não fazem essa mesma matéria para com a seleção da Holanda de 74 que dizem ter revolucionado o futebol , coisa que eu também concordo , só que se analisar bem para aquele esquema funcionar o preparo físico tbm teria que ser muito bom o esquema de jogo deles era avançado para época e para funcionar o preparo físico dos jogadores teria que ser avançado para época também , e isso é um demérito para Holanda? Estar a frente de seu tempo como a Holanda e Brasil estavam era errado? E outra se o Brasil tinha esse preparo fisco tão bom e esquema de jogo avançado para sua época por que só a Holanda tem a glória e os méritos de ter revolucionado a forma de se jogar futebol ? Europeu só reconhesse quando outro europeu faz algo grandioso e bom , quando é um Sul Americano dizem que foi ajudado pela nasa. Porque não falar que quem revolucionou o futebol mundial foi o Brasil , já que a matéria da os dados para isso , por que não dizer que a Holanda de 74 só continuou o que o Brasil de 70 fez , se para os Europeus o resultado dessa revolução no futebol só veio para depois dos anos 2000 enquanto o Brasil na década de 80 tinha um futebol brilhante que apaixonou o mundo inteiro assim como fez o Brasil de 70 . E se fizer um comparativo entre clubes europeus e brasileiros , nas décadas de 60 , 70 , 80 os brasileiros tinham os melhores times depois de 80 o futebol brasileiro foi caindo de nível porém ainda no final dos anos 90 o Brasil conseguia jogar de igual para igual com times europeus depois de 2000 os times brasileiros caíram muito enquanto os Europeus só aumentaram em termos de qualidade . porém se analisar que nos anos 90 foi a época em que os jogadores brasileiros começaram a ir em grande número para Europa assim como muitos sul americanos foi a mesma época em que os times europeus começaram a aumentar a qualidade de seu futebol , e que atualmente os times europeus e desde o começo de 2000 formam e formaram grandes times com praticamente 70% no mínimo de jogadores estrangeiros. Para concluir meu raciocínio digo , que clubes europeus atualmente são muito superiores ao resto do mundo graças aos estrangeiros e que o futebol brasileiro de nossos clubes só está muito fraco Pq nossos melhores jogadores estão na Europa, e afirmo com absoluta certeza que se nossos craques continuassem a jogar em nosso país ainda hj teríamos os melhores times do mundo e nossa seleção concerteza seria muito mais forte por isso. Não teríamos parado na década de 80 , nosso futebol seria o melhor desde as décadas de 60 , 70 , 80, 90 e continuaria em 2000 e na década atual , só enfraquecemos porque os craques brasileiros não jogam mais para o Brasil e sim para o europeu , e a Europa só teria um momento brilhante e, sua história que foi em 74.

  • Denilson de Oliveira

    Parabéns pelo texto muito bacana eu aos meus 44 anos não sabia deste detalhe.