O minuto maldito de Ginola

Vinte e cinco segundos. Com o Parc des Princes a preparar-se para celebrar o regresso da França a um Mundial de futebol depois de um breve hiato, o esférico chegou aos pés de David Ginola. Faltava menos de um minuto para o final do tempo regulamentar. O génio francês tinha nos pés o destino dos gauleses. O que sucedeu depois marcou uma geração para sempre.

O hiato francês nos Mundiais

Na história do futebol moderno a França é um caso único e particular.

Entre 1998 e 2002 foram, indiscutivelmente, a seleção mais forte e admirada do futebol mundial. Nenhum outro país, desde a Alemanha de inicios dos anos setenta, tinha conquistado dois torneios consecutivos – Europeu e Mundial – como os homens liderados em campo pelo marechal Zidane. Mais ainda, era preciso remontar a 1954 para encontrar a última seleção campeã do Mundo sem ter participado na edição anterior, e nesse caso porque a República Federal da Alemanha não tinha podido participar na fase de qualificação. Os dois casos precedentes – Uruguai em 1950 e Itália em 1934 também tinham derivado da vontade própria dos dois países em não entrar no torneio anterior – eram ainda mais particulares. Nenhum outro país, sobretudo uma potência Mundial, podia reclamar ganhar um Mundial depois de doze anos da sua anterior participação. Os franceses sim. Essa geração parecia invencível e recordava, com nostalia, a que entre 1982 e 1986 parecia estar fadada a viver o mesmo destino maravilhoso não fosse pelo ogre alemão, carrasco nas duas edições. Pelo meio, um vazio emocional dificil de explicar, responsável por uma dupla ausência consecutiva nos Mundiais que separaram o Azteca do Stade de France, e um Europeu de sabor amargo. Dificil entender esse larguissimo hiato – desde então algo que não voltou a suceder com nenhuma potência mundial – e mais ainda se olhamos para os nomes que os três seleccionadores franceses – Michel Hidalgo, Michel Platini e Gerard Houillier – podiam convocar para forjar o seu onze. Essa geração maldita, entre o maravilhoso Platini e o incontestado Zidane, podia ter tido outro papel na história do futebol moderno, de acordo com o seu prestigio real a nível de clubes, o mesmo que fez de Jean-Pierre Papin vencedor de um Balon D´Or. Do que consagrou Eric Cantona como o jogador mais amado/odiado da década de noventa. Ou que consagrou uma aura de misticismo a David Ginola. Um tridente estelar que, no entanto, chegado ao momento exacto, foi incapaz de estar à altura. Trinta segundos, um minuto, foi suficiente para destroçar a sua ambição e o seu lugar na história.

A cinzenta etapa Platini

Em 1987 Michel Platini anunciou o seu precoce abandono do futebol. A França que tinha apaixonado o mundo desapareceu com ele. Eliminados por uma superlativa União Soviética na fase de apuramento para o Europeu de 1988 – a primeira ausência dos Bleus num torneio em toda a década – abriu caminho para uma forçada renovação que tardou em carburar. Havia ainda estrelas da geração champagne no activo mas a equipa que tentou marcar presença no Mundial de Itália estava profundamente descompensada. Cabeças de serie de um grupo aparentemente acessível, com escoceses, jugoslavos, noruegueses e cipriotas como rivais – seguiam em frente os dois primeiros – os franceses pareciam ter meio pé em Itália apenas pelo seu estatuto. Não contavam seguramente com a consagração de uma Jugoslávia que meses antes tinha-se sagrado campeã mundial de sub-20 no Chile e estava a lançar para a ribalta uma geração fantástica de talentos e para um dos últimos suspiros de glória do futebol escocês. O empate com o Chipre, na segunda jornada, marcou profundamente o conjunto francês, que somou depois duas derrotas consecutivas com os seus rivais directos das quais nunca recuperou. Depressivamente, a equipa acabou por vencer apenas três dois oito jogos, ficando a um ponto dos escoceses que se deram inclusive ao luxo de empatar em casa o último jogo contra a Noruega. Michel Platini tinha assumido a equipa no seu primeiro trabalho como seleccionador a meio da campanha mas o seu efeito foi nulo e nem a contribuição de Papin, Sauzee, Cantona ou os jovens Deschamps e Blanc, juntamente com algumas figuras da velha guarda como Amoros ou Fernandez, foi suficiente. Quatro anos depois a situação parecia ser diferente. Apesar da decepcionante participação no Euro 92, a qualificação francesa foi superlativa e poucos duvidam, aquando do sorteio, que os gauleses carimbariam o seu passaporte para os Estados Unidos. Bulgaros – ausentes num torneio internacional desde 1986 – israelitas, austriacos, suecos e finlandeses, eram os rivais para dois lugares. Platini tinha deixado o lugar ao seu número dois, Gerard Houillier, e uma boa base de trabalho com vários jogadores de grande talento capazes de formar uma equipa bastante competitiva. Poucos podiam imaginar o que iria acontecer.

A cavalgada heróica de final trágico

A 9 de Setembro de 1992 a Bulgaria abriu a fase de qualificação com uma estrondosa vitória por 2-0 frente á França de Houllier com uma masterclass de Hristo Stoichkov, então a viver a sua melhor etapa profissional, recém consagrado campeão da Europa com o Barcelona. Os fantasmas pareciam ressuscitar mas, por uma vez, os franceses souberam reagir. A dupla Papin-Cantona no ataque parecia funcionar, Ginola começava a assumir a batuta de jogo. A defesa com Barthez, Angloma, Boli, Blanc, Di Meco, Lizarazou e Desailly era bastante segura e o trabalho de jogadores promissores como Deschamps, Djorkaeff, Guerin, Karembeau, Le Guen e Sauzee na sala de máquinas fazia-se notar.  Houllier e o seu adjunto, Aime Jacquet, apostavam num modelo organizado e estruturado defensivamente a partir de um 4-4-2 bastante móvel onde Ginola tinha galões de maestro e Cantona permitia a conexão entre o ataque e o meio-campo num modelo fluído.

As seguintes vitórias contra a Austria – nos dois encontros – e também Finlândia e Israel, tinham deixado tudo em aberto na liderança quando franceses e suecos, lideres do grupo, se encontraram a 29 de Abril de 1993 em Paris. Apesar do golo madrugador de Dahlin, Eric Cantona, a viver em Leeds uma segunda juventude, deu a volta ao marcador e colocou os gauleses como lideres de grupo. Tudo parecia ir bem e meio ano depois – com o Marseille já campeão da Europa e Cantona com a primeira liga inglesa debaixo do braço – o empate a um golo na Suécia apenas parecia reforçar a certeza de que a França não falharia o apuramento. Só um cataclismo o podia provocar já que dos dois últimos jogos os franceses apenas necessitavam de um empate e ambos eram disputados em casa, frente israelitas e búlgaros.

Dois jogos, zero pontos, um culpado

As contas do grupo eram fáceis de fazer. A França liderava com 13 pontos, seguida da Suécia com 12 e da Bulgária com 10. O clima era já de festa antecipada. Ginola, que assumia galões no emergente Paris Saint-Germain, jogava em casa e estava determinado a confirmar o seu estatuto de sucessor de Alain Giresse no meio-campo ofensivo gaulês e dar o salto definitivo que se esperava dele. O optimismo era tal que a delegação francesa inclusive já tinha sondado eventuais zonas de concentração nos Estados Unidos. Tanto se dava por garantido o apuramento que o jogo contra os israelitas não atraiu mais de 30 mil espectadores ao Parc des Princes. Era um fait-divers. Os israelitas não tinham vencido um só jogo da fase de apuramento, eram últimos. E tudo aconteceu precisamente ao contrário do esperado. Harazi abriu o marcador ao minuto 21 em forma de susto mas numa noite que parecia imperial de Ginola, Sauzée e o próprio deram a volta ao marcador ainda antes do intervalo. Os gauleses voltaram ao campo ainda mais descontraídos e nem o golo de Berkovich ao minuto 83 parecia incomodar. O empate era suficiente para cumprir a matemática necessária. Foi ao minuto noventa que o disparo de Atar mudou tudo. Caras de pânicos, de surpresa, de estupefação. Ouvidos rapidamente em Sofia e Estocolmo e noticias de vitórias que sabiam a derrota. Bulgaros e suecos tinham cumprido e as contas mudavam ligeiramente. Os suecos eram lideres e estavam qualificados. Um ponto separava gauleses e búlgaros. Mas a derrota na jornada inaugural era recordada ainda e Stoichkov não era um jogador com quem brincar. Com vários jogadores a entrarem no país ilegalmente pela fronteira, via automóvel desde a vizinha Alemanha, os búlgaros estavam motivados pelo ensejo de fazer história. E jogavam com os fantasmas franceses. Houllier e Jacquet tiveram medo e montaram um esquema mais defensivo. Um ponto acima de todas as coisas. Ginola foi enviado para o banco para reforçar a força de combate do miolo. Uma declaração de intenções evidente.

Cantona respondeu ao seu estilo. Marcou o primeiro golo com um volley espantoso e mostrou claramente ser o líder que aquela França necessitava como tinha ocorrido durante toda a fase de qualificação. Era o seu sexto golo em sete jogos, reafirmando a aposta de Houllier quando a Federação francesa teria preferido bani-lo indefinidamente. Poucos minutos depois, no entanto, Emil Kostadinov, avançado do FC Porto, serpenteou a defesa francesa com o olhar e saltou mais alto para desviar um canto de Balakov e assinou assim o empate. Nervos à flor da pele. Poucos eventos a relatar, medo no corpo e no minuto 69, Jean-Pierre Papin, muito apagado, dá lugar a Ginola. Nem uma concessão ao futebol de ataque. A ordem era clara. Aguentar. Ginola , camisola 15 nas costas, ouviu, baixou a cabeça e assentiu. Entrou em campo para entregar a braçadeira de capitão a Cantona e, sem o saber, acabar com a sua carreira.

Durante vinte largos minutos não aconteceu absolutamente nada. E depois o mundo acabou. Com menos de um minuto para os noventa, Ginola decide pegar na bola e fazer precisamente aquilo que se lhe pedia. Só, sem apoios, inicia um sprint em direcção à bandeirola de canto, driblando três bulgaros pelo caminho para logo sofrer a falta que procurava. Do banco Houllier aplaudia. Era isso que procurava, perder tempo, colocar a bola numa zona inofensiva. Gerir o empate. Nada menos. Nada mais. Ginola parecia estar a cumprir quando se duvidava do seu critério mas ao levantar-se do chão tinha um olhar perdido. Pouco a pouco afastou-se da bola mas ficou por perto e recebeu o passe de Guerin. O tempo pedia guardar a bola, procurar o canto, devolver o passe, atirar a bola fora. Pedia tudo menos aquilo que Ginola fez. Olhando de soslaio, o génio parisino viu Cantona só no poste afastado e o seu instinto ofensivo saiu-lhe das veias. Procurou um cruzamento largo e tenso para Eric mas a bola saiu larga. Demasiada larga. Um Mundial larga.

Caindo nos pés de Kremlinev, com Cantona olhando desesperado, o esférico ganhou vida própria e a respiração no Parc des Princes ficou suspensa por doze segundos. Era só uma bola num lateral. Do passe de Kremlinev a Lubo Penev passou a ser só um contra-ataque que qualquer defesa ou médio podia ter interrompido. Penev estava rodeado de jogadores. Nenhum deles era Ginola. Nenhum deles soube roubar a bola ao tanque búlgaro que caminhou sem oposição até passar o esférico a Kostadinov. Mas o autor do golo estava longe da baliza, escorado ao lado direito, rodeado de marcadores e Stoichkov, na área, estava igualmente bem marcado. De ali não ia seguramente sair perigo. Mas o controlo com a coxa de Kostadinov mudou tudo. Deixou Petit, a jogar a defesa esquerdo improvisado, fora da jogada e a Blanc, tardio em reagir, a ver o esférico mover-se a outro ritmo. Quando o central se atirou ao chão a bola já voava violentamente na direcção de Bernard Lama. Pelo seu poste. Ginola estava no outro lado do campo, mãos na cintura. O passe falhado tinha sido seu mas nos segundos seguintes a bola tinha rodeado seis dos seus companheiros até chegar a um Lama estático e nenhum deles soube emendar o seu erro. A condena, essa, seria para sempre sua.

O vilão que deu o Mundial aos franceses

A derrota com a Bulgária marcou o ponto mais baixo na história recente dos gauleses. Houllier abdicou do posto e deixou o lugar a Jacquet e este apressurou-se a limpar a casa. A viver a sua melhor etapa profissional, Cantona passou a pária. Papin, a entrar já na sua última etapa goleadora, desapareceu do mapa e com ele Sauzeé. E claro, Ginola. O homem por quem os adeptos de Paris gritaram durante uma hora, o homem que tinha cometido o erro supremo na outra ponta do terreno de jogo, foi afastado para sempre da seleção. Não lhe valeu de nada as espectaculares exibições no Paris Saint-Germain e depois no futebol inglês, com Tottenham e Newcastle, onde se converteu um mito quase à altura de Cantona e, pelo menos, ao nível de outros párias continentais como Vialli, Zola ou Bergkamp. Nos meses seguintes Jacquet abriu caminho a uma nova geração, as de Zidane e companhia, e enquanto os franceses viam como as suas rivais no grupo disputavam o terceiro e quarto lugar do Mundial – mostrando que afinal o apuramento não era favas contadas – os êxitos do amanhã apressuravam-se a encontrar os culpados do interregno de títulos, Mundiais e emoções fortes. O minuto em que Ginola passou de fazer o que se lhe pedia a fazer precisamente o oposto definiu para sempre a história do futebol europeu dos anos noventa. Sem esse erro nunca teria havido uma Bulgária estelar nos Estados Unidos nem uma geração de ouro que se consagrou nessa década. E talvez a presença francesa no Mundial – com a possível consagração global de Papin, Cantona e Ginola – tivesse fechado as portas, por uns anos, a Zidane e companhia e talvez, com isso, ao projecto que dominou o futebol continental na viragem do século. Para sempre essa bola perdida será sinónimo de dor em França mas também da alegria que chegou depois. Ginola montou as bases dos títulos que não pôde ganhar. Não podia. A cada herói é necessário um vilão. O de Zidane foi ele. Sem o saber. O vilão que a França precisava para ser o que nunca tinha sido. Campeã do Mundo!

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