Kick and rush. Uma expressão que fala por si própria, com a força suficiente que se exige para definir não só um estilo. Uma ideologia. O espelho do jogo no berço do futebol moderno. Mas se o futebol inglês nunca apreciou em demasia o futebol de toque em parte deve-o às suas próprias condições. Num país verde, chuvoso e lamacento nos longos invernos em que dura as temporadas da liga, o relvado tornou-se no principal condicionante do estilo de jogo britânico.

O ADN do futebol inglês

Brian Clough, o manager mais icónico da história do futebol britânico, dizia aos seus jogadores que se Deus quisesse que o futebol fosse jogado pelo ar teria posto erva nas nuvens. Mas Clough, além de visionário, era uma ave rara. E sabia-o.

Nos anos 60, quando arrancou a sua carreira, as transmissões televisivas apresentaram ao mundo o kick and rush inglês. No seu máximo esplendor. A First Division vivia a sua era dourada e os longos lançamentos a cruzar o campo, os cruzamentos na linha para o poderoso jogo aéreo dos avançados e a opção de remate de meia distância em vez da troca de bola no último terço de campo tornaram-se símbolos fortíssimos de como se jogava em Inglaterra. E em Inglaterra, muitos ainda pensavam, jogava-se o jogo como este tinha sido feito para jogar.

Mas por essa altura já nem os ingleses se lembravam porque jogavam como jogavam. O sentimento inato do kick and rush era alimentado desde a mais tenra idade. Os heróis das revistas jogavam igual, nos colégios quem dava mais de três toques na bola era derrubado sem piedade e nas aulas de educação física os professores, herdeiros ainda da mentalidade vitoriano mas com a reduza proletária do final do século XIX, ensinavam aos alunos que a coragem, a resistência e a força eram o caminho correcto para ser um verdadeiro gentleman dos relvados. E quando chegavam à etapa profissional, os jogadores tinham mentalizado o jogo da mesma forma que o malandro brasileiro e o potrero argentino entendiam de finta e que os jogadores da Europa continental preferiam o concerto de passes e posse até ao momento ideal de rematar a jogada. Mas debaixo da chuva torrencial, do céu cinzento e dos campos enlameados, poucos entendiam que essa paixão original pelo kick and rush se devia, em grande parte, ao terreno onde o futebol nasceu.

 De Waterloo ao Wembley

Arthur Wellesley, duque de Wellington, declarou que Waterloo foi ganho nos campos do colégio de Eton. O futebol nasceu aí, no imenso verde que rodeava os colégios elitistas que deram popularidade a um desporto quase em extinção social até à década de 20 do século XIX. Se Waterloo foi ganho porque os soldados ingleses, sem o auxílio prussiano, aguentaram estoicamente a chuva e lama, o futebol cresceu sob o mesmo pressuposto, adaptando-se aos terrenos lamacentos e à chuva constante. Essa génese fez-se sentir profundamente no estilo do jogador inglês. Entradas duras, aplacada por um terreno macio. Relva alta para a bola deslizar com mais rapidez. E sobretudo, uma lama intensa que impedia a bola de circular com fluidez em passes curtos e convidava a longos sprints, bolas áreas e jogadores fortes fisicamente, altos e resistentes. O ADN do jogador inglês amador do século XIX não mudou muito em cem anos. Clough podia não sabê-lo, mas a sua boa vontade não podia combater um século de evolução humana.

Quando os relvados começaram a ser alvo de tratamento especial pelos clubes, já entrados nos anos 80, era tarde. O perfil do jogador britânico mantinha-se igual mas o novo aspecto e vitalidade do tapete verde permitiu entender melhor a diferença quando a legião de artesões continentais, liderada pelos Cantona, Zola e Bergkamp, demonstrou que no relvado havia duas formas de sentir a bola. Enquanto os jogadores mais destacados do Mundo mostravam os seus estilos forjados nas favelas latinas, na savana africana ou nos campos verdes da Europa continental, o jogador inglês continuava a comportar-se da mesma forma. Steven Gerrard, Frank Lampard ou Paul Scholes são apenas exemplos. David Beckham celebrou-se pelos seus cruzamentos, Alan Shearer pelo seu jogo de cabeça e Rio Ferdinand e John Terry pelo domínio do jogo aéreo na defesa.

Os símbolos do futebol inglês moderno não distam demasiado dos do futuro imediato e em nenhum dos casos se afastam em demasia do velho protótipo que deu forma ao mito do kick and rush. Se é verdade que hoje as condições climatéricas influenciam menos do que nunca o desenvolvimento de um jogo de alta competição, a verdade é que a nível de formação os velhos fantasmas dos campos lamacentos e dos jogadores todo terrenos continuam a ser o padrão mais procurado e desenvolvido. O ADN de Waterloo está vivo nas chuteiras dos jogadores ingleses e quando um adepto no outro lado do mundo se admira com o jogo do Stoke City talvez seja preciso relembrar-lhe que a culpa desses pontapés largos é do relvado, o mesmo dos campos de Eton, o mesmo que irritava Clough o mesmo que hoje só existe na cabeça do adepto inglês.

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