O jogo que inspirou Fuga para a Vitória

Hollywood gosta de romantizar a realidade. O universo do futebol não é excepção. A estreia de Fuga para a Vitória popularizou a imagem da resistência Aliada durante a II Guerra Mundial mas a história real que inspirou o filme teve lugar em Itália. Um jogo de morte que fintou a própria natureza da guerra.

Os heróis de Sarnano

Seguramente que Sylvester Stallone, que mais tarde confessou que não tem qualquer admiração pelo mundo do futebol, funciona bem no cenário recreado em Fuga para a Vitória ao lado de personalidades míticas como Pelé e Bobby Moore. Mas, como tem sido habitual, a realidade foi bem distinta do que a história contada por John Houston.

A ação que inspirou o popular filme de 1981 aconteceu 37 anos antes. Bem longe dos subúrbios de Paris, no coração do norte de Itália. Em 1944 a zona estava ocupada pelo exército Nazi, temeroso da rápida ofensiva Aliada que, às portas de Roma, ameaçava controlar definitivamente Itália. O exército germânico tinha de lidar tanto com a ameaça Aliada como com a resistência italiana. Desde 1942 que o movimento de resistência tinha lutado, primeiro contra o exército italiano, ainda fiel a Benito Mussolini, e mais tarde contra os ocupadores alemães. Na pequena aldeia de Sarnano vários tinham sido os homens que abandonaram as casas para juntar-se aos milicianos nas montanhas. Um deles era Mimmo Maurelli, reconhecido futebolista.

Em Março, as autoridades alemãs decidiram organizar um jogo de futebol para aumentar o moral de umas tropas desgastadas e longe de casa há vários anos. Contactaram o irmão de Mimmo, Mario Maurelli, árbitro de futebol profissional da Serie A, que ainda vivia na aldeia e fizeram-lhe uma oferta que não podia recusar. O árbitro tinha três dias para recrutar uma equipa de futebolistas entre os homens locais para disputar um encontro amigável contra uma formação do exército alemão. Só havia duas exigências: o jogo tinha de seguir todos os padrões de um jogo oficial e Mimmo tinha de jogar. Caso contrário o exército deteria os famíliares dos milicianos em fuga. O sargento Ratzenberger prometeu ao árbitro que o irmão – e qualquer outro miliciano – não seria detido durante o jogo mas, naturalmente, este teve dificuldades em acreditar.

Durante dois dias a aldeia manteve contactos secretos com as montanhas e apesar do risco da ação, os milicianos concordaram em jogar o encontro com receio que o preço a pagar pelos seus famíliares fosse grande demais. A 1 de Abril de 1944, os onze representantes do exército alemão surgiram no campo local preparados para o duelo agendado para as 15h00. Vestidos a rigor, esperavam a chegada de uma equipa rival que não havia forma de localizar.

Subitamente, 1 minuto antes do jogo arrancar, os homens desceram da montanha, vestidos de azul, e foram-se juntando no terreno de jogo. Entre eles estava Mimmo Maurelli.

Um jogo da morte com final feliz

O relato do jogo em si toma proporções quase hollywoodescas.

Mario Maurelli apitou para o início do jogo depois de um tenso cumprimento entre ambas as equipas com os soldados alemães a realizar a saudação nazi e a equipa de resistência a erguer os punhos no ar. A tensão podia sentir-se no ar.

Apesar de fisicamente estarem melhor preparados, os alemães eram claramente inferiores aos italianos que marcaram o golo inaugural nos primeiros minutos. Um golo que deixou Maurelli gelado. O acordo tinha sido perder, de forma propositada, para garantir que não existiriam reprimendas para os habitantes da aldeia. Mas os erros defensivos alemães eram tão evidentes que não marcar um golo parecia algo demasiado evidente. Gratinni, um desses conquista corações das adolescentes locais, marcou e celebrou entusiasticamente diante de um público composto, maioritariamente, por soldados alemães armados.

O jogo decorreu sem grandes incidentes, até que Maurelli e o sargento Kobler foram expulsos depois de duas entradas duras em lances consecutivos. Com o irmão finalmente fora de campo e vendo que os alemães eram incapazes de criar perigo ao mesmo tempo que os italianos tentavam não converter as suas melhores oportunidades, Mario Maureli começou a fazer sinais aos colegas de que era hora. A cinco minutos do final o defesa italiano Amintore tropeçou com a bola deixando o avançado alemão isolado. Desta vez a bola entrou e com o empate todos ficaram satisfeitos. No preciso momento que Maurelli apitou para o final do jogo, os jogadores milicianos começaram a correr de volta para as montanhas, temerosos que os alemães não cumprissem a sua parte do acordo. Dois meses depois a aldeia era libertada pelos Aliados e os heróis do jogo de Sarnano entravam na história.

Hollywood entra em ação

Vários anos depois a história dos milicianos de Sarnano tornou-se parte do folclore futebolístico italiano. E a noticia chegou à comunidade italiana nos Estados Unidos. Juntamente com o relato do duelo entre jogadores do Dynamo Kiev  e o exército nazi que ocupava então o sul da União Soviética, Hollywood gostou da ideia de criar um filme que recolhesse o melhor de ambos os relatos.

Aproveitando que a Major League Soccer vivia a sua época de apogeu mediático, os productores contrataram alguns dos rostos mais famíliares do público norte-americano, um elenco liderado por Pelé e Bobby Moore mas que contava igualmente com outros jogadores como Mike Summerbee, Osvaldo Ardilles, Paul van Himst, Kazimierz Denya ou Werner Roth.

O filme estreou em 1981, depois de uma rodagem com vários problemas, em particular o ego de Stallone, guarda-redes na história que queria marcar o golo da vitória e para quem a sequência do penalty defendido foi criada propositadamente. Tornou-se imediatamente num filme de culto, teve sucesso nas bilheteiras e continua, depois de tantos anos, a ser um dos poucos productos de cinema americano a recriar com alguma fidelidade a tensão de um jogo de futebol. Tensão, no entanto, insignificante se imaginamos os longos 90 minutos vividos pelos milicianos de Sarnano.

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