“O futebol não é um jogo de vida ou morte, é algo mais importante do que isso”. A frase é de Bill Shankly mas ninguém a viveu de forma mais intensa do que os jogadores do FC Start. Durante a ocupação alemã na II Guerra Mundial a equipa de jogadores ucranianos tornou-se num simbolo de resistência. Pagou com a vida a ousadia e entrou para a posteridade como os primeiros martires do futebol.

A arma dos nacionalistas ucranianos

O futebol entrou na Rússia na primeira década do século XX e rapidamente se espalhou aos principais centros urbanos do império. A revolução soviética e a sua luta contra tudo o que fosse espelho da sociedade ocidental colocou um travão no desenvolvimento do jogo. Durante vinte anos jogar futebol era um desafio á própria essência do novo estado soviético. Na Ucrânia esse desafio era ainda maior. A mais populosa das repúblicas soviéticas, depois da Rússia, tinha passado por anos de fome, exploração económica e purgas políticas orquestradas desde o Kremlin por um desconfiado Josef Stalin.

Os ucranianos tinham poucas formas de se manifestarem contra o regime soviético dentro do que era legalmente permitido. Uma delas era o futebol. Como contra-cultura política, o jogo tornou-se imensamente popular em Kiev, Donetsk e em vários pontos da geografia ucraniana e as primeiras gerações de talentosos jogadores foram ganhando protagonismo. Essa primeira idade dourada acabou em Setembro de 1941, quando o exército alemão, quebrando o pacto de não agressão assinado dois anos antes por Hitler e Stalin, começou a sua invasão do imenso império soviético.

O primeiro destino das tropas hitlerianas foi a república da Ucrânia. Kiev foi ocupada e vandalizada e o mesmo passou com os territórios vizinhos. Os soviéticos, mal armados e preparados, recuaram e deixaram a pilhagem ao inimigo de livre vontade. Sabiam que enquanto os ucranianos sofressem, os russos teriam uma possibilidade de se rearmar e defender. O novo regime imposto por Berlim trouxe de novo a fome aos ucranianos. Com ela veio uma série de proibições civis, a mais inócua das quais, talvez, a de praticar desportos organizados. Muitos dos futebolistas eram ainda amadores e sobreviveram nos poucos negócios que ainda se mantinham de pé. Mas de forma desafiante continuavam a treinar-se e a jogar longe dos olhares controlados dos nazis. Entre os principais protagonistas desta história começavam-se a cruzar nomes que seriam lenda. Nikolai Trusevich, antigo guarda-redes do Dínamo de Kiev e um dos melhores jogadores da Europa na sua posição, cruzou-se um dia com Josef Kordik, um veterano da I Guerra Mundial.

Kordik era um adepto apaixonado do Dinamo. Também era de origem germânica o que naqueles dias lhe valia um salvo conduto fundamental para sobreviver. Dono de uma padaria, contratou Trusevich para trabalhar consigo. Foi o primeiro de vários futebolistas que recrutou da miséria. Sem o saber estava a montar as bases de uma equipa de sonho.

Um clube de guerrilheiros forjado numa padaria

Durante semanas foram chegando antigos futebolistas, muitos deles verdadeiras estrelas do pré-guerra, ao pequeno grupo formado por Kordik. Com eles vinha a vontade de mostrar, com a bola nos pés, que havia algo em que os alemães não os poderiam bater. Utilizando a sua influência politica – Kordik ajudou muitos alemães a capturar influentes personalidades ucranianas na sua chegada à cidade – persuadiu as novas autoridades a deixá-lo formar um clube de futebol para medir-se aos regimentos estacionados na Ucrânia de forma a melhorar a moral dos soldados e da população local.

As autoridades duvidaram primeiro e aceitaram depois, talvez pensando que os jogadores seriam simples amadores e presas fáceis para os seus homens. Não desconfiavam que muitos deles tinham anos de duelos contra os rivais de Moscovo ou da anexada Polónia, nas pernas como atletas do Dinamo de Kiev. O novo nome do clube não podia ser mais explicito, FC Start, um novo começo para uma realidade que ia mudar para sempre a mentalidade dos ucranianos.

O primeiro jogo do novo clube foi disputado contra o Rukh, um clube formado por nacionalistas ucranianos que se tinham aliado ao regime nazi por oposição ao domínio comunista de Moscovo. Eram os homens de confiança de Georgi Shevtsov, também ele um antigo jogador e agora um dos homens fortes do novo regime fantasma que Hitler pretendia estabelecer na Ucrânia ocupada. Disputado a 7 de Junho de 1942, o jogo atraiu vários ucranianos ás bancadas do então nacional, curiosos de ver o que esta equipa, forjado fora do circuito de poder nazi, era capaz de fazer. Sem equipamento próprio a não ser uns farrapos vermelhos – que mais tarde o regime comunista defendeu que mais não era que uma homenagem á bandeira soviética – os antigos jogadores do Dinamo Kiev transformaram-se nas suas reencarnações do passado e humilharam o rival por um claro 7-2. A maioria dos jogadores subiu ao campo com botas rotas. Só um deles, Goncharenko, tinha ainda consigo as chuteiras de quando era futebolista. Não foram necessárias mais.

As vitórias continuaram. Derrotados os húngaros e romenos que faziam parte do exército nazi por sucessivas goleadas, os jogadores do FC Star começavam a ambicionar algo mais, o de medir-se diretamente com a elite do regimento alemão. A população local de Kiev, entusiasmada pelas vitórias dos seus, transformou cada um dos seus jogos num motim político de resistência. Os nazis só tinham uma forma de travar um monstro que ajudaram a construir. Tinham de mostrar a sua superioridade. E só o podiam fazer sobre o campo.

A luta de resistência contra os Nazis

O duelo teve lugar a 17 de Julho.

Soldados da temível Wermarcht que tinham formado um clube chamado PGS, foram escolhidos pelas autoridades alemãs para interromper a série de vitórias do FC Star. Sairam de campo goleados por seis golos sem resposta. O caso começava a tomar forma de resistência política e a situação piorou ainda mais dois dias depois quando o MSG Wal, um mixto de jogadores húngaros e austriacos, forjados na escola danubiana, foram batidos por um claro 5-1 a favor dos ucranianos. Não eram alemães mas tinham sido eleitos a dedo pelo seu passado reconhecido nos campos de futebol de Viena e Budapeste. E tinham falhado a missão. Cinco dias depois as mesmas equipas reencontraram-se. O FC Start voltou a ganhar, desta vez por 3-2. Kordik começou a receber ameaças de morte e a sua padaria foi vandalizada recorrentemente. Mas nem assim a história chegou ao fim. Faltava um último episódio dramático antes do fim.

A data marcada a vermelho no calendário era o 6 de Agosto de 1942.

O FC Start ia medir-se, finalmente, ao Flakef, a melhor equipa do exército nazi que tinha sido enviada, propositadamente, até Kiev para o encontro. Os ucranianos venceram com facilidade, por 5-1, e escreveram o seu próprio destino. Foi marcado um encontro de desforra para três dias depois. Antes do encontro os jogadores foram abordados por Kordik. Este tinha recebido ordens dos dirigentes nazis para, deliberadamente, perder o encontro. Os ucranianos deveriam deixar-se derrotar em campo de uma forma que o público não se apercebesse. Se o fizessem, esse seria o último jogo da equipa mas todos ficariam com vida. Desobedecer era assinar a sua própria sentença de morte.

O estádio estava cheio, toda a Kiev queria presenciar o último jogo do FC Start. Uma derrota significava viver, uma vitória a morte por fuzilamento. A noticia já tinha corrido pela cidade, os adeptos sabiam que iam presenciar um duelo com um guião pré-escrito. Talvez por isso as manifestações de apoio das bancadas fosse ainda maior, especialmente quando os jogadores do FC Start se negaram a cumprir a protocolar saudação nazi para gritar, em ucraniano, “Fizculthura”, a partir de então uma nova palavra de guerra para os adeptos.

Os alemães marcaram primeiro mas ao intervalo o FC Start já vencia por 3-1. Durante o intervalo, os jogadores soviéticos voltaram a receber as esperadas visitas dos oficiais das SS. Sabiam o seu destino e estavam dispostos a morrer pela sua causa. A segunda parte foi ainda mais intensa e o FC Start chegou a colocar-se com uma vantagem de 5-1 no marcador antes que os alemães fossem capazes de reduzir para 5-3. No último minuto, o golpe de misericórdia moral. Klimenko, um dos avançados estrela da equipa, driblou os defesas contrários e o guarda-redes alemão para depois devolver, com a baliza aberta, a bola para o meio campo debaixo de um coro de sonoros aplausos das bancadas. Foi o maior grito de independência que Kiev ouviu durante toda a guerra. Mas a história tinha um final amargo.

Depois de golear o Rukh, o primeiro dos seus rivais, num jogo entre ucranianos, o FC Start chegou ao fim. As SS irromperam no dia seguinte na padaria de Kordik e diante de todos os empregados e a família torturaram-no antes de o executarem. Os jogadores que tinham subido ao relvado foram enviados para um campo de concentração em Siretz, nos arredores de Kiev. Kuzmenko, Korotkyh, o guarda-redes Trusevich e o avançado Klimenko foram executados com um tiro na nuca e enterrados numa fossa comum. Todos tinham a camisola do FC Start no corpo quando foram executados. Todos os outros foram torturados e executados. Só Sviridvosky e Goncharenko sobreviveram. Estavam fora da padaria, a realizar entregas a domicilio, e quando ouviram as noticias da morte de Kordik esconderam-se durante semanas nos esgotos da cidade. Quando os soviéticos libertaram Kiev, a 20 de Novembro de 1943, ainda estavam com vida.

O mito de propaganda que afinal era verdade

O regime soviético não sabia bem o que fazer com a saga do FC Start.

Por um lado era um claro sinal de resistência contra o invasor nazi e um simbolo de heroicismo baseado no desporto, uma das premissas mais queridas de Stalin. Mas, por outro, era também uma bandeira do nacionalismo ucraniano, aquele que acreditava que ser ocupado por alemães ou russos significava o mesmo. Assim, durante décadas, a história do FC Start foi reduzida a anedota. Só em Kiev a sua memória foi preservada. A direção do Dinamo de Kiev garantiu que todos os que tinham bilhete do mítico duelo contra o Flakelf teriam sempre garantida a entrada no seu estádio sem pagar. Com o passar dos anos, o regime comunista finalmente entendeu que só saía a ganhar com a recuperação da memória dos heróis do jogo da morte e a história do FC Start e dos seus protagonistas fez-se conhecida em todo o Bloco de Leste. Com a queda do Muro de Berlim, o que para muitos no Ocidente era uma lenda de propaganda, foi ganhando contornos de verdade. Hoje a saga do FC Start não é questionada por ninguém e admirada por todos. Os seus protagonistas utilizaram o futebol como a última arma na luta pela independência. Foram os primeiros grandes mártires do jogo, aqueles que lhe deram uma dimensão maior que a vida e a morte.

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