Três países, três clubes, o mesmo sonho. A consagração europeia de uma família que encontrou no futebol a melhor forma de escalar na sociedade e fazer-se notar. Giampaolo Pozzo lançou as bases de um império futebolístico e espera que os próximos anos lhe permitam desafiar de olhos nos olhos os grandes senhores  do futebol.

O homem de Friuli

Em 1986 a região de Friuli vivia uma profunda depressão futebolística.

O clube simbólico da zona, essa fronteira mal desenhada entre Itália, Áustria e Jugoslávia, tinha sido despromovido depois de se confirmarem acusações de corrupção na Serie A que envolviam a instituição. O clube do brasileiro Zico arrancaria a temporada seguinte com menos nove pontos que provou ser fatal. A Udinese foi despromovida, por dois pontos, e voltou a cair na Serie B onde tinha passado grande parte da sua história. No meio deste clima de luto futebolístico, surge pela primeira vez a figura de Giampaolo Pozzo. O homem que resgataria a Udinese das sombras e começaria a preparar o seu império futebolistico.

Pozzo era um homem de negócios da zona que tinha feito a sua fortuna no mercado de exportações. Com a Udinese em horas baixas comprou o clube a um preço inferior ao do mercado e rapidamente começou a investir para devolver o orgulho de Udine à Serie A. A equipa precisou apenas de uma temporada mas os anos seguintes foram passados numa espiral de subidas e descidas que não terminou até 1995, ano da última e definitiva promoção. Foi também quando Pozzo começou a investir de forma mais evidente no projeto. Já não era presidente, um cargo do qual se demitiu quando surgiram os primeiros indícios de que Pozzo estava envolvido, nesse caso com Sergio Cragnotti, presidente da Lazio, na compra e vendas de jogos.

Com Alberto Zacheronni ao leme da equipa, a Udinese logrou em 1997 a melhor posição da sua história até então, um quinto posto, levou o clube pela primeira vez às provas europeias. Um ano depois a equipa faria ainda melhor, terminando o ano no terceiro lugar da tabela. O trabalho do técnico aliava-se à gestão de Pozzo. Consciente das limitações financeiras do clube, o empresário começou a investir numa rede de olheiros única, dedicada exclusivamente a pesquisar no mercado jogadores jovens, baratos e com um tremendo potencial de crescimento. Curiosamente o herói das duas épocas de ouro não era um jovem, mais sim um veterano alemão, mal aproveitado até então, Olivier Bieroffh. Não só brilhou ao serviço dos bianconeri como também se tornou na grande estrela da seleção alemã campeã da Europa em 1996. Um ano depois, Bieroffh e Zacheronni partiam para Milão e deixavam os cofres do clube recheados. Mas a politica de Pozzo não se desviou um só milímetro.

A ascensão das zebras

Pozzo voltou a dar as rendas da equipa a um jovem e ambicioso técnico, Luciano Spaletti. Com o novo treinador ao comando, a equipa foi rejuvenescida e voltou a brilhar no Calcio, impressionando pelo futebol ofensivo e descarado que lhe valeu um regresso ao futebol europeu em 2003, confirmando plenamente a aposta de Pozzo.

A chegada ao clube de jovens desconhecidos como Jorgensen, Sensini, Amoroso, Iaquinta ou Di Natali, que rapidamente se transformaram em estrelas na liga italiana, transformou a Udinese num fenómeno extremamente popular. O apuramento, em 2004, para a Champions League, parecia o passo a seguir mas não deixava Pozzo perder a perspectiva do seu projeto. A Udinese tinha um dos mais baixos orçamentos da liga e no entanto podia competir com clubes muito mais bem preparados porque sabia gerir-se de uma forma quase auto-sustentável. O dinheiro ganho nas provas europeias era investido na rede de olheiros que captaria nos anos seguintes a Muntari, Isla, Inler, Alexis Sanchez ou Zapata, permitindo sempre manter-se competitiva à medida que os melhores jogadores iam saindo, temporada sim, temporada não. Nos últimos cinco anos a Udinese repetiu a participação na prévia da Champions mais duas vezes, marcou presença em quatro épocas em provas europeias e não saiu do topo da tabela classificativa italiana.

Pozzo esteve também por detrás, em 2009, da criação do primeiro canal temática televisivo dedicado a um clube em Itália, seguindo o modelo inglês, muito antes dos grandes da Serie A. Ao mesmo tempo começou a trabalhar em parcerias com outros clubes e foi aí que nasceu verdadeiramente a ideia de fazer da fórmula Pozzo um projeto global.

O milagre de Granada

Em 2008 o histórico clube espanhol Granada vivia um dos seus piores momentos.

A equipa que nos anos 70 tinha desafiado os grandes do país, tinha caído de forma abrupta na terceira divisão, vitima de uma péssima gestão desportiva. O antigo presidente do Real Madrid, Lorenzo Sanz, fez-se cargo do clube através do filho mas a situação era de tal forma negra, que rapidamente procurou vender o clube a alguém interessado em investir dinheiro sem retorno garantido. Encontrou-se um dia com Pozzo e daí nasceu o negócio que mudaria a vida do clube andaluz. Associado ao empresário Quique Pina, um habitual do futebol espanhol, Pozzo conseguiu que os sócios do clube apoiassem a criação de uma Sociedade Anónima da qual ele se tornou detentor da maioria das ações, começando a investir fortemente no clube para lograr em quatro anos voltar à elite do futebol espanhol.

No primeiro ano o Granada recebeu vários jogadores por empréstimo da Udinese e conseguiu a promoção à Liga Adelante, a divisão de prata do futebol espanhol. Instalados na segunda divisão, o clube tornou-se na escola para vários recrutas da equipa de olheiros da Udinese antes da sua integração no conjunto italiano. Com esse apoio directo, os homens de Los Carmenes surpreendem e terminam a época no quinto posto, suficiente para entrar na disputa em play-off do último posto de promoção. Depois de bater na primeira série o Celta de Vigo a equipa logra eliminar o favorito Elche na marca de grandes penalidades e antecipa em dois anos o plano original de Pozzo. Regresso à elite.

Watford, próximo desafio

Enquanto o Granada crescia a olhos vistos e a Udinese se instalava, graças ao génio de Francesco Guidolin, na elite do futebol italiano, Giampaolo Pozzo continuava à procura de investir em clubes com potencial para cumprir o sonho de algum dia deter um clube com legitimas aspirações para brilhar no futebol europeu como um dos seus rivais, Silvio Berlusconi.

Em 2012 o italiano comprou o Watford, antigo clube de Elton John, um histórico do futebol inglês a militar atualmente na League One, as portas de entrada para o universo milionário da Premier League. Depois de um final de época positivo – um 11º lugar para um clube recém-promovido – Pozzo decidiu recorrer a um velho amigo e uma figura lendária do futebol inglês e italiano para devolver o Watford à elite inglesa: Gianfranco Zola.

O antigo técnico do Chelsea orienta atualmente a equipa onde militam – como no caso do Granada – vários jogadores por empréstimo da Udinese bem como jovens promessas descobertas pelos homens de Pozzo das quais o clube de Friuli tem direito preferencial de compra. O objectivo, como no caso do Granada, é lograr a subida de divisão em três anos, mas a posição atual do clube na tabela classificativa permite pensar que o trabalho só agora começou. Enquanto o Granada não só se mantém na elite espanhola como trabalha anualmente para ir trepando postos na tabela classificativa, os ingleses terão de melhorar antes de poder encarar os grandes da elite britânica.

O sonho europeu

Pozzo, entretanto, continua fiel à sua filosofia de futebol de sucesso a baixo custo.

Depois de vender Alexis Sanchez ao Barcelona, utilizou o dinheiro para investir nos equipamentos de treino das camadas jovens da Udinese e para reforçar a sua rede de olheiros mundial, tida já como um exemplo a seguir por homens como Arsene Wenger. O objectivo da Udinese, a médio prazo, é poder lutar pelo título italiano, mas mesmo esse sonho parece complicado face ao investimento anual de clubes como a Juventus, Inter, Milan ou até Napoli.

Os resultados dos últimos anos convidam ao optimismo e talvez algum dia o empresário italiano possa cumprir o sonho de ver os seus clubes desafiar os grandes nos respectivos campeonatos e talvez cruzar-se no caminho da glória europeia.

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