Stubbins, o futebolista de Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band

Na capa mais célebre da história da música moderna há mais de cinquenta figuras ilustres da história do século XX mas apenas espaço para um jogador de futebol. A relação dos Fab Four com o beautiful game sempre foi misteriosa mas a sua genuína admiração por um jogador em concreto ficou plasmada nessa lista de lendas populares, uma homenagem aos primeiros anos dourados da Kop e a um dos seus maestros, Albert Stubbins.

A capa mais famosa da história da música

Foi o melhor jogador do Liverpool na primeira metade do século XX mas a II Guerra Mundial, a ausência da televisão e dos títulos que mais tarde projectaram as imagens da Kop ao mundo converteram-no num ídolo quase esquecido pelos seus.  No entanto, sem Stubbins, o Liverpool do pós-guerra não teria sido capaz de assentar as bases iniciais que, uma década depois, Bill Shankly seria capaz de recolher para elevar o clube a outra dimensão. Talvez por isso, pela aura de eco emocional que o seu nome retinha nas ruas cinzentas da Liverpool dos anos cinquenta, quando quatro adolescentes caminhavam sonhando com blues e golos no último minuto, o seu rosto tenha aparecido, por surpresa, numa das listas mais cobiçadas da história, a dos protagonistas da capa do disco mais célebre da década de sessenta.

Depois do lançamento de Revolver os The Beatles pareciam consolidar-se como a grande referência global da música popular mas durante 1966 o seu estatuto deparou-se com uma inesperada encruzilhada. Por um lado os protagonistas da banda, cada vez mais cansados da celebridade e do estilo de vida da Londres da década de sessenta, mudaram-se brevemente para o Nepal onde começaram a entrar em contacto com a cultura oriental, o budismo e as bases do movimento hyppie do qual se convertiriram rapidamente em embaixadores emblemáticos. Por outro lado, na outra ponta do mundo, os norte-americanos Beach Boys lançavam o álbum Pet Sounds, elevando ainda mais o grau de exigência na nata musical e despertando os Fab Four do seu retiro espiritual para lançar um álbum ainda mais ambicioso. Para além do registo musical único e histórico – desde músicas com orquestas sinfónicas a temas dedicados ao consumo de LSD – o que marcou a imaginação popular com Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band foi a espantosa capa desenhada a meias entre Paul McCartney, Peter Blake e Jann Harworth.

Na preparação para a capa a banda compilou uma lista de personalidades icónicas, dos mais distintos sectores da vida do século XX. No entanto, apesar da imensa popularidade do futebol, preferiram ignorar os grandes mitos do beautiful game – ao contrário daqueles do cinema, pintura, literatura, música ou política, que estão bem representados – com uma honrosa excepção. Muito se debateu de quem partiu a ideia, se de Ringo Starr – o mais amante do jogo dos quatro – ou se de George Harrison. McCartney, fã do Everton, teria reclamado a presença de Dixie Dean, mas sem êxito. O mais provável é que a escolha tenha sido do próprio John Lennon, seguidor do Liverpool, como homenagem aos anos cinzentos da cidade. Aos anos onde Stubbins era a lenda.

Stubbins, o herói do título de 1947

Albert Stubbins chegou a Merseyside em 1946.

A guerra tinha acabado há meses e o jogador tinha pago o preço do conflito e perdido a cinco anos da sua carreira, disputando pelo meio quase duas centenas de jogos amigáveis. Tinha-se afirmado no futebol inglês em 1936 com a camisola do Newcastle, depois de ter passado a infância nos Estados Unidos. Em Tyneside a sua voracidade goleadora fez-se célebre e foi coroado com o herdeiro espiritual de Hughie Gallacher, o enfant terrible desses anos esquecidos do futebol britânico. Oficialmente a guerra só lhe permitiu disputar vinte e sete jogos oficiais com os Magpies – com cinco golos – mas a sua celebridade era tal que o treinador do Liverpool, no reatamento da First Division, não hesitou em aparecer à sua porta para lograr vesti-lo com a camisola vermelha. Parecia ter chegado tarde já que o Everton, igualmente orfão de outro mito, Dixie Dean, tinha igualmente feito uma suculenta oferta ao jogador de tal forma que Stubbins, determinando a abandonar Newcastle, parecia incapaz de decidir-se por um dos dois clubes. Conta a lenda então que sacou uma moeda do bolso e lançou-a ao ar. O seu destino caiu em Anfield Road pela soma recorde de 12,500 libras.

O impacto da nova e determinante contratação de George Kay foi imediato. Tecnicista e possante ao mesmo tempo, Stubbins encaixou com uma luva no WM aplicado pelo clube Red e no seu primeiro jogo, a 14 de Setembro, anotou o golo decisivo na vitória sobre o Bolton. Foi o primeiro de vinte e quatro golos, em vinte e oito jogos disputados, numa liga que o Liverpool acabou por conquistar de forma milagrosa graças à sua liderança emocional e apetite goleador num sprint final a quatro, todos com possibilidades de vencer o campeonato no último dia da temporada, que mediu o líder de então, o Wolverampton contra o próprio Liverpool. O jogo seguia empatado ao minuto 80, o que dava o título aos homens das Midlands, quando Stubbins surgiu para desviar um centro para o coração da área e dar assim um pontapé na classificação final. Os Reds somaram 57 pontos, mais um que Manchester United e Wolves e mais dois do que Stoke City. Há mais de vinte e quatro anos que o clube não celebrava um título e o eco do nome de Stubbins – acompanhado por Lidell, Balmer ou Paisley – ganhou contornos lendários nas ruas de Liverpool e chegou pela rádio às casas onde os jovens Paul, John, Ringo e George começavam a dar os seus primeiros passos.

O herói Red dos Beatles

O estatuto de culto de Stubbins começou a forjar-se nesses anos e permaneceu ao largo dos anos quarenta, à medida que o jogador permanecia como máxima figura de um clube histórico à procura de uma nova identidade. Depois de mais uma temporada como máximo goleador da First Division o seguinte feito de Stubbins foi o de levar os Reds à sua primeira final de sempre da FA Cup, em Wembley, um torneio que os seus vizinhos do Everton já tinham vencido em mais de uma ocasião.

A viagem em peregrinação dos adeptos acabou por ser em vão, com uma dolorosa derrota por 2-0 com o Arsenal – de tal modo que só em meados dos anos 60 é que o clube, com Shankley ao leme, venceu a sua primeira Taça – mas ainda assim a sua evolução competitiva no panorama da exigente elite inglesa era evidente a tal ponto que o seguinte passo foi a critica velada à ausência de convocatórias com a selecção inglesa de Stubbins, um jogador que sempre foi visto de soslaio pelo comité de organização da Football Association que reclamava ter mais confiança noutro perfil de jogadores como os habituais convocados Stan Mortensen, Jackie Milburn, Lee Shackleton, Tommy Lawton ou Tom Finney.

Em 1953, apenas seis anos depois de chegar a Liverpool, e com apenas 34, Stubbins anunciou a sua retirada, fruto de uma serie de lesões mal curadas que lhe começavam a custar cada vez mais a superar. Fê-lo com um ratio goleador como Anfield nunca tinha visto e o estatuto de lenda consagrado de tal forma que depois da sua saída o clube entrou numa espiral decadente acabando por tropeçar na tabela classificativa a ponto de baixar à Second Division, muito distante do lugar onde o futebolista os tinha deixado no apogeu da sua carreira. Convertido em jornalista, como muitos dos seus colegas de profissão à época. Nada podia antecipar que naquele inverno de 1967, quando os primeiros vynils de Sgt. Pepper´s começaram a chegar ás lojas o seu rosto estaria na capa.

Stubbins não sabia sequer que ia estar na capa do álbum mais mítico da história. Descobriu-o uma manhã quando um estafeta dos correios se apresentou em sua casa com um embrulho que continha o álbum e dentro uma inscrição, assinada pelos quatro Beatles. “Parabéns Albert, por todos os teus anos de glória”.  Tinham passado vinte anos desde o seu mítico título conquistado e muitos dos fanáticos seguidores dos Fab Four nem sequer tinham tido a possibilidade de o ver jogar ao vivo mas a memória de Stubbins permanecia viva e a memória da Kop era larga. A mesma bancada que entoava, a uma só voz, os temas do álbum durante cada jogo do Liverpool em casa, recordava, também, que um dia, tempos atrás, um homem do norte tinha baixado a Mersey para fazer história e dar a Anfield a primeira de muitas das alegrias que estavam ainda por chegar.

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