Durante mais de meio século o Belenenses foi a única equipa a poder presumir de ter um título de campeão nacional fora do circuito fechado dos “Três Grandes”. Mas a história podia ter sido muito diferente se os cinco minutos finais do último jogo da edição de 1954/55 não tivessem impedido os de Belém de celebrar o que teria sido o seu segundo campeonato nacional.

Belenenses, um grande por direito próprio

Durante os anos quarenta e cinquenta o Belenenses foi, por direito próprio, um dos grandes do futebol português. A equipa de Belém tinha sido, já nos anos vinte, uma das máximas referências do desporto nacional. Fundado em 1919 graças á iniciativa de um dos maiores jogadores de sempre do futebol luso, o inimitável Artur José Pereira, e rapidamente se impôs como referência nacional ganhando o Campeonato de Portugal em 1927, 1929 e 1933 – sendo igualmente vice-campeão em 1926 e 1932, no total de cinco finais disputadas em sete anos, o melhor registo nacional – com uma brilhante geração de atletas, superando em títulos nacionais até esse período a rivais históricos como o SL Benfica, a quem bateu igualmente, tal como o Sporting, em quatro ocasiões pelo título distrital de Lisboa.

Com a formação do Campeonato da 1º Divisão, os de Belém continuaram a assumir-se como parte da elite nacional fazendo do campo das Salésias, o primeiro a ter relvado em Portugal e o melhor estádio nacional até à inauguração do Jamor, um forte quase inexpugnável. Foram os anos dos “15 minutos á Belém”, das “Torres de Belém” e do histórico título conquistado em 1946. Mas não acabou aí a era dourada dos do Restelo. Graças á contratação de jovens promessas ultramarinas e á excelente formação local, o Belenenses manteve-se como uma das forças mais competitivas no resto da década de quarenta e até finais dos anos cinquenta, protagonizando igualmente a maior venda da história do futebol português, a de José Maria Pedroto ao FC Porto em 1952. Tudo elementos que permitiam aos adeptos do clube sonhar com um segundo título nacional. Um título que esteve a cinco minutos de ser real.

A corrida do Belém rumo ao sonho do segundo título

Em 1954/55 o Belenenses surgia com os seus habituais rivais – Sporting, Benfica e Porto – como favorito á disputa pelo título nacional. A equipa era orientada pelo chileno Fernando Riera mas começou mal a campanha e parecia cedo afastado das contas do título. Á sétima jornada eram quintos, a cinco pontos do líder, o Benfica com quem tinham acabado de perder por 1-2 em casa, um resultado que seria determinante nas contas finais do campeonato. Curiosamente a derrota – antes a equipa já tinha perdido pontos com Barreirense, Atlético e Setúbal – serviu apenas para dar um novo elan aos azuis da cruz de Cristo e o Belenenses arrancou para uma brilhante sequência de resultados, graças sobretudo aos golos de Mateteus e Perez e ás brilhantes exibições do guarda-redes José Pereira e também de Dimas, Figueiredo, Pires, Carlos Silva e de Vicente, irmão de Matateu que ia a caminho de converter-se num dos melhores centrais do Mundo mas que, á altura, ainda jogava como médio ofensivo. A equipa bateu a CUF, o Covilhã, Lusitano de Évora, Sporting e Porto no inicio da segunda volta, colando-se á liderança partilhada com os encarnados. Um empate a zero á vigésima jornada, no recém-inaugurado estádio da Luz, permitiu manter as distâncias mas um tropeção do Benfica contra o Porto deu ao Belenenses, á jornada 23, a liderança isolada com um ponto mais que os encarnados, diferença que se manteria até á última e derradeira jornada, a que ia decidir o título de campeão nacional já com o “tetra” Sporting praticamente fora da corrida – tinha de esperar uma derrota do Benfica e uma vitória por três golos sobre o rival de Belém – e um irregular Porto distante na classificação.

O campeonato ia jogar-se em Lisboa, á distância de um murmúrio. O Sporting visitava as Salésias e o Benfica jogava contra o Atlético. As boas relações entre ambos rivais de cada jogo parecia convidar a imaginar que os triunfos de ambas as equipas estavam quase assegurados e que a classificação não iria sofrer alterações. No próprio dia do jogo o ambiente em Belém era de festa antecipada e a imprensa fazia eco disso mesmo relembrando que só o Belenenses dependia de si mesmo, já que uma vitória lhes dava o título de forma garantida e só um triunfo do Benfica podia por o título em perigo em caso de empate ou derrota.

Do golo anulado a Matateu ao remate sem querer de Martins

A última jornada foi disputada a 24 de Abril, pelas 16h00.

O Benfica cumpriu o seu papel e venceu o Atlético com facilidade, por 3-0, mas na Luz o ambiente era de pessimismo já que ninguém imaginava um tropeção do líder. Os transistores iam dando noticias do que se passava nas Salésias e não eram alentadoras. Aos dois minutos o Belenenses abria o marcador graças a um belo golo de Perez após um passe de Dimas. O estádio estalou de jubilo, ouviram-se foguetes e ao grito de “Belém, Belém”, foi-se fazendo a festa que tantos antecipavam já, de título. Mas rapidamente tudo se torceu. Um penalti muito discutido, aos dezassete minutos, permitiu o empate do Sporting por Albano, e minutos depois, primeiro golo anulado ao Belenenses, a Di Pace, experimentado argentino, por ter tocado previamente o esférico com a mão.

Os nervos começaram a fazer-se sentir até ao inevitável aparecimento do herói do campeonato, o enorme Matateu que depois de novo centro de Dimas pela direita empurrou a bola para a baliza de Carlos Gomes, fazendo assim o 2-1 que voltava a colocar o Belenenses na frente da corrida e com a taça nas mãos. O intervalo apenas serviu para intensificar a sensação de festa e a segunda parte ocorreu praticamente sem incidentes, com os da casa a controlar o jogo, até que a cinco minutos do fim tudo mudou. Matateu surgiu isolado frente a Gomes. O melhor avançado e o melhor guardião lusos num duelo para a história. O dianteiro disparou e Gomes desviou a bola. Os adeptos gritaram golo, os jogadores do Belenenses também e Gomes acenava que não com as mãos. O árbitro decidiu que a bola não tinha entrado. Mas tinha. Muitos anos mais tarde foi o próprio guardião leonino quem confessou publicamente que tinha tirado o esférico já bem dentro da baliza e que o golo devia ter contado. Seria o 3-1 e o ponto final nas dúvidas. Mas foi o início do drama.

Um minuto e meio depois o esférico caiu na área do Belenenses depois de um erro de Figueiredo. Uma sequência de ressaltos coloca a bola nos pés de João Martins que imediatamente dispara e bate José Pereira. As Salésias emudeciam. Os jogadores do Belenenses deixavam-se cair no chão, lágrimas no rosto. O próprio avançado leonino, consciente do que acabava de fazer, não conseguia celebrar o golo e ia abraçar o guardião da casa que inconsolado não se podia levantar do tapete. Dois minutos depois, perante o espanto dos adeptos, o árbitro apitou por última vez. A festa seguia, mas no estádio da Luz.

Um jogo que mudou a história do futebol português

O empate entre leões e azuis tinha deixado tudo em igualdade na liderança do campeonato mas como o critério era o de jogos entre si, o Benfica sagrava-se campeão nacional graças á vitória por 2-1 na primeira volta sobre o Belenenses. Foi apenas o quarto título nacional dos encarnados e podia perfeitamente ter sido o segundo do Belenenses que igualaria então o FC Porto. Nunca um título nacional tinha sido tão intensamente disputado e para muitos o triunfo do Belenenses teria sido de inteira justiça não fosse pela polemica arbitragem do jogo final. Os de Belém nunca mais estiveram tão perto de levantar a taça de campeão e a meados dos anos sessenta deixaram de ser uma força nacional, vendo-se muitas vezes superados por clubes emergentes como o Vitória de Setúbal e Académica primeira e, já nas décadas seguintes, por Boavista, Vitória de Guimarães e Sporting de Braga. Teria algo sido distinto com um segundo título debaixo do braço, é algo difícil de se poder adivinhar mas o certo é que o triunfo em 1955 poderia ter coroado quase quatro décadas em que os homens do Restelo foram, sem dúvida, uma das potências do futebol nacional.

O Benfica de Otto Glória acabaria por perder o título no ano seguinte em condições similares – a célebre final de Calabote que coroou o FC Porto com um triunfo por goal-average – mas estavam lançadas as bases para o início da grande era da história encarnada. O Sporting, carrasco nesse dia, despedia-se da sua idade de ouro entregando o troféu ao seu eterno rival. Naquela tarde de Belém a bola de Matateu que não contou e o golo de João Martins mudaram para sempre o ADN do futebol português.

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