No universo do futebol europeu não existe nenhum país totalista nos grandes torneios internacionais. O país que mais perto esteve desse registo foi a Alemanha. Os germanos não estiveram por vontade própria em alguns torneios e só falharam a qualificação para uma competição por uma ocasião. Nessa tarde, na Albânia, colocou-se ponto final a um registo praticamente imaculado.

Alemanha, o país que só não se apurou para um Europeu

Há apenas uma seleção que nunca falhou um torneio internacional por falhar a qualificação direta, o Brasil. Os canarinhos participaram em todos os Mundiais da história e sempre que falharam a participação numa Copa América – e na sua versão de Torneio Sudamericano – por decisão própria. Os europeus, pelo contrario, sempre tiveram mais dificuldade em ter essa consistência de resultados. Nos últimos trinta anos todas as grandes nações falharam, pelo menos uma vez, uma grande competição internacional. Os italianos e espanhóis não estiveram no Euro 92, os holandeses falharam o México 86 e o Japão/Coreia 2002. A Inglaterra não esteve nos Estados Unidos 94 e no Áustria-Suíça de 2008 e os franceses falharam também o Alemanha 88, o Itália 90 e os Estados Unidos 94.

Só a Alemanha apresentou um registo imaculado. Aliás, salvo por uma ocasião, os alemães sempre tomaram parte nos torneios em que participaram desde a fase de qualificação.
É certo, o historial germânico – e aqui, por Alemanha, estamos a incluir o historial durante a Guerra Fria da República Federal – não é imaculado. Não foram ao Uruguai como quase nenhuma seleção europeia e nos anos posteriores à II Guerra Mundial foram suspensos de tomar parte no Brasil 50. Por decisão voluntária renunciou igualmente a disputar os dois primeiros Europeus, em 1960 e 1964. Quatro torneios sem representantes alemães mas sempre por sanção ou vontade própria. Em campo o registo da Alemanha é quase perfeito. Quase.

Ao assalto do Euro 68

Depois de falhar os dois primeiros Campeonatos da Europa, a Alemanha decidiu finalmente quebrar a sua política de isolamento e aceitou participar na fase de apuramento ao Euro 68. Os germânicos vinham de um grande Mundial, com uma inesperada presença na final, em Inglaterra, e a euforia estava em alta. Os triunfos europeus dos seus clubes nas competições secundárias da UEFA e a aparição de uma geração de jovens promessas, colocavam os alemães na lista dos favoritos para levar para casa o troféu que antes tinha sido conquistado por soviéticos e espanhóis nas primeiras edições. Helmut Schon, o selecionador nacional, sabia que tinha os olhos do país na sua equipa e apesar de não desprezar a competição, não escondia internamente que o seu grande objectivo era o Mundial do México, quatro anos depois, um torneio que queria vencer a tudo custo.
A fase de qualificação para o Europeu resumia-se a duas rondas distintas. Uma fase de sete grupos de quatro equipas e um de três dos quais os vencedores se apuravam para uma ronda a eliminar dos quais sairiam os quatro finalistas. Só nesse momento é que, entre eles, se elegia o anfitrião. O grupo alemão – o único com três participantes – parecia acessível ás aspirações de Schon. Os teutões tinham de medir-se contra a Jugoslávia e a modesta Albânia. Garantir uma série positiva com os jugoslavos parecia ser mais do que suficiente.

O primeiro jogo, disputado em Dortmund, a 8 de Abril de 1967, saldou-se por uma clara goleada por 6-0 contra os albaneses mas o tropeço em Belgrado – derrota por 1-0 – obrigava agora a um triunfo por mais de um golo no jogo da segunda volta contra os eslavos que tinham pior goal-average no seu duelo contra a Albânia. A 7 de Outubro, diante de 70 mil fanáticos no Volkspark de Hamburgo, os homens de Schon deram uma resposta categórica aos seus críticos. Lohr abriu o marcador aos onze minutos mas no reatamento Zambata empatou. Gerd Muller, a ganhar o seu espaço na Mannschaft, colocou de novo os anfitriões a vencer mas faltava ainda um golo para ultrapassar a Jugoslávia na tabela classificativa. O tento chegou a três minutos do fim pelo inevitável Uwe Seeler, a jogar em casa. O pior tinha passado. A Alemanha dependia apenas de si mesma e ambas as equipas tinham agora de cumprir calendário contra a Albânia. Na Jugoslávia a imprensa foi critica com a eliminação da equipa, dando já por assumido o apuramento alemão. Nem a goleada aos albaneses mitigou as criticas. Mas faltava o acto final da tragédia por cumprir-se.

Albânia, o carrasco inesperado

Envoltos num ambiente de autêntica euforia, os alemães aterraram a meados de Dezembro para disputar o seu ultimo jogo da fase de qualificação contra os albaneses. Um mês antes os jugoslavos tinham fechado as suas contas. Eram lideres com seis pontos em quatro jogos, um mais que os alemães que tinham quatro pontos mas um jogo menos e o goal-average a seu favor. Um triunfo pela mínima era suficiente para carimbar a passagem á ultima ronda eliminatória antes da fase final.

20 mil pessoas encheram o modesto estádio de Tirana para receber os vice-campeões mundiais. Schon tinha varias baixas entre os seus habituais titulares. Seeler, Beckenbauer, Muller, Vogst e Maier não estavam disponíveis mas ainda assim alinhou a jogadores como Wolfgang Overath, Willi Schulz, Wolfgang Weber e o flamante Gunter Netzer. Mesmo em serviços mínimos, era um duelo desigual. A euforia inicial dos alemães chocou contra o muro defensivo montado por Loro Borici, selecionador albanês. A memorável exibição de Dinella, o guarda-redes local, fez o resto. A Alemanha Federal procurou o golo por todos os meios mas a bola não encontrou forma de entrar. Em casa ninguém parecia acreditar no que estava a suceder. O apito final quebrou definitivamente a ilusão. A toda poderosa Alemanha estava eliminada pela insignificante Albânia. O Euro 68 não ia contar com um dos grandes favoritos.

O torneio acabou por disputar-se em Itália e contra todo prognóstico os jugoslavos chegaram à final, perdida no prolongamento contra os anfitriões, depois de ter eliminado os franceses na última ronda de qualificação e os ingleses, campeões do Mundo, nas meias-finais. Para a Alemanha a derrota foi um imenso balde de água fria. A partir de aí a sua série histórica arrancou e mantém-se até hoje. O máximo profissionalismo germânico de encarar cada duelo como se fosse decisivo nasceu dessa imensa desilusão em Tirana. Meses depois a Alemanha selava o apuramento para o Mundial do México. Foi o primeiro de uma série de vinte e quatro participações consecutivas entre Mundiais e Europeus – ainda que em 1974, 1988 e 2006, como anfitrião, e 1978 e 1994 como campeão não tivesse sido necessário apurar-se em campo.

Os modestos albaneses, que nunca participaram numa grande competição até se qualificarem para o Euro 2016, meio século depois daquele inesquecível encontro, ficaram com o estatuto de ser a única seleção que, em campo, tombou os gigantes alemães na corrida a um torneio internacional. Nessa tarde de Dezembro de Tirana começou a forjar-se o mito da invencibilidade alemã!

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