O ano em que Ronaldo teve o Scudetto nas mãos

A melhor temporada individual de um futebolistica analisada isoladamente foi provavelmente a que Ronaldo Nazário passou em Barcelona mas o seu ano seguinte, em Milão, não lhe ficou atrás. Num ano que terminou, de forma misteriosa, na final do Mundial em Paris, Ronaldo esteve a um passo de fazer história e romper a malapata do Inter na perseguição pelo Scudetto, a grande liga que nunca ganhou!

Ronaldo, o ano do génio absoluto

26 de Abril de 1998. Que teria sido da história do Calcio se o árbitro Piero Cecarinni tivesse assinalado o evidente penalti cometido pelo central Mark Iuliano sobre uma força da natureza que vestia a camisola do Inter com o nome de Ronaldo nas costas?

A meio da segunda parte, a perder por um golo – um memorável golo assinado por Alessandro Del Piero – e depois de um massacre ofensivo como há muito o Del Alpi não via, o Inter teve nas mãos a oportunidade de empatar o encontro e manter, assim, a diferença de um ponto a quatro jornadas do fim na luta pelo Scudetto, o mesmo Scudetto que não vencia desde 1989. Ronaldo, imparável durante todo o encontro, durante todo o ano, irrompeu pela esquerda na grande área preparando-se para bombardear as redes de Angelo Peruzzi quando Iuliano se atirou à frente, como num gesto sacrificial, para travar a corrida do melhor jogador do mundo rumo à glória infinita. O penalti parecia tão evidente que na transmissão já se via celebrações entre os jogadores do Inter quando Cecarinni, sem pestanejar, mandou seguir o jogo. Ninguém conseguia entender, quanto muito acreditar, que aquilo não era penalti. O “Moggigate”, de anos posteriores, ajuda a explicar e a contextualizar a decisão que marcou uma era. Ronaldo Nazário de Lima nunca venceu um Scudetto. Aquele era o seu.

O jogo terminou com um triunfo agónico da Juventus que assim ampliou a quatro pontos a vantagem, que se manteria até ao final do ano, dando assim à Vechia Signora o ansiado título da Serie A. O Inter, que seria o principal beneficiado, anos depois, do mesmo “Moggigate”, ficaria em segundo, o seu melhor resultado desde 1993. O título teria de esperar pelo menos outros sete anos. O génio brasileiro, esse, nunca o chegaria a saborear. No ano anterior, o ano da sua definitiva explosão como um dos maiores artistas da História do futebol, também a liga se lhe tinha escapado, ele que com o Barcelona vencera tudo o resto – Supertaça, Copa del Rey e Taça das Taças. Agora, repetia-se o cenário.

O Inter venceria a Taça UEFA mas a liga ficava para a Juventus. Dois meses e meio depois, em Paris, Ronaldo Nazário sufriria uma estranha condição que marcaria para sempre a sua carreira. No seu regresso a Milão começaram a chegar as lesões e os quatro anos de calvário até Tóquio e, depois, Madrid, lhe devolverem a felicidade. Mas tudo podia ter sido diferente com aquele penalti perdoado mas não esquecido.

O furacão brasileiro na Serie A

A 30 de Maio de 1997 a novela Ronaldo chegava ao fim.

O brasileiro tinha-se convertido nesse ano de forma inequivoca como a maior estrela do futebol mundial. Nunca o jogo viveu oito meses de actividade tão fora de série de um futebolista como nesse ano, nem sequer nos dias de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. O extra-terrestre que aterrara no verão anterior em Barcelona, via Eindhoven, já tinha vivido um Mundial como campeão (sem jogar) e dois anos de experiência europeia na Eredevise, com a camisola do PSV, mas ainda era um adolescente tardio de 20 anos quando fora apresentado com a camisola do Barcelona. O que se seguiu nos meses seguintes foi história. Golos impossíveis, jogadas para a posteridade, e títulos, muitos. Faltou apenas o fundamental e por isso Bobby Robson perdeu a cabeça e a direcção do Barcelona torceu o nariz à petição do brasileiro em renovar um contrato para ser a estrela mais bem paga do mundo. Um erro crasso que Massimo Moretti não cometeria. O brasileiro aterrou assim em Milão por um valor recorde – 17 milhões de euros – e um salário de lenda. Muitos duvidam que fosse capaz, na exigente Serie A- a melhor liga do mundo – de repetir o ano brilhante que tinha ficado atrás, mais ainda num clube tão esquizofrénico como o Inter. Luigi Simone, o novo treinador, teve à sua disposição não só o recém-chegado brasileiro mas também o argentino Diego Pablo Simeone e o uruguaio Alvaro Recoba, mas também uma espinha dorsal que incluía jogadores de nível mundial como o guarda-redes Pagliuca, os defesas Bergomi, Zanetti e West, os centrocampistas Youri Djorkaeff, Winter e Paulo Sousa e ainda Kanu e Ivan Zamorano no ataque.

A combinação de Ronaldo com essa galeria de estrelas funcionou desde o primeiro instante. Marcou de imediato – frente ao Bolonia – e durante as doze primeiras jornadas o Inter não perdeu um jogo, ao tempo que a sociedade entre Djorkaeff, Zamorano e Ronaldo ia produzindo jogadas inesquecíveis e golos, muitos golos. 18 de Outubro foi o primeiro dia em que o brasileiro não marcou, já na sétima jornada, em Napoli, mas ainda assim o Inter venceu, uma série interrompida a 21 de Dezembro por um golo nos descontos de Oliver Bierofh. Ironicamente seria precisamente um golo o que separaria o alemão do brasileiro na luta pelo troféu de melhor marcador que acabou por ir para o homem da Udinese. O triunfo, na seguinte jornada, frente à Juventus, com um golo de Djorkaeff, não só confirmava que este Inter era um sério candidato ao título – com quatro pontos de vantagem sobre o seu mais directo perseguidor – como também que apesar de tudo, a dependência de Ronaldo não existia. Mas o seu génio sim. E estava a manifestar-se mais audaz do que nunca. O brasileiro tinha-se adaptado rapidamente á dura marcação dos defesas da Serie A e não só se dedicava a marcar como tinha inclusive melhorado o seu registo de assistências. Era uma força da natureza que irrompia sem piedade entre algumas das melhores defesas do mundo numa época onde Lazio, Roma, Fiorentina, Sampdoria, Parma, Milan e Juventus podiam proclamar ter alguns dos melhores planteis do planeta. E todos, sem excepção, sofriam o efeito Ronaldo Nazário.

Do penalti não assinaldo à desforra de Paris

Tudo parecia indicar que o Inter ia finalmente quebrar uma longa travessia no deserto que recuava até 1989 e ao título conquistado pelo trio de alemães – Klinsmann, Bremhe e Mathaus – sobre as ordens de Giovanni Trapatonni. A Juventus era o único perseguidor real dos neruazurri mas para muitos o seu enfoque real era a Champions League, onde o conjunto de Lippi tinha sufrido para superar a fase de grupos, que partilhava com o Manchester United, e onde tinha disputado as duas últimas finais, vencendo em 1996 o Ajax e caindo na época prévia contra o Borusia de Dortmund. A luta entre os dois gigantes permaneceu acesa durante todo o Inverno, com os restantes perseguidores a ficarem cedo pelo caminho. Ao mesmo tempo o génio de Ronaldo fazia-se igualmente sentir na Europa. Na prévia temporada tinha guiado o Barcelona a vencer a Taça das Taças. Agora era a vez da Taça UEFA.

Superados o Neuxatel Xamax, Olympique Lyon, Strasbourg e Auxerre, o Inter alcançou as meias-finais, batendo em Moscovo o Spartak antes de repetir o mesmo resultado, 2-1, no Giuseppe Meazza, deixando para a final – disputada a partido único – o duelo italiano contra a Lazio. Seria em Paris, no Parque dos Principes, a 6 de Maio. Quinze dias depois do jogo marcado com tinta no calendário, o “Derby dItalia” entre os dois candidatos ao título. As derrotas contra Bolonia, Lazio e Parma tinham permitido à Juventus aproximar-se definitivamente do Inter e inclusive ultrapassar o favorito com um ponto de vantagem. A diferença manteve-se durante o mês de Abril, com as duas equipas a vencer os respectivos duelos num jogo de nervos e de expectativa máxima. Todos sabiam que esse encontro, em Turim, ia decidir o título e Ronaldo – determinante como nunca nesse mês e meio entre a derrota contra o Parma e o duelo contra a Juventus – sete golos em seis jogos, anotando em todos eles – tinha vontade de se coroar em casa do grande rival italiano.

O jogo no Dell Alpi media não só Zidane e Djorkaef – meses depois fundamentais no primeiro título mundial gaulês – mas também Del Piero e Ronaldo e ambos responderam. O italiano abriu a contagem ao minuto vinte e um de forma brilhante e o brasileiro passou todo o jogo a medir a baliza de Peruzzi e a deixar louca a defesa dos homens de Lippi. Depois chegou o lance capital, o penalti que ficou por marcar e o título perdido. Quatro pontos com quatro jogos para o final parecia já missão impossível e o Inter atirou a toalha ao chão sobre gritos de roubo que ecoavam desde o Duomo de Milão a quem quisesse ouvir. Simone foi expulso e ainda houve tempo para Cecarinni apontar um penalti duvidoso na área do Inter que Pagliuca defendeu e a expulsão do brasileiro Zé Elias. Tudo o que de mal podia passar, passou.

O empate com o Piacenza e a derrota frente ao Bari, os jogos disputados entre a final da Taça UEFA, apenas confirmaram o título da Juventus que também chegaria à sua terceira final – segunda perdida consecutivamente –  da Champions League. Para lamber feridas, como no ano anterior com o Barça, Ronaldo foi fundamental em desferir uma vingança especial frente à Lazio, que com a sua vitória, permitiu à Juventus ultrapassar o Inter por primeira vez na tabela da Serie A, dois meses antes. Nesse jogo no Parque dos Principes Ronaldo Nazário foi tudo aquilo que tinha sido ao largo de todo o ano e o seu golo para a história, com uma finta de corpo que enganou totalmente Luca Marchegianni, fecharam com chave de ouro um ano que podia ter sido inesquecível a todos os títulos. Depois da Taça das Taças chegava a Taça UEFA ao curriculo do brasileiro. A Champions League, essa, escapar-lhe-ia sempre.

Um mês depois, em Paris, Ronaldo começou a brilhar com a camisola do Brasil e tudo parecia indicar que se iria coroar definitivamente rei do Mundo depois de dois anos loucos e inimitáveis. O seu ataque de epilepsia na véspera da final mudou tudo. O Brasil foi derrotado, Ronaldo voltou a Milão um jogador diferente e o Inter ressentiu-se das sucessivas baixas e lesões do seu astro que não voltaria a jogar mais de cinco jogos consecutivos até 2002. Foram quatro anos de martirio que o transformaram para sempre noutro jogador, totalmente distinto do furacão que rompeu Espanha e Itália em dois anos. E se em Barcelona foi único, em 1998 Ronaldo foi mais do que o rei de Milão. Mereceu ser o rei de Itália e ficou a um penalti de levantar o Scudetto que sempre lhe escapou.

 

 

 

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