O ano em que Itália descobriu o Catenaccio

A sombra de Helenio Herrera e do seu “Gran Inter” é larga mas o técnico das mil caras não foi o inovador que muitos reclamam. A utilização do polémico catenaccio como modelo táctico em San Siro precedeu-o em quase uma década. Os neruazurri foram pioneiros, sim, mas a sua viagem ao universo do futebol defensivo começou no Verão de 1952.

1952, o ano em que ganhar se tornou mais importante

Carlos Masseroni queria celebrar. Mas algo faltava. Algo tão importante como o próprio sabor a vitória. O espetáculo. Durante o ano tinha suportado estoicamente as criticas que vinham de todos os lados. Até dos mais insuspeitos. No final da temporada os críticos tinham motivos para, por uma vez, silenciarem os seus dardos. O que tanto tinham criticado afinal resultara em pleno. O Inter era campeão da Serie A pela primeira vez em doze longos anos. E era-o com uma autoridade insultante. Mas os adeptos não gostavam. Os adeptos tinham saudades, daquele grande Torino que tinha perecida contra Superga. Do jogo ofensivo e espetacular que se transformara em parte da própria identidade do Calcio.

Ao contrario do emblema turinês os neruazurri iam na direção oposta. Estavam determinados em recuperar o seu lugar na história da Serie A – eles que foram, na sua reencarnação Ambrosiana uma das equipas mais poderosas do país até ao deflagrar da II Guerra Mundial – mesmo que para isso o espectáculo tivesse que ficar reservado para segundo plano. O seu treinador, o antigo internacional Alberto Foni, quería vencer. E estava disposto a tudo para consegui-lo. Até para introduzir em Itália um modelo de jogo que ficaria eternamente associado ao país graças ao sucesso internacional de dois dos seus sucessores, o rossonero Nereo Rocco e o mago Herrera.

A metamorfose do Catenaccio neruazurri

Foni foi nomeado treinador do Inter no Verão de 1952. Era um profundo conhecedor do futebol europeu e conhecia perfeitamente a inovação táctica aplicada nos anos trinta na Suíça pelo austríaco Karl Rappan. Chamavam-lhe “Le Verroux” ou “o ferrolho” e consistia essencialmente em reforçar a defesa com um jogador posicionado originalmente no ataque. Um movimento de peças de xadrez que garantia mais estabilidade táctica, maior segurança defensiva e que exigia aos jogadores do sector ofensivo um jogo de maior velocidade e procura de espaços em lugar da posição estática habitual do WM. Para ocupar essa nova posição chave no vocabulário futebolístico, o libero, Foni contratou um futebolista que seria a quinta essência do posto para a eternidade, Ivano Blason.

Forte, autoritário, com uma presença quase assustadora, Blason foi o modelo de defesa italiano até que Arrigo Sacchi conseguiu converter a Franco Baresi num defesa líder numa linha de quatro. Até lá, já nos finais dos anos oitenta, todos os grandes nomes da história da defesa transalpina tinham de alguma forma o ADN Blason. A disciplina táctica era tudo para Foni e por isso o treinador tomou também a polemica decisão de prescindir do talentoso holandês Faas Wilkes pelo voluntarioso Mazza. Foram duas mudanças que se revelaram fundamentais numa equipa que ainda contava com o génio de individual do sueco Skoglund e do húngaro Nyers. A equipa começou a funcionar praticamente de imediato. Marcava poucos golos mas concedia ainda menos e à nona jornada, numa visita a casa da Juventus, um triunfo por 2-0 aliado a uma derrota do AC Milan de Nordahl e Liedholm colocou o conjunto neruazurri como líder solitário da Serie A.

Uma liderança que nunca mais foi questionada. Com uma série de triunfos pela minima que geravam polemica na imprensa milanesa e entre os adeptos, o Inter foi ampliando a vantagem pontual e a 3 de Maio a equipa celebrou a conquista matemática do troféu com uma contundente (e atípica) vitória por 3-0 frente ao Palermo. Tinham sido vinte e quatro golos sofridos em trinta e quatro jogos, um número histórico mas que contrastava com a herança do Torino. O conjunto granata tinha ganhado a sua última liga com mais de cem golos marcados nas mesmas jornadas. Por comparação o Inter ficou-se pelos 46, apenas o sétimo melhor ataque da prova. A Juventus – que terminou a liga em segundo lugar – tinha apontado 73 (sofrendo 40) e o AC Milan marcara 64 e sofrido 34. Nunca o futebol europeu tinha sido confrontado com esta realidade. A defesa triunfava pela primeira vez sobre o ataque numa era onde a harmonia táctica era ainda uma quimera para muitos e o valor individual dos jogadores parecia decidir a maioria dos jogos.

 O pai do Catenaccio italiano

Foni tornou-se num treinador de culto para uma influente minoria – onde se encontrava o mítico jornalista Gianni Brera – mas foi uma figura detestada pelo público em geral por ter provocado a inversão de prioridades, transformando o futebol espetáculo dos anos 40 no futebol resultadista que marcaria até ao Milan de Sacchi a vida do Calcio. Na temporada seguinte o Inter repetiu a façanha, conquistando o bicampeonato de forma quase agoniante. O campeonato foi decidido na última jornada com o conjunto interista a somar apenas mais um ponto que a Juventus. A equipa de Foni já não era a melhor defesa da prova muito por culpa da ausência de Blason em vários jogos – o prémio levou-o a Fiorentina de Fulvio Bernardini que rapidamente tomou o testemunho de maestros do catenaccio – e as suas cifras goleadores tinham melhorado e muito (67 golos marcados) mas a fama tinha suplantado a própria realidade.

O triunfo do Inter foi uma vez mais catalogado pela imprensa como uma vitória para o futebol defensivo sobre equipas mais anárquicas e repletas de individualidades e Foni acabou catalogado como um dos problemas mais graves da sobrevivência do futebol em Itália. Ironicamente, no final da temporada, o técnico natural de Udine – essa escola de Friuli que seria também a de Gippo Vianni, Nereo Rocco ou Cesare Maldini – confessou estar farto de receber criticas por vencer e acabou por abandonar a liderança do Inter para aceitar a oferta de selecionador nacional. A experiência fracassou completamente. A Squadra Azurra vinha de ser humilhantemente eliminada na fase de grupos do Mundial da Suiça mas Foni fez ainda pior, falhando a qualificação para o torneio seguinte, caindo num grupo que incluía Portugal e a Irlanda do Norte. Despedido, tentou recuperar a sua carreira na Roma, primeiro, e no Inter mais tarde – sucedendo ao próprio Herrera que publicamente não teve problemas em afirmar que tinha sido ele o pioneiro do Catenaccio em Milão – mas sempre com registos muito pobres comparados com a sua aventura neruazurri entre 1952 e 1954. A sua herança, no entanto, perdurou.

A transformação do Giocco a la Italiana

A pouco e pouco o Catenaccio foi triunfo na psique dos treinadores italianos. O primeiro sucessor de Foni foi Fulvio Bernardini que na Fiorentina primeiro e no Bologna mais tarde conquistou dois títulos de campeão baseados numa organização defensiva em tudo similar ao do seu Inter. No virar da década de cinquenta a aparição de Vianni e Rocco em Milão e a chegada de Herrera à liderança do Inter foram determinantes para consolidar o modelo. Itália, campeã europeia em 1968 e finalista mundial em 1970, convenceu-se de que o catenaccio era o modelo ideal para o seu ADN futebolístico e adaptou-o no que se converteria no “giocco a la italiana”, sobretudo graças ao sucesso de homens como Giovanni Trapattoni e Enzo Bearzot nas décadas seguintes.

Foi preciso chegar um inexperiente treinador com óculos de sol para a herança de Foni ser, finalmente, questionada. O homem já não viveu para ver o final da sua ideia. Morreu em 1985 depois de ter saboreado o título mundial conquistado por um dos seus discípulos, por uma das suas ideias.

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