A história da Académica de Coimbra parece intimamente ligada às suas gestas na Taça de Portugal mas o clube dos estudantes esteve a ponto de sagrar-se campeão nacional. Em 1967 a “Briosa” empurrou o todo-poderoso Benfica contra as cordas ameaçando por ponto final em quase duas décadas de hegemonia dos três grandes.

A idade de ouro da Académica

Fala-se em Académica, pensa-se na Taça de Portugal. No triunfo na primeira edição. Na final perdida de 1969 que quase que abortou a revolta estudantil por culpa de um golo do implacável Eusébio. Mas se o clube e a festa da Taça quase se confundem na sua essência, o clube coimbrão foi também um importante protagonista no campeonato nacional.

Sem nunca ter sido regularmente uma equipa do pódio, teve os seus momentos de glória. O mais inesquecível de todos esteve a ponto de abalar os cimentos do futebol português. Na ressaca do Mundial de Inglaterra a Académica quase aprovou o mais exigente dos exames, o do título.
A equipa estudantil vivia uma autêntica idade de ouro. Durante os anos sessenta afirmou-se como uma verdadeira potencia nacional, alcançando duas finais de Taça e varias presenças nas competições europeias. Nenhum momento, no entanto, pode rivalizar com a corrida taco a taco pelo titulo de liga durante o Inverno de 1967 com o todo poderoso Benfica. Até Março o conjunto estudante ameaçou a hegemonia encarnada e mesmo depois da derrota em casa contra o líder não desistiu na perseguição. Acabou o campeonato a um suspiro do titulo. Esta é a sua história.

A saga dos estudantes

Em 1966 o ano foi de celebração para o futebol português. O terceiro lugar no Mundial era o corolário de uma década memorável que contava já com três títulos continentais de clubes, as duas Taças dos Campeões Europeus do Benfica e a Taça das Taças do Sporting ao que se juntavam as duas finais perdidas dos encarnados contra o AC Milan e Inter. Eusébio era considerado unanimemente como um dos melhores futebolistas da história e parecia que o futebol luso estava de boa saúde. Coimbra distava muito do epicentro dessa idade de ouro mas debaixo da batuta de Mário Wilson, o “Velho Capitão”, a equipa da Académica ameaçava converter-se numa das sensações da temporada desportiva.

Os estudantes não disputavam uma final da Taça desde 1951 mas não deixavam de ser um ilustre protagonista do futebol português Quartos dois anos antes, tinham terminado a temporada anterior no sexto lugar do campeonato. O quarto posto era mesmo a sua melhor classificação histórica. No plantel dos jogadores-estudantes contavam-se futebolistas como Gervásio, Serafim, Toni, Vítor Campos, Celestino e o goleador Artur Jorge. Sem grande nomes consagrados, Wilson conseguiu montar uma equipa taticamente muito bem organizada que defendia bem e atacava melhor.

O ano começou sem grandes surpresas. Os homens de Wilson desde cedo se colocaram na parte alta da tabela, anunciando uma temporada aparentemente tranquila. Depois de ganhar o jogo inaugural a derrota com a CUF, na segunda jornada, não antecipava grandes voos. Com quatro encontros dos vinte e seis disputados, os estudantes eram quartos, com menos dois pontos que o Benfica e os homens do Barreiro. Na jornada seguinte visitaram o estádio da Luz e foram batidos por um 2-1 enganador. Foi um resultado negativo mas que serviu de inspiração para a equipa. Á décima jornada, com mais de um terço de campeonato disputado, a Académica tinha trepado até ao segundo lugar, com apenas dois pontos de atraso do Benfica. O triunfo contra o Sporting, duas jornadas depois, levou as duas equipas a partilharem a liderança com vantagem para as “Águias” no confronto direto.

Os golos de Artur Jorge eram fundamentais no esquema de Wilson mas a prestação defensiva dos estudantes não conhecia igual. Wilson tinha montado uma formação rocosa que raramente concedia oportunidades e sabia aproveitar como poucos os erros do contrario. A primeira volta terminou com essa igualdade pontual num verdadeiro jogo de nervos que o Benfica não contava, em particular face aos tropeções dos seus históricos rivais, Porto e Sporting, relegados a atores secundários na temporada. A jornada decisiva aconteceu a 26 de Fevereiro. O Benfica visitou Alvalade e cedeu um empate deixando à Académica a oportunidade única de isolar-se na liderança. Os homens de Wilson desaproveitaram por completo a oportunidade e não foram além de um empate contra o FC Porto de José Maria Pedroto. Foi um balão de oxigénio para Eusébio e companhia que à 18 jornada visitou Coimbra como líder provisional.

O duelo com o Benfica

Foi um jogo de nervos e de tensão com mais de 40 mil adeptos nas bancadas do Calhabé. Os encarnados tinham já sido eliminados da Taça de Portugal pela Académica (que tinha deixado pelo caminho nas rondas anteriores a Oliveirense, Leça, ASA de Angola antes de tombar os encarnados. A desforra benfiquista chegou na cidade universitária. A lesão de Curado, aos 36 minutos, deixou a Académica com apenas dez jogadores de campo. Os homens de Wilson resistiram o que puderam mas o golo solitário de Nelson Fernandes, no inicio do segundo tempo, terminou por valer um titulo.

A perseguição continuou, nas seguintes jornadas, mas foi a Académica que terminou por ceder um comprometedor empate com o Leixões a três jogos do fim que entregou o titulo de bandeja ao rival. A diferença de três pontos manteve-se inalterado. O Benfica colocou o pé no acelerador e o próprio Eusébio terminou por superar Artur Jorge na luta pela Bota de Prata com 31 golos, seis mais do que o futuro avançado do Benfica. A melhor defesa do campeonato – com apenas 18 golos sofridos – essa continuou na posse da equipa estudantil que ainda selou o final de ano com a classificação para a final da Taça de Portugal, eliminando o Braga.

No Jamor o triunfo acabou por cair nas mãos do Setúbal de Fernando Vaz e a equipa de Wilson teve de assumir um segundo titulo perdido em questão de semanas. Ainda assim o ano terminou com a melhor classificação histórica de sempre. Pela primeira vez a Académica superava a barreira dos 40 pontos – estavam em jogo 52 pontos – e assumia o segundo lugar que lhes valeu um bilhete para a Taça das Cidades com Feiras do ano seguinte. Dois anos depois os homens de Wilson voltaram a uma final da Taça, em plena efervescência estudantil. Uma vez mais o Benfica foi o carrasco das ambições da Briosa e o titulo ficou de novo adiado.

Os anos da decadência

A crise estudantil de 1969 abriu caminho a uma equipa de convulsões internas que terminou com a despromoção do clube à II Divisão, a cisão da entidade com a associação estudantil e o ponto final na era dourada da história do clube que perdeu os seus melhores jogadores-estudantes e também o seu treinador. Nas décadas seguintes a Académica de Coimbra iria viver, essencialmente, do prestigio acumulado até levantar a sua segunda Taça de Portugal em 2012 no Jamor.

No entanto, o que caiu no esquecimento, foi o ano em que a Académica esteve a ponto de ser campeã. No final os estudantes foram superados no confronto direto – os pontos decisivos – por uma das quatro melhores equipas da Europa da sua geração. No ano seguinte aquele mesmo Benfica voltaria à final da Taça dos Campeões Europeus, feito que serve apenas para realçar o mérito da campanha doméstica daquela formação coimbrã, que lutou até ao último suspiro por um titulo que teria sido histórico, o primeiro desde o conquistado pelo Belenenses nos anos quarenta longe das mãos de Benfica, Sporting e Porto. O futebol português só celebrou o titulo de um outsider mais de trinta anos depois.

A Académica continua à espera da sua oportunidade. Talvez nunca chegue. Aquele mágico ano de 1967 continua a ser um cometa mágico na história inesquecível de um clube com uma alma muito especial.

1.541 / Por