O 4-2-4, a inovação táctica mais brasileira

Incapazes de se adaptar à rigidez táctica dos sistemas importados do futebol europeu, os brasileiros procuraram depois do “Maracanazo” de 1950 uma resposta táctica ao dominante WM. Martim Francisco, treinador do Vila Nova MG, operou um ano depois a revolução que iria mudar para sempre a história do futebol brasileiro. Assim nascia o 4-2-4.

Resposta à influência centro-europeia

Depois da derrota frente ao Uruguai no jogo que simbolicamente ficou para a história como a final do Mundial de 1950 (que realmente foi decidido numa liguilha a quatro), o Brasil entrou em choque. Mais do que procurar os culpados da derrota que abalou o país, o futebol brasileiro tentou reencontrar-se e definir um rumo para o futuro. Como explica Jonathan Wilson na sua obra Inverting the Pyramid, “A derrota de 1950 fez ao Brasil o que a derrota de 1953 com a Hungria fez ao futebol inglês. Obrigou-os a redefinir a sua forma de olhar o jogo e procurar soluções de futuro.” Ambas as seleções acabariam por ver recompensadas as suas metamorfoses, sagrando-se campeões do Mundo. Mas o caminho brasileiro foi ainda mais além da colecção de titulos que chegou a partir de 1958. Ajudou a definir um dos sistemas tácticos que enterrou definitivamente o caduco WM: o 4-2-4.

O futebol brasileiro foi fortemente influenciado pela escola centro-europeia essencialmente porque houve vários técnicos de ascendência hungara e austriaca que chegaram ao Brasil nos anos 40 para fugir da guerra e aplicaram os ensinamentos de Jimmy Hogan aos seus novos pupilos. Entre essas figuras, a mais importante foi sem dúvida Dori Kurschner, um técnico que merece uma reporagem à parte. Mas todos esses nomes, incluindo o do famíliar Bella Guttman, que passaram pelo futebol brasileiro mantinham-se fieis aos WM e a derrota de 1950 tinha deixado a evidência que o sistema táctico importado da Europa já não era tão infalível como aparentava. A primeira variante do modelo europeu, a Diagonal, foi aplicada no Flamengo por Flávio Costa – que mais tarde treinaria em Portugal – mas não era mais do que um pequeno ajuste táctico que não mudava em demasia a filosofia por detrás do sistema de Chapman. Foi preciso um clube modesto, o Vila Nova, e um treinador quase desconhecido, Martin Francisco, para despertar o futebol brasileiro para uma nova realidade.

A importância do lateral ofensivo

Vila Nova é uma pequena cidade a 20 kilómetros de Belo Horizonte, longe da confusão urbana do Rio de Janeiro e São Paulo. Um lugar dificil de imaginar se pensamos no berço de um sistema táctico revolucionário. Mas o que logrou Martim Francisco foi precisamente isso. Inspirar-se na essência do futebol brasileiro e soltar-se dos esquemas tácticos europeus.

Na véspera do duelo contra o vizinho Atlético Mineiro, em 1951, o técnico do Vila Nova decidiu mudar a formação standard da sua equipa, a jogar em WM, para aproveitar a classe dos seus dois defesas centrais. Se a táctica inglesa obrigava a jogar com apenas um central e dois laterais, a opção de retirar um homem do miolo e reforçar a defesa fazia ainda mais sentido porque o rival dessa tarde, treinado por Dorival Yustrich, futuro técnico campeão português com o FC Porto, tinha o ataque mais concretizador do torneio estadual. A metamorfose não resultou apenas nesse jogo. Com o novo desenho táctico, Francisco conseguiu equilibrar as linhas defensivas e ofensivas e ao apostar num meio-campo de dois homens, possibilitou o desenvolvimento de um dos elementos tácticos mais marcantes do futebol brasileiro: o lateral ofensivo.

A influência no Brasil de 1958

Com dois defesas laterais rápidos a aparecer na zona de finalização, o Vila Nova actuava num 4-2-4 no papel que, com a bola, se podia transformar facilmente num 3-3-4, com um dos avançados a recuar ligeiramente para juntar-se ao meio-campo. A modesta equipa suburbana superou todas as expectativas e venceu nesse ano o campeonato estadual com uma equipa onde despontavam Foguete e Chumbinho. O sistema de Francisco foi rapidamente copiado por vários técnicos mineiros, incluindo o próprio Yustrich, mas foi em 1953 quando outro técnico icónico do futebol sul-americano, o paraguaio Fleitas Solitch, o aplicou com sucesso no Flamengo.

Com um maior cartel e exposição mediática, o 4-2-4 tornou-se no sistema táctico preferido do futebol brasileiro e os três titulos consecutivos conquistados pelo “Mengão” entre 1953 e 1955 confirmou a sua supremacia. Quando o Brasil chegou à Suécia, três anos depois, para disputar o Mundial, a seleção treinada por Vicente Feola já tinha assimilado o novo sistema táctico por completo com dois extremos bem abertos (Garrincha e Zagallo) um ponta-de-lança solitário (Vavá), um falso avançado (Pelé) e dois laterais de caracteristicas bem ofensivas (Nilton e Djalma Santos). Com esse modelo o Brasil seduziu o mundo, venceu o torneio e começou a forjar a sua lenda.

Não faltaria muito para que o 4-2-4 desse lugar ao 4-3-3, outra táctica forjada no país do samba, mas a popularidade da ideia de Martim Francisco perdurou largos anos no tempo. Quando o Vila Nova voltou a vencer um troféu, a Serie B de 1971 (o primeiro campeonato nacional de segunda divisão da história do país) fê-lo ainda usando as mesmas ideias do homem que mudou para sempre o rosto do futebol brasileiro.

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  • Rogério Ferreira

    O time, na verdade, se chama Villa Nova, com dois “L”. E a cidade atende pelo nome de “Nova Lima” e não “Vila Nova”, como descrito no texto.