Números Retirados – as camisolas históricas

No futebol há poucas formas de homenagear um mito do passado. Uma das mais populares é a de retirar a camisola historicamente associada a esse jogador. Nos últimos anos têm sido cada vez mais os clubes que retiram oficialmente números dos seus equipamentos. Uma decisão que para muitos adeptos, no entanto, continua a ser bastante polemica.

Um fenómeno recente

Pode herdar-se o número de um mito e viver de acordo com as expectativas?

A cultura dos clubes do norte da Europa acredita que os números pertencem ao imaginário colectivo mas, mais ainda, à essência do clube. No sul da Europa – e por conseguinte, na América Latina – a identificação individual de um nome com um número é muito mais poderosa. Duas formas de olhar para essa histórica conexão que explica, em parte, a grande diferença de números retirados oficialmente entre clubes de uma e outra esfera.

A cultura de retirar números de camisola para muitos é uma manobra de marketing recente. Um modelo norte-americano aplicado por vários clubes da NFL ou da NBA, com o mítico Michael Jordan (e o seu 23) à cabeça. Mas, nos desportos norte-americanos, nunca existiu a disciplina numérica do futebol europeu. Desde o principio que todos os números do 0 ao 99 estavam disponíveis e o número de escolhas é e sempre foi, bastante alargado. O futebol europeu viveu, até aos anos noventa, a cultura do 1-11 e salvo raras excepções, os grandes mitos do jogo cresceram com uma só camisola durante toda a sua carreira. A mesma que era dos seus antecessores, a mesma que passou aos seus sucessores.

As excepções britânicas

Em Manchester, por exemplo, o número 7 foi de Duncan Edwards antes de ter chegado, tragicamente, a George Best. De aí passou por vários jogadores até chegar primeiro Brian Robson e depois Eric Cantona, o homem que fez dele o seu trade-mark. Até ao francês ter aterrado em Old Trafford, os números podiam ser alterados em cada jogo. Best jogou com o 11 e com o 10 e Robson vários encontros com o número 10. Com Cantona começou uma nova moda perpetuada desde então por ícones globais como David Beckham e Cristiano Ronaldo. Retirar o número 7 nunca foi parte da equação do clube e essa é a filosofia do futebol inglês.

Na Premier League atual só Bobby Moore – capitão da seleção campeã do mundo e do West Ham – e Gianfranco Zola, ex-jogador do Chelsea, foram alvos dessa homenagem. No entanto, no caso de Moore a decisão foi apenas tomada em 2008, vários anos após a sua morte. E o 25 de Zola não se encontra oficialmente retirado, existindo apenas a tradição interna do clube de não atribuir o número a nenhum jogador de forma extra-oficial.

Camisolas históricas, as lendas italianas

Na Europa continental a dimensão popular dos jogadores supera, muitas vezes, a própria cultura de clube. Tal como na América Latina, aqui a vontade expressa, muitas vezes pelos próprios adeptos, é radicalmente distinta e nos últimos vinte anos vários foram os números oficialmente retirados pelos clubes. Em nenhum país se vive com tanto fervor esta dedicação como em Itália. Trata-se do país com mais números retirados na história, um total de 17.

Os casos mais emblemáticos estão em Milão.

O AC Milan retirou, imediatamente após o fim da carreira dos seus dois míticos capitães, os números 6 e 3, que durante quase duas décadas foram utilizados por Franco Baresi e Paolo Maldini. O caso do defesa esquerdo é especial. Maldini acordou com os dirigentes do clube que o número poderia ser utilizado de novo com uma notável excepção: se no plantel principal do AC Milan estivesse algum dos seus filhos ou netos.

No vizinho Inter, a lenda da década de 60, Giachintto Fachetti, também teve direito, ainda que a título póstumo, a que o seu habitual número 3 fosse retirado de circulação pelo clube. Mais paradigmáticos são os casos do Brescia que retirou oficialmente o número 10 em homenagem a Roberto Baggio, ainda que o jogador tenha estado no clube apenas quatro temporadas. O outro numero retirado pelo clube, o 13, deve-se à morte de Vittorio Mero. Ele, como tantos outros casos, devem a retirada do número não a uma homenagem de um mito histórico do clube mas por ter falecido enquanto servia o clube. O seu caso é similar ao de Miklos Feher (o 29 do Benfica), de Antonio Puerta (o 16 do Sevilla), Marc Vivien Foé (o 17 do Olympique de Lyon, durante seis temporadas) ou o de Daniel Jarque, o 21 do Espanyol.

Devolver o número aos ídolos do futuro

O debate da retirada de números afecta tanto a adeptos como organizações.

Diego Armando Maradona foi homenageado pela federação argentina em 2001, que retirou o número 10 das cores albicelestes. No entanto, um ano depois, quando foi apresentada a lista oficial para o Mundial da Coreia do Sul e Japão, a FIFA rejeitou a petição dos argentinos de jogar com um número 24 no lugar do 10. Ariel Ortega acabou por ser o destinatário da mítica camisola que desde então voltou a ser usada com regularidade. Ao génio argentino resta-lhe a consolação de que em Nápoles o seu 10 ainda é sagrado!

Há vários casos de retiradas de camisolas pontuais. Em Colónia o número que pertenceu a Lukas Podolski, o 10, estará fora de circulação apenas durante a carreira do jogador. Na Roma o número 6 de Aldair esteve fora das escolhas durante uma década mas está de novo no ativo.

Sobretudo começa a nascer uma contra-cultura dos próprios jogadores homenageados que exigem que os seus números permaneçam ativos para permitir a outros jovens jogadores cumprir o sonho de jogar com a camisola que foi dos seus idolos.

O primeiro caso desta nova corrente surgiu em Livorno.

Igor Protti, histórico avançado da equipa livornesa, viu como o clube retirava de circulação o número 10 mas, durante anos, pediu publicamente que o número fosse colocado de novo em ativo, algo que sucedeu efetivamente em 2008. Também no país transalpino, jogadores como Francesco Totti, o histórico capitão da AS Roma, já fizeram saber que não querem que os seus números sejam retirados no final da sua carreira desportiva. Em alguns casos os clubes limitam-se a dedicar os números mais simbólicos aos adeptos ultras.

No total existem na atualidade 133 números oficialmente retirados nos cinco continentes. Para alguns adeptos é uma homenagem merecida a quem contribuiu para a glória do clube. Para outros a impossibilidade de que o futuro traga consigo um novo ídolo das bancadas com a mesma camisola ao peito. Um debate sem fim à vista.

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