A frase “o adepto é o 12º jogador” é quase tão antiga como o futebol. Nos últimos anos, fruto do marketing dos desportos norte-americanos, vários clubes de futebol decidiram levar a frase à letra e retirar o número 12 das suas equipas. Camisolas retiradas para homenagear os seus adeptos.

Número 12, os adeptos como protagonistas

Um clube de futebol sem os seus adeptos é uma massa cinzenta, sem expressão.

Durante décadas o sucesso e decadência dos clubes andou de mão dada com a sua massa associativa. Os clubes transformados em referências nos seus países conseguiram-no por títulos mas também por volume de seguidores. E muitos dos nomes que foram grandes ao longo do passado sofreram uma inevitável decadência à medida que a sua massa adepta foi encolhendo.

Nos desportos norte-americanos o papel do adepto sempre foi altamente valorizado.

A ideia democrática norte-americana mergulhou bem nos conceitos de marketing moderno e vários clubes de diferentes desportos tiveram, desde os anos oitenta, gestos de reconhecimento ao apoio dos seus seguidores. Uma das formas mais populares de o conseguirem passava por retirar números icónicos dos seus planteis e dedicá-los aos seguidores. A moda atravessou o Atlântico nos anos noventa, coincidindo também com o fim de uma herança histórica e emocional: os onze titulares.

Até à década de noventa a maioria dos clubes e seleções actuavam com um alinhamento composto por jogadores equipados do 1 ao 11.

A camisola 12 era a primeira por utilizar e portanto o conceito de 12º jogador foi reservado ao público adepto, ao que era capaz de ganhar jogos com o seu incentivo em bancadas míticas como a Kop ou as “curvas” dos estádios italianos. O fim da obrigatoriedade de utilizar as camisolas com os primeiros onzes números abriu ao marketing desportivo a realidade de quase noventa números novos disponíveis. E também retirou sentido emocional à camisola 12.

Do Japão ao Brasil, o simbolismo do doze

A moda de retirar a camisola 12 de forma oficial começou, curiosamente, no Japão.

A J-League foi criada nos anos 90 para revolucionar a relação dos japoneses com um desporto ainda estranho para muitos. Numa hábil manobra publicitária os recém-criados clubes, muitos deles sem qualquer história, dedicaram o número 12 aos adeptos e proibiram qualquer um dos seus jogadores de o utilizar. A moda conquistou rapidamente o coração de seguidores em todo o mundo, conscientes de que o seu papel centenário estava a ser, finalmente, valorizada. E rapidamente saltou para outros continentes.

Na Europa teve particular incidência nas ligas italiana e alemã.

Ao longo dos anos noventa vários clubes históricos retiraram a camisola 12 de forma oficial, entre os quais o Bayern Munchen, Borussia Monchengladbach, Genoa, AS Lazio, AS Parma, Atalanta e Werder Bremen.

Nos anos seguintes o fenómeno estendeu-se gradualmente à América Latina. Aí apenas a proibição da própria confederação local perturba uma tradição que se enraizou profundamente em clubes como o Boca Juniores, Atlético Mineiro e Flamengo. Nos torneios continentais as equipas são obrigadas a atribuir esse número a um jogador (habitualmente o terceiro-guarda redes que raramente joga) mas nas provas nacionais a camisola fica sem atribuir.

Da Escócia à Holanda, da Turquia à Polónia, durante o século XXI multiplicaram-se os clubes que retiraram as camisolas 12 em homenagem aos adeptos. Em total existem atualmente 120 clubes cujas camisolas 12 estão oficialmente retiradas em nome dos adeptos.

Entre eles estão históricos como o PSV, Dinamo Kiev, Hadjuk Split, Club Brugge, Sparta Praga, Fenerbache, Feyenoord, Bessiktas, Glasgow Rangers, CSKA Moscovo, Ferencvaros ou FC Basel.  Clubes que procuraram homenagear publicamente os seus adeptos com um gesto que tem tanto de comercial como de emocional.

Os casos portugueses

Curiosamente, salvo pelo caso italiano, o fenómeno tem pouca presença na cultura da Europa do Sul. Em Espanha e na Grécia nenhum clube retirou oficialmente a camisola 12 para os adeptos. Os gregos do Panatinaikhos retiraram outro número, o 13, que corresponde à porta por onde entra a sua claque oficial.

Portugal é a honrosa excepção.

O Sporting Clube de Portugal tornou-se no segundo clube luso a retirar oficialmente a camisola doze de todas as suas equipas profissionais como homenagem aos adeptos leoninos. Um passo histórico dentro dos grandes do futebol mediterrânico mas que em Portugal conta com um precedente anterior.

Em 2010 o Vitória SC de Guimarães aprovou em Assembleia-Geral retirar a camisola doze como homenagem a uma das mais populares massas adeptas do país. Foi a primeira vez que um gesto de uma direção aos adeptos no campeonato português incluía o reconhecimento do 12º jogador.

Inevitavelmente, sendo o futebol um desporto gerido por modas, é bastante provável que nos próximos anos os clubes continuem a seguir esta política recente de homenagear os seus seguidores desta forma simbólica. Uma forma de reforçar os laços emocionais com o clube mas também de potenciar as vendas de produtos desportivos com o famoso número às costas.

Tradição, sentimento e dinheiro, uma combinação poderosa que o futebol como um dos mais lucrativos negócios do século XXI seguramente tratará de aproveitar. O 12º jogador já não decide apenas nas bancadas.

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