Nou Mestalla, o estádio que espelha a crise imobiliária

Um dos maiores motivos por detrás da atual crise financeira foi a especulação imobiliária. Em Espanha nada melhor representa esta tenebrosa relação entre instituições bancárias, promotores imobiliários, empresas de construção e clubes de futebol como o Nou Mestalla. Há três anos que o novo estádio do Valência está paralisado transformando-se numa ruína a céu aberto, o espelho perfeito da crise que vivemos.

O orgulho do Levante

Quando o Valência venceu a liga espanhola de 2004, sob o comando de Rafa Benitez, a directiva do clube começou a pensar por em prática um velho sonho. O clube vivia a sua etapa mais gloriosa. Em cinco anos tinha ganho dois campeonatos, marcado presença por duas vezes na final da Champions League e acabava de vencer a Taça UEFA. Contava nas suas filas com alguns dos melhores jogadores do Mundo, era uma potência respeitada internacionalmente e sentia-se preparada para olhar nos olhos tanto a Real Madrid como a Barcelona. Chegava a hora de transformar o sucesso desportivo em algo palpável. Em algo para a posteridade.

O estádio Mestalla, novo nome dado ao antigo Luis Casanova, um dos mais influentes presidentes da história do clube, tinha sido originalmente construído em 1923. Sofreu várias reformas ao longo dos anos mas a última datava já da década de 80, altura em que recebeu vários partidos do Mundial de 1982. O máximo accionista do clube, um dos grandes nomes por detrás da construção civil no levante espanhol, Juan Soler, decidiu então aprovar o projeto para um novo recinto, à altura dos mais modernos estádios do mundo. O Nou Mestalla (ou Nuevo Mestalla), teria lugar para 77 mil espectadores, 25 mil mais dos que atualmente preenchem o estádio do Valência em dias de lotação esgotada. Seria desenhado inspirado no Stade de France e segundo o clube era a cereja que faltava no topo do bolo para colocar o clube definitivamente entre a elite europeia. Na realidade, acabou por ser a principal razão da sua queda.

O preço da especulação imobiliária

Soler decidiu em 2004 pedir um avultado empréstimo bancário para construir o novo estádio. Contactou várias instituições, entre as quais Bancaja, a caixa autonómica valenciana, conhecida por ter negócios preferenciais com o governo autonómico dirigido pelo Partido Popular e presidido pelo polémico Francisco Camps.

O orçamento original para a construção do estádio rondava os 300 milhões de euros mas Soler pediu um empréstimo no valor de 400 milhões, com baixa taxa de juro, para garantir que a mudança de casa não afectava o destino da equipa. A sua ideia passava por vender os terrenos do estádio atual, situado numa zona mais cêntrica da cidade, pelo dobro do valor a empresas associadas aos construtores que trabalhavam com o governo local e autonómico. Como só podia vender o velho estádio quando o novo fosse construído  estabeleceu-se em 2007 um prazo de três anos para terminar a obra e permitir a mudança do clube para o novo recinto em 2010. Mas quando a borbulha imobiliária estalou definitivamente, a par da crise financeira norte-americana, os planos de Soler foram completamente estilhaçados. O presidente retirou-se, “por motivos de saúde”, deixando um passivo de 600 milhões de euros.

Não apareceu nenhum comprador para os terrenos do velho Mestalla que fosse capaz de oferecer mais de 200 milhões de euros pelo terreno, metade do empréstimo original. A comunidade valenciana, que através do seu presidente tinha patrocinado o negócio, foi salpicada por vários escândalos de corrupção, ligados precisamente a negócios imobiliários e Camps foi forçado a demitir-se, deixando o clube sem avalista.

Vender a alma ao diabo

Em 2009 o dinheiro deixou de entrar e as obras pararam. O Valência vivia um dos piores momentos da sua história financeira e pouco a pouco foi-se desfazendo das suas estrelas. David Silva, Juan Mata, David Villa, Jordi Alba, Joaquin, a pouco e poucos foram vendidos muito abaixo do seu valor de mercado para ajudar a pagar o empréstimo original, mas não era suficiente. Nos últimos três anos o estádio vive no limbo. Metade da construção está realizada e pode ser visitada por quem se atreve a saltar as valas de segurança. O recinto tão moderno que foi apresentado com pompa e circunstância transformou-se na versão levantina do Coliseu romano. Abandonado, a cair aos pedaços, consciente de que qualquer tempo pretérito foi melhor.

Quando Bancaja foi absorvido pela caixa da capital, Caja Madrid, fundindo-se num novo banco, Bankia,  a crise pregou o caixão definitivo no futuro do Nou Mestalla. Inicialmente o novo banco parecia ser a porta de salvação para o clube. Comprou 70% das ações, nomeou um novo presidente e prometeu fazer-se cargo às construtores da divida do clube para as obras serem retomadas. Mas meses depois o próprio Bankia foi resgatado pelo governo, com uma dívida incomportável, e a crise voltou a bater à porta do clube. Agora já não era só o recinto que pertencia ao banco, também o próprio clube deixou de ser financeiramente independente. As dividas acumuladas com a Comunidade Autonómica Valenciana levaram os seus novos directivos a tomarem controlo dos destinos do Valência. O clube está à venda mas ninguém se atreve a comprar uma entidade com uma divida de 400 milhões e um estádio semi-construído e abandonado.

O Nou Mestalla simboliza tudo aquilo que significa a crise financeira europeia. Uma complexa rede de tráfico de influências entre personalidades políticas, empresários de construção, entidades bancárias e instituições desportivas e públicas, que durante quase uma década viveram muito acima das suas possibilidades, com as suas utopias e sonhos por concretizar. Quando a realidade bateu à porta, a ressaca tornou-se insuportável e o estádio que ia ser o farol do Mediterrâneo tornou-se num dos seus muitos buracos negros.

11.993 / Por
  • Bruno Silveira

    artigo muito bom… parabens… tinha ficado a perguntar-me o que tinha acontecido com o novo estadio do valencia e comecei a pesquisar porem esta noticia foi de longe a mais completa… parabens.

    • Miguel Lourenço Pereira

      Obrigado Bruno!

  • Marcelo Rodrigues Santos

    Minha nossa que situação, pessoal gosto muito de acompanhar o futebol espanhol, foco bastante na estruturas dos times em vários aspectos e sempre fiquei me perguntando quando essa obra de outro mundo acabaria, portanto aos responsáveis por essa matéria só me resta dizer: OBRIGADO TUDO FICOU PERFEITAMENTE ESCLARECIDO, MATÉRIA EXCELENTE!!
    Por fim torço para que o Valencia e pelo que ele representa volte a sorrir e saia desse buraco que já bate na China!!!