Nottingham Forest, o primeiro clube que vestiu de vermelho

Quantos clubes hoje utilizam a camisola vermelha nos seus equipamentos? O número já está na casa dos milhares. Mas houve um clube pioneiro em fazer do encarnado a sua cor. E com um motivo político como justificação. A saga do Nottingham Forest e de Giuseppe Garibaldi marcaram para sempre a história do futebol.

Os herdeiros de Robin Hood

O futebol moderno nasceu em Nottingham mas o Forest não estava na equação.

Foi o seu vizinho, o Notts County, o primeiro clube profissional do mundo, quem deu o pontapé de saída para a grande aventura do beautiful game. Aconteceu em 1862. Três anos depois, um grupo de amigos habituado a jogar hockey (no gelo e em patins) nos tempos livres, decidiu que estava na hora de que a cidade do centro de Inglaterra tivesse um novo clube. O grupo reunia-se num pub chamado Clinton Arms. Numa animada noite, entre cervejas, a ideia começou a ganhar forma. Quando a discussão entrou no campo dos nomes, o grupo decidiu de forma unânime unir a cidade a um dos seus maiores simbolos, a vizinha floresta de Sherwood, palco das aventuras do célebre Robin Hood. Tinha nascido o Nottingham Forest and Bandy Club.

A equipa foi rapidamente inscrita na liga local e disputou contra o seu vizinho, os “Magpies”, os seus primeiros encontros oficiais. O Notts County equipava de preto e branco, com tiras verticais. Um equipamento que, anos mais tarde, inspirou a Juventus a trocar o seu cor-de-rosa original pela versão mais tradicional e britânica do clube mais antigo do mundo. No primeiro jogo, os jogadores do Forest apareceram em campo com camisolas brancas. Quatro anos depois, os seus equipamentos tinham sido modificados de forma surpreendente. Eram compostos por uma camisola totalmente vermelha, a primeira equipa a utilizar essa cor no seu equipamento oficial. O vermelho existia já, noutros equipamentos, mas sempre em forma de tira vertical. Jogar todo de vermelho era um desafio. A cor estava associada ao movimento proletário e socialista e a maioria dos clubes tinha receio de receber uma conotação política. Mas a decisão de jogar assim por parte dos dirigentes do Forest não tinha nada a ver com o comunismo e o socialismo. O que não quer dizer que não tivesse a sua justificação política.

A influência de Garibaldi

Em 1854, Giuseppe Garibaldi regressou a Itália de um curto exilio nos Estados Unidos.

Tinha sido um dos principais protagonistas da primeira guerra da Independência italiana, um conflito armado entre as repúblicas do norte de Itália e os vizinhos franceses e austriacos. O tempo da República ainda não tinha chegado mas Garibaldi tinha acumulado experiência política e militar na década anterior para preparar uma nova investida. Quatro anos depois, o seu exército de confiança, decidiu voltar a entrar em ação com o objectivo de unificar os estados italianos num só, sob o controlo de Vittorio Emanuelle, o governador do Piemonte. Os seus soldados eram humildes que não tinham dinheiro para adquirir uma farda convencional. Garibaldi decidiu então que todos sob o seu comando deveriam utilizar uma camisola vermelha, com o sangue que faltava derramar para a Itália estar unida e em paz. Tornaram-se os “camisas vermelhas” e a sua celebridade ultrapassou fronteiras.

Quatro anos depois o seu objectivo tinha sido cumprido e Garibaldi aproveitou para viajar a Londres. Era uma figura extremamente popular em Inglaterra. Na sua juventude tinha passado alguns meses em Newcastle e no norte do país e o facto da criação do estado italiano significar uma derrota política para austríacos e franceses, rivais de Londres, transformavam-no automaticamente numa personagem bem vinda na capital inglesa. A sua gesta impressionou tanto os seus contemporâneos britânicos que os fundadores do Nottingham Forest decidiram homenageá-lo da forma mais singular. A partir de 1868, iriam subir ao relvado também como “camisolas vermelhas”. Seria o início de uma tradição no futebol inglês.

Os clubes que devem as suas cores ao Forest

A decisão dos dirigentes do Forest acabou por ser fundamental para a popularização do vermelho nos campos de futebol mundiais. O clube era conhecido no futebol inglês por manter excelentes relações com vários emblemas. Em 1888, dois antigos jogadores do Forest escreveram ao clube a pedir ajuda. Faziam parte de um novo projeto desportivo, o Woolwich, mas o clube não tinha dinheiro para equipamentos. Pediram alguns antigos do Forest emprestados e receberam duas caixas com vinte camisolas vermelhas e uma bola. Anos depois o clube abandonou o nome Woolwich pelo de Arsenal mas manteve-se fiel à cor vermelha. Não foi o único caso. Também o Liverpool foi um dos clubes que o Forest ajudou nos seus dificeis inicios. Criado para dar uso ao Anfield Road, o estádio anteriormente ocupado pelo Everton, o Liverpool FC foi criado de forma quase artificial e nas suas origens não sabiam que cor utilizar. Graças a amigos comuns, os dirigentes do clube conseguiram persuadir os seus equivalentes do Nottingham a ceder-lhes alguns exemplares dos seus. E assim nasceu a lenda dos “Reds”.

Durante a década final do século XIX o vermelho tornou-se numa cor cada vez mais popular. Clubes como o Charlton ou o Middlesborough começaram a utiliza-lo também por influência do Forest, que então tinha-se afirmado como um dos grandes clubes profissionais da Football League. Mas na Europa e na América Latina também houve dedo do Nottingham na  popularização da cor vermelha. Em 1903 o clube realizou uma das habituais digressões pelas cidades do Danúbio a que os ingleses se tinham habituado. Em Praga os adeptos do Sparta ficaram tão impressionados com a qualidade dos rivais que pediram-lhes uns exemplares dos seus equipamentos para ombrear com os seus rivais do Slavia, que utilizavam a cor vermelha a par da branca na sua camisola principal. Dois anos depois o Forest viajou até à Argentina para disputar vários jogos amigáveis. Uma vez mais a classe dos seus jogadores deixou os adeptos locais impressionantes e os dirigentes de um modesto clube de Avellaneda, o Clube Independiente, inspiraram-se nas suas flamantes camisolas para desenhar o seu próprio equipamento.

A fama do Forest foi-se desvanecendo com o tempo até que Brian Clough resgatou a equipa da 2º Divisão inglesa e levou-a até a um bicampeonato europeu que mais nenhum clube inglês desde então conseguiu repetir. O Nottingham tornou-se na única equipa da história com mais titulos continentais que nacionais. As suas camisolas vermelhas permaneciam idênticas mas agora já não era novidade. A sua missão evangelizadora tinha mudado para sempre a natureza dos equipamentos de futebol. Ironicamente, o primeiro título europeu do Nottingham foi conquistado depois da equipa eliminar o campeão em título, o Liverpool. Uma equipa que também utilizava o vermelho, uma velha dívida emocional paga finalmente em campo. Uma forma única de manter viva a chama rebelde de Garibaldi – a quem o clube deu o nome de um dos seus salões no City Ground – mais de um século depois da sua gesta histórica.

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