Nawetane, a escola do futebol africano

Em África o futebol é algo muito mais profundo que um desporto. Faz parte da nova etapa na vida de um continente que ainda está a aprender a descobrir-se na sua alma mais interior e profunda. Longe das organizações, repletas de corrupção, os torneios amadores conquistam as ruas e preparam os mais novos para brilhar no futuro. Os Nawetane são a verdadeira escola do futebol africano.

O futebol rebelde

No século XIV o monarca inglês Eduardo II deu ordem de prisão a todos aqueles que jogavam uma forma rudimentar do que hoje é o futebol. Acusavam-nos de brigões, de destruírem as colheitas e, sobretudo, de deixarem de lado o importante treino do arco e flecha. Desde então a sociedade e o futebol evoluíram  e muito, mas em África ainda há gente presa por ser apanhada a jogar pelas ruas.

Aconteceu no Gâmbia, em 2003, quando o polémico presidente, Yaya Jammeh, declarou publicamente que o “Nawetane” estava proibido durante os meses das colheitas. Poucos dias depois de promulgar a lei, os primeiros rapazes foram detidos, julgados e forçados a pagar uma multa para a qual, naturalmente, não tinham dinheiro. Acabaram presos. Foram as primeiras vitimas de uma legislação que durou pouco. A contestação popular fez-se ouvir. Os Nawetane mexem no mais profundo do coração futebolístico do continente negro. São a sua verdadeira base, escola, formação.

Desde que o jogo passou dos colonizadores europeus para os bairros populares, tornou-se habitual que os mais novos conquistassem as ruas com torneios amadores, com regras próprias, onde testavam o seu espírito de sobrevivência, a capacidade técnica que lhes permitiria destacar no futuro, quando confrontados com jogadores de outros continentes, ao mesmo tempo que moldavam o seu poderio físico que seria uma das suas imagens de marca. Afinal, o jogador africano, não cresceu nas ruas pavimentadas, em campos relvados ou com um livro debaixo do braço. Forjou-se nos Nawetane que se multiplicaram de tal forma que passaram a ser parte do folclore comum do continente negro, de país para país, de região para região, sempre com a mesma essência.

Desafiar as estações

Etimologicamente, Nawetane significa na maioria dos idiomas e dialectos da África Ocidental, uma atividade realizada durante a temporada das chuvas. Mas a popularidade do futebol na região, sobretudo a partir dos anos 30, tornou-se tão omnipresente que a sua associação directa ao jogo acabou por ser inevitável. Ao largo de vários meses, o futebol conquistava as ruas e desafiava os elementos. Diferente das ligas oficiais de cada país, o Nawetane transformou-se num campeonato paralelo, com regras e uma história só suas. E nasceu de forma quase simultânea em países tão diferentes como o Senegal, a Gâmbia, os Camarões ou o Gana.

O futebol conquistou as ruas e com elas, os mais pobres. Incapazes de poder praticar futebol profissional, presos aos campos nas zonas rurais e a trabalhos fisicamente exigentes nas cidades, os africanos ocidentais encontraram nestas pequenas ligas o seu divertimento e a sua forma de expressão. Equipas amadoras, essencialmente compostas pelos mais novos, desafiam-se umas ás outras com pedras como balizas e uma bola que tinha não se de ultrapassar os adversários mas também os elementos e as especificidades de cada campo improvisado. Nesse ritmo endiabrado começavam a forjar-se os jogadores do futuro. Todos os grandes nomes do continente, de Weah a Keita, passaram por aqui antes de acabarem recrutados por equipas profissionais.

A popularidade dos torneios foi tal que, enquanto os estádios se esvaziavam, as ruas enchiam-se de admiradores destes malabaristas da areia, da lama, da água, dos elementos. A maioria das ligas africanas, pautadas pela corrupção, eram incapazes de competir com esta explosão de criatividade e ritmo e muitos dos clubes passaram a enviar olheiros, de forma regular, para seduzir os mais entusiasmantes jovens futebolistas das ruas.

A imagem de marca do futebol africano

De certa forma, os Nawetane não são apenas a escola do futebol africano, tal como o conhecemos. São também a marca da sua essência mais genuína.

À medida que cada vez mais cedo as jovens promessas africanas são recrutadas por clubes, especialmente do Velho Continente, para serem versados nas artes dos conceitos técnico-tácticos, mais necessidade têm os africanos de defender as origens de um estilo tão seu e com o qual conquistou a admiração do resto do mundo. Com a introdução definitiva de conceitos globalizados na preparação, treino e desenvolvimento táctico do jogo, os filhos dos Nawetane, como os malandros brasileiros ou os potreros argentinos começam a sentir-se cercados, rodeados de filosofias que deixam pouco espaço para a improvisação, para a criatividade e para o futebol como modo artístico de sobrevivência.

Mas onde quer que exista uma bola a serpentear com o vento a terra africana, haverá sempre um par de miúdos dispostos a desafiar tudo o que conhecem e gente que os rodeará para admirar esse talento quase inato para a improvisação. Enquanto esse cenário se repetir, de Dakar a Yaoundé, o Nawetane seguirá vivo.

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