Mwepu Ilunga, o palhaço triste

A África negra demorou a lá chegar. O Egipto representara o continente em 1934, Marrocos fizera-o em 1970, mas foi apenas à terceira, em 1974, que uma selecção subsariana integrou a fina-flor do futebol mundial. O país anfitrião era a República Federal da Alemanha — na altura havia outra, a República Democrática Alemã, curiosamente sorteada para o mesmo grupo da primeira, o Grupo 1 — e João Havelange noviciava a Taça FIFA, em substituição da Taça Jules Rimet, cuja entrega estava agendada para 7 de Julho, no Olympiastadion.

A origem de um país chamado Zaire

Dos 16 participes, quatro estreavam-se: RDA, Austrália, Haiti e Zaire. Só que o Zaire, que já não é Zaire, nem sempre o foi. A Bélgica, à boa maneira ocidental, tratou de cumprir a tradicional colonização em prol da miséria alheia e o país foi oficializado em 1908 como Congo Belga. A independência, tumultuosa, viria cerca de meio século depois, em 1960, dando berço à recém-nascida República Democrática do Congo. A infância foi terrível, contudo. As estimativas mais conservadoras apontam vítimas mortais na ordem das dezenas de milhares durante os primeiros anos de soberania. A ditadura estava à porta, foi só empurrar, e o golpe militar de 1965, norteado pelo general Mobutu com o apoio dos Estados Unidos, enterrou o Congo numa autocracia odiosa. O novo regime, na tentativa de lavar as nódoas do passado colonial, efectivou uma política de «africanização», alterando o nome a pessoas, cidades e até ao próprio país. O futebol foi só um ardil. Com a remissão de verbas para o desporto-rei, Mobutu soube dar ao povo um exercício de patriotismo; uma causa onde pudessem, com todo o orgulho, consagrar a sua africanidade.

Do céu ao inferno na fria Alemanha

A potência maior do futebol congolês é o Tout Puissant Mazembe, clube que estarreceu o Brasil em 2010 ao eliminar o Internacional de Porto Alegre nas semifinais do Mundial de Clubes da FIFA. Em 1967, logo na sua primeira participação na Liga dos Campeões da CAF, o TP Mazembe, então como TP Englebert, venceu a prova. Repetiu a conquista no ano seguinte e foi finalista em 1969 e 1970, completando um façanhoso ciclo de quatro finais em quatro possíveis. No plantel estava Mwepu Ilunga, um miúdo de 17 anos que, não muito depois, estaria na Alemanha a escorar nos ombros o peso de um continente inteiro.

A selecção também cumpriu. O Gana vencera as edições de 1963 e 1965 da Taça das Nações Africanas [CAN] mas na final de 1968 os «estrelas negras» prostraram-se aos pés da frota congolesa. Em 1974, já como Zaire [o nome vigorou entre 1971 e 1997], os «leopardos» de Mobutu somaram uma segunda [e última] CAN ao palmarés, esmagando ainda Togo, Camarões, Gana, Zâmbia e Marrocos na qualificação para o mundial desse ano. A ditadura rejubilou. Cada jogador recebeu uma casa e um Carocha, cortesia da Presidência, e lá viajaram para a Europa, os novos heróis de África, em busca de um lugar ao sol no Verão alemão.

O debute do Zaire em mundiais de futebol deu-se a 14 de Junho, no Signal Iduna Park. Pela frente, uma selecção escocesa com Denis Law no elenco, uma lenda do Manchester United, Bola de Ouro em 1964. The Lawman, em final de carreira, não foi à rede. A Escócia levou os pontos, é certo, mas o Zaire bateu-se bem. A derrota por dois não perverteu as aspirações e a quimera do apuramento, tão utopicamente sedutora, sobreviveu à estreia. Com Dortmund para trás, o grupo seguiu para Gelsenkirchen, cidade onde disputaria os derradeiros dois jogos. À chegada, contra aquilo que lhes havia sido prometido, não existia chafariz financeiro. Não havia dinheiro. Os jogadores amotinaram-se e acusaram de roubo a facção federativa da comitiva zairense, ameaçando-a com a falta de comparência no jogo seguinte. O adversário, curiosamente, era a Jugoslávia, país natal do míster Vidinić, seleccionador do Zaire. Mobutu não estava na Alemanha, não viajara, mas enviara, sob fina bênção, uma comitiva gorda que incluía oficiais do governo, patentes militares e alguns feiticeiros para as cãibras espirituais. Os melhores do país, note-se. Vidinić, homem pragmático, convicto de que os jogos ganham-se com suor e trabalho e não com jaculatória ou incenso, pô-los a andar. Despeitados, os hierofantes acusaram-no de estar a alinhavar uma derrota diante dos seus por, alegadamente, ser incapaz de trair a bandeira.

Ilunga, o homem que evitou o drama e gerou a comédia

A 18 de Junho, a muito custo, o onze zairense acatou o dever de defrontar a Jugoslávia. Presentes de corpo mas pouco mais, o «protesto pacífico» dos «leopardos» no relvado do Parkstadion foi nada menos que um enxovalho: 9-0. Aos 20 minutos, a pedido do representante do ministério do Desporto, Vidinić, já a perder por três, trocou Mwamba Kazadi, o camisa 1, por Dimbi Tubilandu, o preferido de Mobutu. Foi a primeira substituição de um guarda-redes em campeonatos do mundo por motivos outros que não uma lesão. Para nada, diga-se. Tubilandu não só não estancou a invasão balcânica como completou a sova com mais seis golos. Mobutu levou a peito. A aura estadista não admitia máculas quando o futebol era o músculo  no orgulho da nação. O estrilo foi entregue no balneário, com a promessa militar de que se consentissem mais de três golos no último jogo, nenhum dos jogadores regressaria a casa. O próximo, contudo, não era um adversário qualquer. Na agenda estava a selecção que vencera três das quatro edições anteriores; o tricampeão Brasil, agora a fazer contas à vida, cujo apuramento dependia, em caso de empate entre Escócia e Jugoslávia, de uma vitória por três diante do Zaire.

Foi assim, nestes termos, que às 16h do dia 22 de Junho as quatro selecções do Grupo 2 subiram ao campo para definir as duas vagas em disputa. Em Gelsenkirchen, Jairzinho abriu aos 12 minutos 1-0 para o Brasil. Rivelino, o Reizinho do Parque, fez o segundo aos 66. Aos 79, com o nulo a martelar em Frankfurt [Jugoslávia e Escócia empatariam a um mas os golos viriam depois], Valdomiro enfiou o terceiro, situando o escrete na segunda posição do grupo. Não houve quarto, ficaram-se pelos três, mas ainda havia história para espremer neste jogo.

Minutos depois, Mirandinha, atingido por Tshimen Bwanga, caiu à entrada da área zairense. O árbitro viu e marcou. Ao soar do apito, com os brasileiros ainda a discutir entre si as regras da primazia na marcação de faltas, Mwepu Ilunga abandonou a barreira e chutou a bola para longe. O mundo riu, claro. Às gargalhadas. Os «pretos» nem as regras sabiam. Os trolhas da copa serviram para isso, no fundo, para divertir a fidalguia da FIFA, ao mostrarem ao mundo que em África não se joga futebol, joga-se à bola.

Ainda hoje o lance roda. Há 43 anos que o pontapé de Ilunga diverte os incautos, inscientes de que por detrás da sua ingerência estava o desespero e a impotência. A ameaça era real. Um quarto golo seria o adeus à pátria para aquela gente, a incomportável renúncia às raízes e à família. O Zaire acabou por abandonar a Europa de joelhos, reduzido ao estrelato de um palhaço de rua, com um dos piores registos de sempre em campeonatos do mundo: 14 golos sofridos e nenhum marcado.

A chegada a Kinshasa foi amarga. O povo virou a página, deslustrado, e se à partida houve grito, à chegada não houve nada nem ninguém. O silêncio foi o castigo. Mobutu continuou a espartilhar o país até 1997 e os «leopardos», na maioria votados à indigência e ao anonimato, fizeram da vida um longo jogo contra a pobreza. Mwepu Ilunga faleceu num hospital da capital, em 2015, vítima de doença prolongada. O TP Mazembe conquistou outras três Ligas dos Campeões, devolvendo algum fôlego ao futebol congolês, mas a selecção jamais auferiu tamanha resiliência. Zaire ou República Democrática do Congo, tanto faz. Nenhum deles voltou a atear a glória no coração africano.

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