Mundialito, o torneio maldito da FIFA

Em 1980 o futebol dispôs-se a celebrar as bodas de ouro dos Mundiais. A FIFA decidiu reunir os anteriores campeões do Mundo para um torneio singular. A festa transformou-se num comício político de apoio às ditaduras que dominavam a América do Sul. Seria também o principio do seu lento fim.

 As mais polemicas Bodas de Ouro da história do futebol

Um Maracanazo não parecia ser suficiente.

Aos 80 minutos, diante de uma eufórica legião de uruguaios, Waldemar Vitorino apontou o golo da vitória. Pela segunda vez em trinta anos o Uruguai batia o Brasil pela mínima na final de um torneio FIFA. Em 1950, no estádio Maracana, o triunfo tinha significado o segundo titulo mundial para os charrúas e um trauma do tamanho de Hiroshima, como diria mais tarde Nelson Rodrigues, para os canarinhos. Em 1980 a vitória uruguaia era menos simbólica. Em disputa entre os dois gigantes sul-americanos (entre eles estavam cinco dos onze Mundiais disputados) estava apenas o Mundialito. Um torneio efémero como o próprio tempo mas que deixou profundamente a sua marca na sociedade sul-americana.

A realização de um micro-Mundial, exclusivo dos campeões em titulo, era para a FIFA a forma ideal de celebrar os cinquenta anos do grande projeto de Jules Rimet. A ideia tinha rondado a cabeça de Havelange há alguns anos, sobretudo graças à influencia do uruguaio Washington Cataldi. Os sul-americanos, sempre entusiastas de torneios contra os seus rivais europeus, apoiaram de imediato a iniciativa. O Velho Continente reagiu de forma mais cauta. Para as ligas significava uma pausa na competição em pleno Inverno. Para os selecionadores uma competição com muito risco e pouco prestigio. O problema mais sério estava reservado para os diplomatas. O torneio seria organizado no Uruguai – palco do primeiro Mundial – e contaria com a presença de três potencias do “Cono Sur”, todas elas dirigidas por governos militares cujas ditaduras eram abertamente questionadas na Europa. Dois anos antes, na Argentina, a ausência de Cruyff e a polemica à volta dos desaparecidos e presos políticos tinha ensombrado o torneio. O regime do Uruguai – tal como o do vizinho Brasil – não era diferente. Celebrar um torneio internacional era uma forma de reforçar o prestigio do regime no estrangeiro e de estrangular, ainda mais, qualquer movimento de oposição interna. As grandes companhias europeias duvidavam da validade do argumento e a maioria escusou-se a participar no torneio como patrocinador a pesar da insistência de Havelange. O homem de confiança da FIFA, o grego Angelu Vulgaris, tinha-se recusado a participar num negócio que não incluísse também os direitos do Mundial de Espanha. Era ele que originalmente tinha os direitos. Mas não seria o protagonista da festa. Em cena acabava de entrar Silvio Berlusconi.

A perigosa ascensão de Berlusconi

O empresário italiano, ainda um grande desconhecido no meio da comunicação social europeia, tinha aberto a sua cadeia de canais por cabo através da compra de licenças de vários canais regionais e autonómicos. Tinha os meios mas não tinha com que preencher a programação da sua nova cadeia. Um torneio de futebol com a seleção italiana – depois de um ano onde já se tinha disputado o Europeu no país transalpino com excelentes audiências – parecia ser a forma perfeita de arrancar. Berlusconi ofereceu à FIFA, através de Artemio Franchi, presidente da UEFA e antigo presidente da federação italiana, comprar os direitos de transmissão e difusão dos jogos. Foi uma jogada de mestre que o lançou para a ribalta. Para Havelange era a solução ideal que lhe desbloqueava o problema de ter uma grande competição e nenhuma plataforma para divulgar. Só faltava o espetáculo desportivo.

Graças às habituais manobras de pressão, Havelange conseguiu reunir a cinco dos seis campeões do Mundo. Apenas a Inglaterra se manteve firme. O governo de Tatcher tinha claramente avisado a Football Association que participar num torneio dessas características numa zona do globo onde o clima de tensão e hostilidade com os ingleses era elevado fazia pouco sentido. A pouca vontade dos clubes perderem os seus melhores jogadores em plena época do Boxing Day fez o resto. A FIFA convidou a Holanda – como seleção derrotada na final dos dois Mundiais anteriores – para o lugar dos ingleses e a proposta foi aceite. Foi a última participação da “Laranja Mecânica” num torneio internacional durante oito longos anos. Os holandeses foram enquadrados num grupo com italianos e uruguaios, enquanto que argentinos, brasileiros e alemães disputariam o outro lugar na final. Os jogos começaram a 30 de Dezembro e a competição seguiu até 10 de Janeiro. Ninguém sabia muito bem o que esperar desta reunião de estrelas.

 A estrela no peito do Uruguai

Os anfitriões bateram por 2-0 uma débil Holanda antes de eliminar a Itália da forma mais dura possível num dos jogos mais violentos disputados na década. No outro grupo os brasileiros, liderados por Zico, Sócrates e Toninho Cerezo, destroçaram a campeã da Europa em titulo, a Alemanha, por um claro 4-1 a pesar de terem começado o jogo a perder. O empate contra os vizinhos argentinos foi suficiente para carimbar o passaporte para a final disputada num Estadio Centenario repleto de gente pronta a rever uma final histórica. Eduardo Maspoli, guarda-redes dos campeões do Mundo em 1950, era o selecionador uruguaio. Antes do jogo motivou os seus jogadores com memorias dessa tarde. Barrios marcou primeiro, ao minuto 50, mas o Brasil manteve o sangue frio, por uma vez, e empatou por Sócrates, de penalti, doze minutos depois. Quando muitos contavam com um prolongamento, Vitoriano, desfez a igualdade. Como Gighia, tornou-se em mais um dos fantasmas do futebol brasileiro.

O Uruguai transformava-se subitamente no campeão dos campeões. Mas havia pouco que festejar por parte dos organizadores do torneio. Nas bancadas, os espectadores, cantavam abertamente “Se va a acabar, se va acabar, se va a acabar la ditadura militar”. Era o fim de uma era para o futebol sul-americano.

 O triunfo que ninguém quer reclamar

Com o passar dos anos o Mundialito tornou-se na competição maldita da FIFA.

A pesar de ter organizado e fomentado a prova, a FIFA retirou-o das suas competições oficiais e não há nenhuma menção institucional ao torneio na sua documentação autorizada. Da mesma forma o governo uruguaio e a federação do país decidiram renegar o seu triunfo. Não consta da lista de títulos internacionais reconhecidos pela federação charrúa nem tem um especial eco entre adeptos e imprensa quando se relembram duelos com italianos, holandeses ou brasileiros. O segundo Maracanazo parece não ter sequer existido.

Á medida que as ditaduras militares sul-americanas davam passo, na segunda metade dos anos oitenta, a regimes democráticos, as vozes criticas contra o Mundialito foram aumentando de tom. Foram denunciadas execuções e desaparecimentos orquestrados durante a prova pelo regime. A perseguição ao grupo terrorista da oposição, Tupamaru, intensificou-se com a preciosa ajuda dos serviços secretos argentinos, brasileiros e norte-americanos. Henry Kissinger, também ele um fanático do jogo, incentivou o regime uruguaio a usar a competição para ajustar contas internas e reforçar o seu prestigio internacional como um regime estável. Para a maioria dos uruguaios era evidente que o torneio era uma forma do regime – ainda bastante influente nos corredores de poder do futebol sul-americano – comprar um pouco mais de tempo no poder. Mas no entanto, um mês antes da prova começar, um referendo convocado pelos militares resultou numa inesperada derrota eleitoral. A ditadura manteve-se ativa durante mais meia década mas o regime estava caduco. Até nesse sentido, a vitória no Mundialito pareceu datada e deu aos uruguaios pouca vontade de celebrar. Para a FIFA foi uma forma oportuna de encher os cofres. O sucesso também acabou por beneficiar a Berlusconi que acumulou uma pequena fortuna e prestigio e influencia que explorou nos anos seguintes nos círculos de poder europeus. Tinha começado outro mundo!

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