Mundial 1950, o Milagre de Belo Horizonte

O golo de Ghiggia definiu um antes e um depois na história do futebol brasileiro no Mundial de 1950. Mas os ingleses terão outra recordação dessa longa e angustiante viagem. Na tarde de 29 de Junho um remate certeiro rasgou o orgulho dos criadores do beautiful game. E mostraram que o futebol tinha crescido e saído de casa dos pais para procurar o seu lugar no Mundo.

A hora do Brasil

Com a Europa destroçada pela II Guerra Mundial era inevitável que o quarto Mundial fosse organizado longe do Velho Continente. Jules Rimet tinha sido forçado a cancelar as edições de 1942 e 1946, e durante os anos da guerra dormiu com o sagrado troféu debaixo da cama. Com a paz chegou a reorganização e sem grandes dificuldades o presidente francês aceitou voltar à América do Sul. O Brasil seria o anfitrião de um torneio que seria o da sua consagração. Para tal construíram vários estádios novos, incluído o mítico Maracanã, o maior do mundo à época. Os brasileiros queriam um torneio com os melhores e foram fundamentais nas negociações entre a FIFA e a FA inglesa. Depois de 17 anos de afastamento, as federações das ilhas britânicas aceitaram voltar a juntar-se à FIFA.

A Inglaterra preparava-se assim para o primeiro Mundial da sua história. E até então ninguém tinha verdadeiramente mostrado ser superior ao onze britânico. Parecia que os brasileiros tinham encontrado um rival à altura. No entanto, tal como em 1930, as longas viagens atrapalharam o projeto de Rimet. O presidente da FIFA abandonou o modelo em play-off e apostou pela criação de quatro grupos de quatro. Mas, como sempre, houve desistências de última hora. A Índia recusou viajar se fosse obrigada a jogar com chuteiras. A Turquia também recusou pagar os elevados gastos. França e Portugal, eliminados, foram convidados pela FIFA a ocupar os seus lugares. Falta de dinheiro e interesse levou ambos os países a rejeitarem o convite. A Itália, num grave processo de reconstrução, tinha direito a um lugar por ser campeã em titulo. Mas só com Rimet a pagar a viagem do seu bolso a Federação aceitou viajar até ao Brasil. Sairia do torneio pela porta pequena. No total havia só 13 seleções para a festa.

A humilhação britânica

O torneio teve lugar no final de Junho, em pleno Inverno tropical. O Brasil era favorito e no primeiro jogo goleou por 4-0 o México. Mas o empate contra a Suiça deixou os brasileiros inquietos pela primeira vez. Era um aviso. No decisivo jogo com a Jugoslávia a vitória por 2-0 garantiu um lugar na final mas deixou no ar muitas dúvidas. O Uruguai, de regresso depois de 20 anos de ausência, beneficiou de ter de disputar só um jogo. A goleada por 8-0 à Bolívia deu tempo aos uruguaios para preparar a segunda fase onde surgiriam muito mais frescos e preparados que os rivais. A Suécia, que batera a Itália de forma surpreendente, e a Espanha de Zarra.

E a Inglaterra? A mesma Inglaterra que um mês antes tinha derrotado por 6-0 a seleção do Resto do Mundo?

Depois de uma longa viagem os ingleses chegaram a 20 de Junho ao Rio de Janeiro, onde teriam a sua sede. A época doméstica tinha acabado há mais de um mês e muitos dos ingleses estavam excessivamente confiantes. O grupo parecia acessível e muitos já se imaginavam a calar o lotado Maracanã. No primeiro jogo, a 25 de Junho, o conjunto inglês dominou e bateu o Chile, no Rio de Janeiro. A vitória da Espanha sobre os Estados Unidos deixava antever um duelo quente entre europeus. Foi já a pensar no encontro com os espanhóis que os ingleses apanharam um avião para Belo Horizonte onde defrontaria os Estados Unidos. Parecia um mero trâmite. De tal forma que a estrela da equipa, Stanley Matthews, ficou na bancada a descansar para o jogo com os espanhóis. Era um jogo desigual, uma equipa de profissionais de primeira linha contra outra de amadores. E no entanto assim é o jogo. Assim foi o “milagre de Belo Horizonte”, como baptizaria depois a imprensa. Aos 20 minutos de jogo já a Inglaterra tinha tido dez claras oportunidades de golo.

Todas esbarravam nas mãos de Frank Borghi. Os americanos nem tinham tido uma só oportunidade. Até que ao minuto 37 um centro-remate de Walter Bahr encontrou Joe Gaetjens – que era haitiano e acabaria por ser executado pelo governo do Haiti quinze anos depois – que desviou para as redes de Bert Williams. O público entrou em delírio nas bancadas e os jogadores americanos abraçaram-se de forma euforica. Billy Wright, o histórico capitão inglês, nem conseguia acreditar. A segunda parte transformou-se num massacre mas, por uma razão ou por outra, a bola parecia fadada a terminar longe das redes americanas. E assim terminou o sonho de superioridade inglês.

O Maracanazo

Curiosamente os americanos seriam goleados pelos chilenos (5-2) enquanto que os ingleses voltariam a cair, por 1-0, às mãos dos espanhóis.

A imprensa inglesa tentou justificar a derrota com o clima tropical mas o mito da superioridade britânica tinha-se desfeito como um castelo de cartas. Durante semanas em Inglaterra ninguém parecia acreditar na precoce eliminação e houve mesmo quem pensasse que o título do jornal era um erro e que o jogo tinha acabado 10-0 a favor dos ingleses. A equipa voltou a casa enquanto a prova entrava na fase derradeira e dramática que daria origem a livros e histórias sem fim.

O remate de Ghiggia consagrou o segundo bicampeão da história e prolongou a agonia brasileira. Mas nada marcou mais o Mundial do “Maracanazo” do que o semblante derrotado da “Armada Invencível”.

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